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orlando ciuffi filho






Minha atual morada/Meu novo local de trabalho

 minha atual morada
Meu novo local de trabalho
 
O eterno dia está como sempre muito claro e a medonha e monstruosa bola de fogo de cor vermelha encarnada soltando colossais labaredas de muitos quilômetros de comprimento por toda sua circunferência, conhecida como estrela solar ou simplesmente sol não está tão longe como eu imaginava anos atrás.
Ela queima desintegrando totalmente seus próprios astros, planetas e satélites quando chegam muito perto e outras estrelas menores com seu sistema planetário inteiro quando cansadas e descuidadas desviam-se de suas rotas e inadvertidamente são instantaneamente sugadas pela estrela assassina, sem terem nenhuma possibilidade de defesa.
Os ÓVNIS, os asteróides, os cometas e demais corpos celestes tidos como independentes seguindo pela última vez sua trajetória até então definida que enfadados pela quase eterna rotina, abestalhados descuidam-se de seu caminho aproximando-se demais, deixam-se serem atraídos pela sua descomunal força de gravidade e não continuam ilesos. São instantânea e impiedosamente destruídos, manchando longos espaços da abóbada celeste com seu sangue espalhado, felizmente não chegando a jorrar e nem mesmo pingar sobre nós, pois muito rapidamente tudo vira pó.
Minha exuberante e homicida estrela sol destrói tudo a sua volta transformando em fumaça cósmica, cujo borrão cinza escuro em pouco tempo se mistura aos dejetos e sangue espargidos pelos céus caminhando a principio rápido, totalmente desgovernado, qual um bêbado na madrugada tentando achar o caminho de seu barraco.
Tal fumaça que foi o que restou de planetas e estrelas inteiras, com suas construções, habitantes e tudo que por ventura possa ter existido, logo se afasta. Aos poucos vai desaparecer vagarosa, tranqüila e serena, agora transformada em montanhas de fumaça branca como algodão doce, ou nuvens vistas de dentro de um avião em vôo, nos longínquos e enormes buracos negros do espaço sideral sem deixar rastros ou restos.
Simplesmente não fica nenhum vestígio da existência desses possíveis maravilhosos e talvez até povoados corpos celestes.
Chego até ter a impressão de que todo o infinito vai desaparecer em pouco tempo, pois milhões de estrelas ao mesmo tempo fazem exatamente a mesma coisa que a minha preferida. Entretanto a todo instante ouço as explosões de milhões de outras delas ao longe que completando seu ciclo de vida explodem apagando-se. Suas minúsculas partículas se unem solidificando em uma infinidade de pedaços maiores dando origem a bilhões de outros astros, planetas e satélites que rápidos e submissos acomodam-se ao redor de uma estrela sol qualquer que acabara de ficar solitária, porem viva, rodando a sua volta obedientes e sem ficarem tontos, como gigantescos carrosséis de circo. Assim formam-se outros sistemas solares novos para começarem seus trilhões de anos de vida.
Esse circulo vicioso do universo é realmente interminável e concluo para minha decepção que o infinito é realmente ilimitado e sem fim.
Pelo que vou lhes contar tenho certeza que o seu desejo será exatamente como o meu que é de que ele desapareça, mas infelizmente isso não acontecerá. Ele foi realmente muito bem planejado e executado, mas tenho uma proposta para modificá-lo se todas as pessoas auxiliarem-me.
Com calma vou narrar-lhes onde e como moro e no final direi minha pretensão e conto com a ajuda de todos, pois meu plano é realmente muito bom, sensato, simples e faz sentido e se realmente for posto em prática pode e deve mudar tudo. Com certeza para melhor.
----------------------------------------------------------------------------------------------------------Tal visão assustadora que descrevi acima não se parece nem um pouco com os enormes e vários braseiros daqui onde moro, pois são compostos de quantidades incontáveis de corpos humanos e não celestiais que incessantemente incendeiam provocando densa fumaça preta e fortíssimo e apavorante mau cheiro de enxofre com carne queimada, nos mares de lava aqui existentes aos milhares.
Tal cena é imensamente mais feia que a outra e não desaparece em nenhum buraco negro, branco, vermelho ou amarelo. Ela é permanente e horrível.
A grande diferença é que aqui os corpos não viram fuligem.
A fumaça preta e mal cheirosa desprendida incessantemente é causada pela queima das roupas, das próteses, dos excrementos, das tênias e lombrigas, das larvas e germes que ainda permaneciam nos corpos humanos mortos e decompostos pelo tempo que passaram enterrados em suas catacumbas. Tais corpos defuntos ao chegarem aqui retornam a uma espécie de vida semelhante a de vocês aí na terra.   
Essas pessoas se queimam sem serem dissolvidas, provocando insuportáveis dores aos que se incendeiam por séculos seguidos não sendo destruídas jamais embora com certeza desejassem. 
Tais gases putrefatos que emanam do lugar são insuportáveis à qualquer ser humano vivo, por isso creio eu que o criador levou sua mãe em vida para o céu e não para cá, pois nem ele próprio veio. Só deu uma rápida passadinha e mesmo assim após sua morte. Em vida nem ele ousou estar aqui por um momento sequer.
As incinerações de tais pessoas jamais as destroem ou as matam queimadas por um motivo muito simples. Todas já estão mortas.
Muitas há muito tempo. Séculos até, entretanto as dores horríveis que sentem são reais e inacabadas, muito além do limite da suportabilidade por qualquer ser humano vivo, mas aqui ninguém mais é ser humano vivo e não tendo o dom de desfalecer são obrigados a conviver permanentemente com elas.
Até o presente momento e creio que por muito tempo nada mudará, a não ser que consigamos colocar meu plano em execução urgente.
Embora suas carnes desprendam, estilhaçam e são estupidamente lançadas ao ar sempre voltam às fornalhas para continuar o ritmo frenético da dança macabra de todos os participantes.
Constantemente vejo alguém inteiro sendo atirado em uma fogueira e logo seus pedaços voam ao longe caindo em outro local, misturando-se a outros pedaços unindo-se a outros corpos dilacerados e desfigurados, modificando invariavelmente suas feições de segundos antes. 
Chega até ser engraçado ver pessoas do sexo feminino de cor branca com enormes braços, testículos ou pênis de homens negros e vice versa. São apenas momentos que vejo tais cenas, pois instantes depois tudo se modifica.
Meu único divertimento é ficar assistindo para ver se consigo acompanhar e ver a coincidência de partes retornarem ao mesmo momento em seus devidos corpos, mas nesses longos anos que aqui vivo, melhor dizendo “onde permaneço morto”, jamais consegui assistir a montagem de tal quebra cabeça impossível.
Ainda tenho dúvidas se não seria melhor estar lá com eles ou permanecer cá fora sem sofrer nenhuma tortura física, mas assistindo a tudo sem nada poder fazer a não ser padecer do martírio mental por saber que a qualquer momento também poderei estar lá. Essa expectativa é horrorosa e deprimente.
Somos muitos a termos o privilegio de não participarmos do tormento logo ao chegarmos, por motivos diversos. O meu é por saber contar estórias. Invento-as constantemente para o lazer dos mandatários do lugar.
Para quem não se lembra mais de mim, pois há muitos anos deixei de conviver com as pessoas vivas, vou contar-lhes quem sou, ou melhor, quem fui. Eu era um escritor medíocre que nunca publicou nada e era chamado pelos amigos e me auto identificava com o pseudônimo de Velho gordo, careca e de barbicha branca.
Atualmente não sei como é minha aparência, pois não há espelhos ou nada que possa refletir minha imagem.
Dos cinco sentidos humanos quatro existem para nós privilegiados que ficamos apenas assistindo ao sofrimento alheio, mas não sei bem como ilustrar exatamente como são. São de formas diferentes das que eu tinha em vida.
Sinto o cheiro, por exemplo, porem ao tapar o nariz não me impede de continuar sentindo os mesmos cheiros que antes.
Ao fechar os olhos continuo enxergando do mesmo jeito, entretanto não vejo a mim mesmo, embora imagine que tenho massa muscular. Creio eu, pois os corpos dos outros que vejo dão-me a nítida impressão de serem compostos de carne, osso e sangue, principalmente quando os vejo aos pedaços fumegantes lançados ao ar, como folhas secas ao vento ou pequenas mariposas voando, entretanto jorrando sangue e até ouço o som de seus ossos sendo partidos.
Pedaços de suas carnes fétidas constantemente chegam até nós, gritando de dor pelas queimaduras, por menor que seja a partícula vinda.
Falo sem emitir som. Acho que é como dizem vocês vivos, por telepatia. O único som possível de se ouvir é a gritaria oriunda dos urros de agonia e desespero dos incendiados, pelas dores causadas infinitamente sem destruí-los.
Pensei em comparar tal alarido com o estrondoso ruído causado pelo encontro ao rio Amazonas com o mar, conhecido mundialmente por seu fragoroso barulho, mas creiam em mim: Quem já ouviu o estrepitoso baque das Pororocas pode multiplicá-lo por centenas de vezes para se ter idéia da quantidade de decibéis que estrondam por aqui ininterruptamente.
Meu tato é bastante apurado, pois sinto muito bem quando apalpo qualquer coisa. Já apanhei e joguei de volta ao fogo vários pedaços gritantes de cadáveres que chegam até mim. Isso é constante e é por isso que digo que meu tato é ótimo, pois sinto muito bem quando os pego, além de tatear os companheiros que estão comigo. Sinto perfeitamente suas carnes serem pressionadas pelas minhas mãos que com certeza são também compostas de músculos, nervos e ossos, pois só assim sentiria o tato.
Meu sentimento de contato também não existe em mim mesmo. Tento apalpar-me e nada sinto. Quando faço tal experimento tenho a impressão de ser de fumaça como os fantasmas de filmes de cinema.
Sempre se fala por aí que é horrível ser cego e não enxergar a si próprio, mas muito pior do que não se ver é não se sentir. Tentem pelo menos imaginar isso para saber como é péssimo. Descobri que a falta do tato é muito mais decepcionante e frustrante que a da visão.
Algum tempo antes deixei de devolver os pedaços às lavas deixando-os no chão próximos a mim, mas mesmo sendo uma minúscula parte de um dedo a gritaria que ela causou foi apavorante por isso tenho de ter o permanente trabalho de desfazer-me de tais carnes destroçadas, lançado-as de volta a procura de seus pedaços. Coisa que é simplesmente impossível, mas é o único afazer deles.
Imagino que faz parte das regras daqui eles adquirirem o direito de algum tipo de salvo conduto para passarem a alguma outra fase qualquer o fato de eles se juntarem corretamente, mas todos meus amigos com os quais me comunico nunca viram tal coisa acontecer. Saibam que tem gente aqui há milhares de anos.
Há muito tempo atrás assisti uma cena horrorosa que me fez proceder a devolução sistemática e rápida dos pedaços que caem a meu lado por medo de acontecer o mesmo comigo.
Estava bem perto de mim um dos privilegiados que demorou a jogar uma orelha que estava gritando perto dele e não sei como tal orelha saltou do chão direto em sua boca e daí para dentro dele.
Tal pessoa é conhecida de vocês. Trata-se do assassino de muitos de seus compatriotas, chamado Saddam Hussein. Como não existe aparelho digestivo em ninguém tal pedaço se manteve intacto em seu interior e ele não agüentando a gritaria em suas entranhas mais que alguns minutos atirou-se em uma das fornalhas sem ter sido autorizado.
Em todos os anos que estou aqui essa foi a única decisão tomada por livre arbítrio por uma pessoa, ou melhor, por um defunto, e por isso seu castigo passou a ser diferente. Creio que mais insuportável que aos outros, se é que aos demais posso dizer ser suportável.
Ele não se despedaça. Perdeu apenas os olhos, e sua língua fica totalmente fora da boca caída pelo queixo abaixo. Não sei se ele tinha vindo assim devido sua execução por enforcamento e o tinham arrumado e agora devolveram ao normal pós morte ou se tal desprendimento da língua fora ocasionada somente agora ao se atirar no tacho fumegante.
Seu corpo é atirado ao ar de fogo em fogo, inteiro e pelos seus gritos tão mais fortes e assustadores que dos demais suponho que suas dores e seu sofrimento sejam muito maior.
Acho que os corpos ao se partirem aos pedaços as dores ficam também repartidas para cada parte individual e ele ao permanecer inteiro deve sentir a dor completa. Não sei se é isso. Apenas imagino que seja. Isso é problema dele e quero mesmo é que ele se dane.
Como na visão o mesmo acontece ao tentar sentir-me como já disse há pouco. É impossível. Sei que existo, pois ando, enxergo, sinto cheiro, apalpo coisas, ouço imensuravelmente bem, embora quando vivo estivesse bastante surdo. Para minha decepção aqui me curei de tal doença, que me seria um premio se eu continuasse com ela. Melhor dizendo gostaria de ter perdido totalmente a audição, mas com certeza tal cura faz parte de minha punição que é ouvir muito bem. Eu teria de cumprir meu destino interminável de escutar os berros de sofrimento dos demais, que corrigirei para suportáveis e não insuportáveis como vinha dizendo até agora, pois não consigo o direito de em sendo insuportável, simplesmente não suportar e morrer por exemplo.  É pena. Já estou bem defunto.
Dos sentidos só não tenho o paladar, mas isso não tem a mínima importância, pois não existe comida de espécie alguma. Nem bebida nem nada para se alimentar. É desnecessário dizer, mas direi que tal prática é saudável para manter a vida e como não a temos mais, isso é o obvio insofismável.
Ia esquecendo de comentar que o desejo de alimentar e beber permanecem inalterável e a cada dia que passa aumenta consideravelmente. Para terem idéia do tamanho de minha fome e sede, pode ter certeza que comeria agora todos os bois e os porcos do Brasil inteiro, assim como beberia toda a água do Rio Amazonas e do São Francisco juntos, em um só gole, para tentar saciar minha atual vontade. Nem consigo imaginar o quanto estarei necessitando daqui a uns três ou quatro séculos.
É bastante comum dizer por aí “Daria todo o restante de minha vida para manter vivo meu filho doente terminal, ou meu pai ou minha mãe”, mas aqui eu digo constantemente: “Daria todo meu restante de morte, pela minha morte definitiva”. Morreu, acabou e fim, que era como eu pensava antigamente, mas que infelizmente descobri que não é nada disso.
Talvez você que estiver lendo essa estória pode estar se perguntando ou querendo saber de seus amigos, pois a mim não tem acesso, por enquanto, como tal estória chegou a você. Vou esclarecer porque e como tal conto foi colocado em suas mãos.
Sei perfeitamente bem que a passagem para cá é bastante simples e constante, pois basta morrer para vir.
Isso todos vocês já tem essa informação desde criançinhas, mas o que não sabem é que a ida daqui para aí é tão fácil quanto a vinda, pois se pode ir e voltar a todo instante.
É claro que tal procedimento só é permitido a determinados entes com poderes delegados pelos manda-chuvas da casa. Nós nada fazemos por vontade ou decisão própria. O tal do livre arbítrio já era. Não existe mais. Dele só temos a lembrança e o desejo.
Pelo que me disseram apenas o Saddam procedeu conforme já disse. Sem permissão. Ninguém sabe como conseguiu, pois o permitido só é possível após consentimento e sempre quando idealizado por eles. Nós temos o direito de pensar por nós mesmo sobre tudo que quisermos, mas daí a colocar algo em prática a coisa muda totalmente. É impossível. Não temos força para pegarmos um peso superior a um quilo, portanto não temos condições de erguermos sequer um demônio recém nascido, pois pesam mais de quarenta quilos.
No caso do Saddam com certeza alguma das autoridades do lugar errou, pois isso é uma prática quase constante entre eles. Erram muito.
Voltando a falar sobre como se volta para junto de vocês é o seguinte: São mortos como eu, que também usufruem dos direitos de não tentarem virar churrasco, mas capazes de executar os planos exigidos pelos chefões de fazerem ou induzir vivos de praticar algo de ruim com vocês, como por exemplo, atormentar alguma pessoa ou famílias inteiras. Insuflar alguma guerra, revolução ou destruição qualquer no planeta quando do interesse da casa, que é constante, pois eles têm acesso ao que mandam fazer ai e se deliciam com os resultados sempre catastróficos para vocês.
São vários os mensageiros do Príncipe das Trevas que os visitam invariavelmente.
Entre os que permanecemos ilesos as queimaduras, temos além dos contadores de estórias como eu uma gama enorme de outros falecidos que mais adiante contarei quem são. Explicarei em detalhes sobre todos.
Nós temos o transito livre.
Comumente comunicamos entre nós e nos damos bem, até porque ninguém tem poder algum de fazer nada com os outros. Somos todos defuntos iguais sem nenhuma capacidade a não ser a única que nos era a mais predominante em vida e só podemos colocá-la em prática a serviço deles.
Através dos enviados pelos Satãs ao mundo dos vivos, tento mandar informações a vocês, pois talvez por falha nas normas daqui tal coisa é permitido em suas leis. Imagino que seja descuido deles a gente ter alguma possibilidade de contar sobre isso aqui. É muito pior que os campos de concentração da segunda guerra, ou as carnificinas em massa nos tempos do domínio Romano ou Egípcio na antiguidade.
Não tenho certeza se recebem minhas informações, pois definitivamente não vejo novamente a mesma alma penada que solicitei tal favor, para saber se levou ou não, entretanto continuarei mandando minhas estórias para vocês.
Jamais alguém chegou aqui dizendo ter lido ou tomado conhecimento de algo mandado por mim, mas como tenho muito tempo e às vezes sobram-me períodos ociosos continuarei criando e enviando sobre minha atual morada e novo local de trabalho.
Se algum amigo ou familiar tomar conhecimento do que falo, não adianta ficar com raiva ou triste por eu não mandar o procedimento de como não vir para cá, porque não existe tal fórmula mágica. Não adianta tentar descobrir como devem proceder aí para evitar a vinda. Ela simplesmente é aleatória.
Fazem-se reuniões periódicas entre os demônios e eles decidem ao acaso quem deve vir. Para sua tristeza, digo-lhe que não há nenhum recurso, remédio ou providencias a tomar para evitar sua vinda. Basta ter muita sorte, pois a cada cem mil humanos que morrem apenas uma centena não vem. É quase que ganhar sozinho na mega sena da Caixa, várias vezes seguidas.
Pode ser mau, impuro, sem religião e péssimo caráter ou ser bonzinho, puro, religioso, bom caráter etc., que se cair no sorteio virá com certeza tanto os maus elementos como os “santos”.
Se valer de alguma coisa diria que o ideal é ser escritor ou exercer uma das outras atividades que irei mencionar depois. Talvez, se eles não cometerem nenhum erro que é muito comum, eu ter o privilegio de não permanecer queimando no fogo eterno, mas sinceramente não sei se é tão bom assim, pois nossa permanência assistindo o que se passa é tão assustadora e horripilante, que não sei se é melhor estar aqui no “oásis das trevas” ou nas chamas intermináveis.
Quando os mortos excepcionais como eu, são considerados descartados ou inúteis por falta de criatividade e repetições de seus predicados são lançados aos bilhões de desgraçados e como eles ficarão queimando eternamente, portanto nossa regalia não é inalterável. A qualquer momento estaremos lá. É apenas questão de tempo.
Em uma determinada ocasião quase tive esse destino, pois eu já havia visto muitos entre nós serem enviados para o sofrimento e propositadamente deixei de criar.  Passei a contar estórias repetidas para ver se me mandavam para lá para constatar a diferença e optar pelo melhor lugar, mas conversei com um escritor antigo muito conhecido de vocês, que me deu algumas informações interessantes.
Ele é simplesmente um dos maiores gênios de literatura mundial de todos os tempos. Nada mais nada menos que Dante Alighieri que continua criando maravilhas e me informou que em todos os séculos que aqui se encontra jamais viu alguém partir para os mares em chamas e voltar para o convívio deles. Entre eles citou-me Judas Iscariotes, Shakespeare, Kafka, Mao Tse Tung, Napoleão, Che Guevara, Dostoievski, Stalin, Sartre e muitos outros que foram para sempre após terem sido considerados descartados. 
Eu que até então imaginava a possibilidade de escolha e retorno, se me interessasse, tremi nas bases. Só não me borrei todo por total falta de fezes em meu interior oco. 
Veio-me então a dúvida atroz. Não seria melhor, assim como ele, o Poe, o Charles Chaplin, o Cervantes, o Chacrinha e vários privilegiados continuar por aqui mesmo?
Passei a ter as maiores inspirações de minha existência. Até então nunca tinha criado tanto como a partir desse dia. Quase disse no lugar de minha existência, “minha vida”, mas não passaria no crivo, pois vida não tenho mais, porém não posso também dizer de “minha morte”, pois descobri para minha grande surpresa que quando morremos não desapareceremos com a carcaça, pois agora posso dizer que continuo existindo, portanto também não estou definitivamente morto. Só não tenho como provar isso a menos que acreditem em mim através de meus contos se chegarem a ler. Nessa época não sei como consegui inspiração e escrevi uma estória pornográfica, cuja mulher chamada Rosa passou a ser para eles como Deus é para os humanos. Todos aguardam sua vinda para cá para te-la como esposa e gerar um filho para eles. São tão estúpidos que não entendem o que é uma pessoa criada em ficção e acreditam na verdadeira existência dela.
A propósito, meu maldito Alzaimen continua acompanhando-me por isso havia me esquecido de dizer que quando falei com Dante comentei que havia lido sua maravilhosa obra intitulada “O Inferno de Dante”. Ele confirmou-me te-la escrito aqui e enviado a nós, portanto agora posso afirmar com certeza que o que se cria aqui pode perfeitamente ser publicado e lido aí quando o portador passa a alguém que tenha interesse em divulgar.
Essa pequena historia que estou escrevendo não é de nenhum interesse para o pessoal daqui, pois é o dia a dia interminável do local e do conhecimento de todos, por isso é apenas um conto que enviarei apenas para vocês do mundo dos vivos na Terra.
Estórias maiores e geralmente de ficção com coisas que invento e inventarei sobre vocês é que são do agrado deles, que também continuarei mandando-lhes. Peço-lhes desculpas, pois minha passagem aconteceu no inicio do século XXI, daí eu não sei e nem faço idéia de quanto tempo já passou e pouca coisa fiquei sabendo sobre as novidades, evoluções e invenções conseguidas por vocês, por esse motivo minhas estórias estarão, sempre desatualizadas para o seu tempo. Só poderei escrever sobre as coisas que conheci quando vivi ai.
Quando eu me refiro em enviar para a Terra dá a impressão de que eu não estou no mesmo planeta que vocês e isso é outra coisa que não sei ao certo.
No inicio quando descrevi sobre o sol passei a informação quase convicta que estou na Terra e o sol que vejo é realmente a estrela central de nosso sistema planetário, mas às vezes imagino-me estar dentro dele próprio e o sol que vejo poderá ser outra estrela que forma outro sistema na via Láctea ou até em outra galáxia qualquer. Não estou certo sobre isso e se algum dia conseguir descobrir estejam certos que lhes falarei.
Voltando a narrativa digo que é lógico que torço para aparecer pessoas que escrevem para trazerem suas estórias e novidades da civilização viva, entretanto parece que a quantidade de escritores aí e aqui está diminuindo. São poucos os que aparecem e as informações mais recentes que tenho estão ficando cada vez mais aquém da atualidade de vocês, mas creio que minhas estórias servirão para alguma coisa. Talvez para assustar pessoas muito sensíveis e medrosas. Mesmo assim já me satisfaço com tal resultado, mas continuo pensando que servirá para concluir meu desejo que no final será devidamente explicado.
Soube que Zélia Gattai chegou aqui e procuro incessantemente por ela para tentar conseguir informações importantes sobre vocês que com certeza ela terá, mas infelizmente ainda não a encontrei. Nem sei se a mandaram para os tachos ou se ela está entre nós.
Meu antigo livro intitulado “Inferno” que foi vivido e escrito aí, cujo final foi exatamente a minha morte e a destruição do CD cuja estória estava gravada, foi um best-seller aqui, pois adoraram as artimanhas e feitos do “Aberração” que foi o personagem principal dessa minha estória. Tal narrativa já foi enviada, mas nunca soube se aí tomaram conhecimento dela. Gostaria que alguém entre vocês vivos que lerem esse conto procurasse saber se foi publicada para informar-me quando chegar se estiver entre os sorteados que permanecerão fora do fogo eterno.
Ficarei “eternamente” grato se a informação for completa, pois tinha os livros Paraizo e Tempestade e o conto Landinho que estavam escritos com algumas cópias feitas na impressora do computador que também gostaria de saber se foram publicados.
Todas as demais estórias que mandei daqui, além do “Inferno”, por descuido de minha parte não mandei com títulos, portanto saber se foram publicadas ou não ficará difícil, pois pode até ter sido apoderada por algum escritor safado, que se intitulou o autor e deu a estória algum título inventado por ele.
Talvez algum dia alguém chegue contanto tais estórias e então ficarei sabendo da publicação e quem foi o usurpador. Conforme a velha piada da freirinha do programa Terça Insana, rezarei por ele.
Voltando a falar sobre o Inferno (O livro e não minha morada atual) informo-lhes que como os lideres daqui sabem tudo sobre a Terra acharam ótimo o Aberração, figura central e notável, totalmente irreal e mágica para os conceitos dos humanos vivos e até dos demônios.
Ele era um indivíduo que eles jamais imaginaram existir no planeta por isso interessaram-se em ouvir repetidas vezes tal estória. Acharam-no maravilhosamente perfeito e o desejaram entre eles.
Insistiram para que eu dissesse onde encontrá-lo para irem buscá-lo, mas ao saberem que ele veio comigo exatamente ao mesmo momento e há tempos já estava sendo destroçado entre os corpos mutilados em suas panelas de lava incandescente. Sabedores da impossibilidade de trazê-lo de volta, satisfazem-se com a repetição da estória que para minha sorte mesmo depois de passados todos esses anos continuo contando-a com muita freqüência até hoje. 
Isso me deu tempo para criar novas e ótimas estórias, pois até então eu só tinha os dois livros e o conto já mencionado e inevitavelmente não passaria muito tempo em cair no ostracismo e ser descartado, pois as outras estórias não os agradaram e não tive permissão para contá-las muitas vezes. O conto Landinho nem terminei a narração da primeira vez, pois o acharam horrível. De muito mau gosto e de péssima influência. Atualmente nem eu mesmo lembro-me bem o que escrevi nele. 
Aqui é uma bagunça, pois os comandantes são piores que os governantes do Brasil, pelo menos até quando aí permaneci. Espero sinceramente que tenham mudado.
A incompetência daqui é simplesmente igual. Nunca se faz nada uma única vez. Estão sempre mudando o que imaginaram ser o certo, trocando por outra decisão simplesmente pior que a anterior e nunca chegam a um acordo até desistirem da pretensão inicial que nunca acaba concluída e tudo continua na mesma bagunça de sempre, ou até pior.
Voltando a falar no Aberração, foi um tal de cada um colocar a culpa do erro no outro em mandá-lo para as fornalhas que só vendo.
Sempre que conto tal estória brigas enormes e violentas acontecem culminando com a morte de vários deles, que se culpam um ao outro por não te-lo mantido junto a nós.
Isso mesmo que você leu. Por incrível que pareça eles são os únicos daqui que morrem. Eles têm esse direito que não temos, uma vez que oficialmente já estamos falecidos e eles não. Eles estão vivos e como tal podem morrer, mas não ficam vagando por perto ou penando nas caldeiras daqui. Eles simplesmente viram pó e são levados pelo vento. Dizem por aqui que é com as cinzas deles que se formam os cometas que vagam pelo espaço sideral, atormentando os corpos celestes. Certa ocasião vi pelo menos uns trinta mortos tentarem empurrar um único demônio nas chamas e não tiveram forças sequer de movê-lo do lugar de tão pesado que eles são, e mesmo que conseguissem tal feito não o mataria, pois a lava incandescente não lhes faz absolutamente mal algum. Eles entram e saem das fornalhas a todo instante sem que nada lhes aconteça, portanto rebelarmos e tentar matá-los é impossível. Somente eles mesmo que conseguem isso uns com os outros em violentas brigas onde usam suas garras, seus dentes afiados seus chifres e suas asas que cortam seus próprios corpos. Os tais tridentes afiados e a foice que comumente se fala na terra como sendo suas armas não existem. Não passa de invenção humana. Eles voam e muitas brigas acontecem sobre nós que entramos em desespero quando algum abatido cai sobre nossas cabeças antes de virar cinza. A dor de receber aquele peso enorme sobre nossa cabeça é horrível, e para nossa infelicidade não nos mata, pois já estamos bem defuntos.
Aqui tudo é tão ridiculamente organizado que não só o Aberração, como Hitler e a grande maioria de seus generais, Mussolini, Calígula, Nero, Osama bin Laden e muitos grandes inimigos das populações estão nos tachos de lavas. Como eles vários Faraós egípcios e muitos outros grandes criminosos da civilização que deveriam ser poupados para contar seus feitos aos iniciantes ao comando do local, por seus contínuos erros não foram poupados e acabaram lançados às chamas infindáveis, indevidamente.
Não errei dizendo que bin Laden está aqui. Ele já veio e bem antes que eu. As constantes informações de suas aparições em vídeos e televisões piratas ai na terra são falsas. Ele já paga por seus crimes a longo tempo.
Podem avisar o Bush para vir logo para eles se encontrarem preferencialmente no mesmo tacho.
Ele vai verificar que o fogo e a destruição do Afeganistão e do Iraque que ele provocou foram feitos bem fraquinhos perto do que verá e sentirá aqui.
Já que falei sobre isso é necessário que eu diga quais são os defuntos que são aproveitados.
Comecei falando de mim, portanto esclareço que os escritores e contadores de estórias não vão para as fornalhas eternas, pois são usados para contarem suas estórias aos principiantes a demos ainda crianças e adolescentes e também aos adultos e devem ser de conteúdo trágico e cruel, preferivelmente em se tratando de estórias reais.
Quando é a biografia de alguém cujo final funesto foi planejado e mandado executar por algum deles ele sobe na escala hierárquica do comando. É o seu grande momento de glória.
Como já disse muitos escritores estão por aqui como o Dante, o Poe, o Cervantes e muitos outros e pelas burrices e desorganizações infernais não aproveitaram a maioria dos excelentes escritores de todos os tempos como é o caso de Jorge Amado e muitos outros. A maioria ficou fora, isto é “fora” não. Ficaram dentro dos enormes tachos lotados de rocha incandescente e de defuntos destroçados.
Os jovens satanases ainda crianças têm muito contato com nossos mortos que sabem fazer mágica e números espetaculares e engraçados e que contam piadas sujas e despudoradas.
Portanto ser mágico ou palhaço é outra opção para se ter em vida, pois poderá ser usado aqui sem sofrimento, mas não é nada garantido, pois entre eles não foram aproveitados pela mesma idiotice de sempre, o grande Houdini, o Costinha, o Cantinflas, o Oscarito, o Grande Otelo e vários outros. Nem Stan Laurel e Oliver Hardy que compunham a sensacional dupla do cinema mudo, ficaram a salvo das fornalhas por pura incompetência.
Ratificando o que já informei os impiedosos assassinos são usados para contarem seus grandes feitos criminosos e de destruição. São geralmente muito bem vindos por terem sido pessoas a causarem males entre os vivos sem ter o comando e o domínio dos mandantes daqui, mas como já disse antes, tudo é feito aos erros, portanto há aqui bandidinhos quase que insignificantes ao passo que os monstros já citados não estão.
Os puxa sacos são os mensageiros para cumprirem missões especificas aí entre vocês. É a grande maioria entre nós e não sei se por existirem de fato em grande quantidade ou se eles tem mais cuidado para não perder nas chamas nenhum dos mortos que tenham essa especialidade tão importante para eles.
O grande esmero deles é não descuidar de selecionar as prostitutas, pois são exatamente elas que servem para engravidar-se dos satanases e gerarem seus filhos, para eles e isso aqui continuar existindo, pois entre eles não há mulheres. São as cortesãs que chegam da vida para após parir serem jogadas às caldeiras, pois só geram um filho satanás. Antes de nascer o feto alimenta-se de tudo que restou dentro da mulher deixando-a totalmente oca.  É a única vez que se alimentam. Vão comendo tudo que encontram pela frente, até saírem por enormes buracos que deixam na carcaça da mulher. Eles próprios ainda recém nascidos atiram o que sobrou da “mãe” às lavas e elas, sofrendo tanto quanto os demais ficam inutilmente procurando suas partes que nunca serão encontradas por não existirem mais.
Só depois que vim para cá que soube por que elas são conhecidas aí como pertencentes a mais antiga das profissões.
Com certeza assim que originou o primeiro demônio já houve necessidade da primeira decaída, ou vice versa. Como na estória do ovo e da galinha acho que ninguém sabe quem nasceu primeiro. Se o demônio ou a meretriz.
Não sei o que está acontecendo ai na terra, pois são as decaídas a maioria das mulheres que chegam.
Quando cheguei por aqui soube que a proporção era de setenta por cento de mulheres decentes contra trinta de vadias. Hoje está ao contrário. É urgente que revertam isso.
Quero informar-lhes que devem em vida adotar alguma dessas atividades descritas, com exceção das putas, para terem um pequeno conforto aqui, mas o que tenho certeza ser o melhor caminho e que é meu grande desejo é pedir para que prestem muita atenção: Façam de tudo para impedir definitivamente de as mulheres serem prostitutas, pois assim não haverá mais nenhuma mulher a ser aproveitada aqui como criadora parideira. Em se conseguindo isso não será mais possível gerar nenhum demônio e o inferno finalmente desaparecerá para os futuros mortos, pois não existindo mais a raça, não haverá mais os operários endemoniados que vivem a alimentar as chamas ininterruptamente e com certeza seu fogo extinguirá. Tais capetas operários não alimentam o fogo com carvão, álcool, lenha ou gasolina. Seu único trabalho é atirar os defuntos ao fogo que se alimentará conforme já disse de coisas que o morto transporta.
Nossa chegada é sempre fora dos mares de lava, pois seremos analisados pelos chefões que ordenarão se seremos aproveitados ou não, portanto não existindo mais as meretrizes para procriarem mais satanases e eles se matando continuamente como fazem, até com muito prazer, acabarão por desaparecerem e com isso jamais iremos ser atirados ao fogo que deixará de existir.
Pensem seriamente nisso e até a próxima.
acabou


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