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João Evangelista de Assunção






LITERATURA É TALENTO DE INVENTOR

                  O escritor é compositor de obras literárias, capaz de fazer viajar pelo céu, pela superfície do nosso planeta, pelo mar, centro da terra, fundos dos oceanos e na imensidão do universo a imaginação do leitor. O escrevedor é um grande inventor.  
                 Bem disse o mestre Machado de Assis em Memórias Póstumas de Brás Cubas: “Entre a morte do Quincas Borba e a minha, mediaram os sucessos narrados na primeira parte do livro. O principal deles foi a invenção do emplasto Brás Cubas, que morreu comigo, por causa da moléstia que apanhei. Divino emplasto, tu me darias o primeiro lugar entre os homens, acima da ciência e da riqueza, porque eras a genuína e direta inspiração do céu”.
                 Os dois últimos anos foram os que mais li livros na minha vida. Alguns superinteressantes, agradáveis, uns difíceis e chatos que ainda nem terminei a leitura, entre os que ainda não acabei de ler está “Grande Sertão Veredas”, do João Guimarães Rosa, faz anos que pego o livro começo a ler com cuidado, com carinho, logo, logo tenho que suspender a leitura. Visitei a casa do autor em Cordisburgo/MG, conhecendo mais o escritor, para entender melhor a linguagem usada no livro. Um dia terminarei a viagem conhecendo as serras, rios, grutas e os sertões de Minas Gerais através das páginas do famoso livro. Aprendi muito lendo e relendo bons livros. Dizem que lendo se aprende a escrever. Não domino a parte da língua responsável pela grafia correta das palavras chamada de ortografia, mesmo assim, acho que já aprendi a colocar o pensamento no papel. Também descobri que podemos escrever uma história de várias formas. Um exemplo: a história da guerra de Canudos eu li em três versões e são parecidas. A primeira contada pelo General de Exército Tristão de Alencar Araripe: “Expedições Militares Contra Canudos”. A mais famosa escrita por Euclides da Cunha “Os Sertões” – A mais interessante e a que mais me fez e me faz consultar os dicionários, escrita pelo Professor e Poeta Paschoal Villaboim Filho “Canudos”, narrada num poema com 4.109 versos, distribuídos na chamada oitava rima. Alguns entendidos e especialistas no assunto consideram semelhante à obra de Camões “Os Lusíadas”, também ao “O Caramuru” do Frei José de Santa Rita Durão.
                 Anos passados tive a honra de ler Vidas Secas do Grande Graciliano Ramos, a narrativa e a exposição do ambiente são excelentes. Muito me ensinou. Mas a história é dura. O sofrimento da família é muito triste. Não acredito que no nordeste tenha existido um vaqueiro tão frouxo quanto o Fabiano. Nas mãos de um vaqueiro lá das minhas bandas, o soldado amarelo teria levado umas cutucadas de peixeira ou no mínimo uns “panos de facão,” para aprender a respeitar o Caboclo. Aliás, acho que o Fabiano não era caboclo, pois entendo que esta definição está para cabras de cores misturadas: negro com branco, índio com negro, branco com índio e os mamelucos. O escritor descreve o Vaqueiro como sendo um homem de pele clara queimada pelo sol, cabelo avermelhado, barba por fazer e olhos bem azuis. Na minha terra o cabra está mais para “fogoió”. Mas é uma linda invenção que os especialistas chamam de ficção.
                Também tive o privilégio de em anos passados ler o Alquimista do escritor Paulo Coelho. A narrativa e a descrição não tem a riqueza de Vidas Secas, mas a história é linda. Acredito que o romance do Graciliano inspirou o Paulo. A História do também vaqueiro, mas de ovelha é diferente da saga do Fabiano, sua mulher Sinhá Vitória, os dois filhos e sua cachorra Baleia. Santiago era um vaqueiro letrado: lia bons livros, estudou latim, espanhol, teologia e durante a viagem da Espanha para o Egito, atravessando o deserto em busca do tesouro aprendeu a falar árabe. Mas era um vaqueiro que assim como o Fabiano, usava um alforje, cuidava bem das suas ovelhas e teve vários mestres. Um desses professores possuía um falcão que capturava lebre para alimentá-los no deserto. O Fabiano não sabia ler, tinha dificuldade para falar devido à pobreza do seu vocabulário, teve apenas um mestre: seu Tomás da bolandeira, também tinha a cachorra baleia que capturava preás para a família comer na caatinga.
                Muitos alunos da minha época de estudante leram Vidas Secas por obrigação. Nestes casos nem sempre se aproveita o que tem de melhor no texto. Conheço algumas pessoas que leram o Alquimista para fortalecer o espirito e tratam o livro como sendo de autoajuda, para mim é uma maravilhosa ficção. Entendo que todo livro é de autoajuda, porque sempre aprendemos alguma coisa quando lemos. Também conheço pessoas com um bom nível intelectual, que às vezes leem uma orelha do livro, escutam uma critica aqui, ali, outra acolá e formam uma opinião preconceituosa sobre a maravilhosa obra. Deixam de ler e aproveitar grandes momentos da história, um exemplo: os encontros amorosos no clarear do dia entre o casal Santiago e Fátima cheio de emoção quando ela buscava água na fonte. Nessa fase da leitura lembrei-me do Patriarca da literatura brasileira José de Alencar que no livro Iracema relata um dos encontros da Virgem dos lábios de mel e o guerreiro Martim: “Cedendo à meiga pressão, a virgem reclinou-se ao peito do guerreiro, e ficou ali trêmula e palpitante como a tímida perdiz, quando o terno companheiro lhe arrufa com o bico a macia penugem. O lábio do guerreiro suspirou mais uma vez o doce nome, e soluçou como se chamara outro lábio amante. Iracema sentiu que sua alma se escapava para embeber-se no ósculo ardente”. A maioria das pessoas da minha geração leu o primeiro livro de autoajuda na faixa dos onze aos quinze anos de idade, o precioso livro: “O Pequeno Príncipe do piloto Antoine Saint-Exupéry.
                  As histórias relatadas, registradas nos livros, que apreciamos e aprendemos a chamar de literatura: são grandes e lindas invenções, que só pode ter sido inventadas e criadas nas cabeças dos grandes escritores.
                 Não estudei o suficiente para concluir o terceiro grau. Portanto não tenho graduação, mas sempre gostei e gosto dos livros. Às vezes imagino que por ser fã da vida literária, dessa linda arte de escrever, compor versos e prosa: as minhas duas filhas são formadas em Biblioteconomia pala Universidade de Brasília. O que me faz um Pai feliz e um leitor muito agradecido à literatura e aos seus talentosos inventores.
 


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