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Maristela Zamoner






Trilhos dos bons leitores

Para formar leitores, é preciso educação em duas frentes principais: pais e professores.
Pais precisam ter, além de condições e tempo, prazer em sentar ao lado do filho e brincar com palavras "difíceis" tornando-as dominadas, divertidas, fazendo-o se sentir feliz ao usar um vocabulário rico - isto faz bem até para autoestima. Pais precisam levar o filho ao teatro para ver peças variadas, inclusive, as históricas, com temáticas eternamente envolventes, como Romeu e Julieta. É necessário que os pais tragam para casa, junto com livros, filmes como o Pequeno Príncipe, que disponibilizem obras bem ilustradas de textos clássicos como de Lewis Carrol, que saibam levar o filho a dar a volta ao mundo em 80 dias além de visitar Hogwarts. Estes pais são raros, mas, existem.
Excluem seus filhos da linguagem elaborada os pais que dizem "este é um texto ruim, inadequado para você, muito difícil, não dá para entender nada". Permitir ao filho dizer que não entende um texto, deixando passar a chance de desvendar junto o mistério de cada palavra e esmiuçar as etimologias também é excluí-lo de um universo precioso. Pais que agem assim estão, na verdade, perdendo uma oportunidade de participar da subida de mais um degrau na vida intelectual de seu filho, e pior: atrasando ou bloqueando esta subida. Estão jogando fora uma chance ímpar de exemplificar como diferenciamos qualidades textuais. Assim, afasta-se do jovem um dos maiores bens da vida, o gosto de evoluir pelo prazer de saber.
Quanto aos professores, primeiramente, é preciso dizer que tanto faz a disciplina que ministram. A leitura é mais transversal que qualquer tema proposto pelos Parâmetros Curriculares Nacionais. São necessários professores capazes de trazer a língua portuguesa de alto nível para situações do dia a dia, fazendo o aluno rir ou surpreender-se com palavras elaboradas ao descobrir seu significado. Isto não quer dizer excluir da sua fala expressões e gírias usadas pelo jovem, ao contrário, o professor que as usa se aproxima, e faz desta linguagem uma ponte para o sofisticado, levando o aluno a se deleitar, brincar, interpretar sua língua mais nobre. São bons professores os que entendem a transversalidade da língua, sabem onde chegar e tem acervo suficiente de estratégias para usar no momento que convier, e não no que foi "planejado". Professores que obrigam a ler, jogam numa prova um texto complexo sem preparar o aluno previamente, destroçam o prazer de ler, afastando o conhecimento. Também não é produtivo deixar o aluno vagando por textos “simples”, “atraentes”, capazes de levá-lo a concluir que Machado de Assis é odiável por ser inteligível. A questão é como extrapolar o âmbito das leituras atrativas limitadas e limitantes para mundos fascinantes de textos brilhantes que atravessaram o tempo e abrem as portas da autonomia.
O professor, como os pais, não pode se dar à preguiça de reproduzir comodamente o que a mídia, com estratégias picaretas para vender, toca goela abaixo dos adolescentes, via pais, usando o sorrateiro e manipulado argumento de que estimula a leitura. Não há dúvidas que o mais fácil, que não incomoda, é dar ao jovem textos simples, divertidos, atraentes e só. Eles não vêm perguntar o que é isto e aquilo ou pedir ajuda para entender tal frase ou palavra. Dá menos trabalho do que trabalhar o texto ensinando a curtir o luxo linguístico, a diferenciar qualidade boa de ruim. O texto “ruim” pode ser muito útil se o educador, pai ou professor, souber o que fazer com ele, souber mostrar exatamente onde está o “ruim” que fará o jovem ter discernimento e espírito crítico em sua caminhada de leitor. Certamente, excluí-lo por ser ruim não acrescenta nada.
Pais rebelarem-se contra educadores despreparados e professores acusarem pais de preguiçosos, até tem seu papel, mas, nada adianta sem enfrentar a língua portuguesa com o aprendiz, mostrando caminhos para saber tirar proveito de textos bons, ou não – na vida há ambos.
Estimulando a leitura simples como solução para gostar de ler, levando a odiar o que não se entende ao invés de desvendar, estaremos condenando o futuro à limitação. Se for isto que queremos, que seja seguido este caminho.
O ponto chave não é o que o jovem gosta de ler, isto é fácil. O ponto chave é como partir do que dá prazer superficial para fomentar crescimento rumo à profundidade que opera mudanças e dá um prazer pleno. Pergunto-me se a garota que diz odiar Machado de Assis teve a oportunidade de ser dignamente apresentada a ele. Será que alguém deu seu tempo a esta garota, para contar de forma envolvente algo sobre a vida do autor ou mergulhar em uma de suas inúmeras obras? O ser humano é naturalmente curioso, basta não matarmos isto. Hoje, muitos materiais para professores e pais trazem ideias eficientes quando bem aplicadas, diferentes de “obrigar a ler”, o ônus é que são trabalhosas. Mas, quem está na função de educador, seja pai ou professor, não pode ter preguiça porque educar é laborioso.
É prudente cuidar, e muito, com o que dá menos trabalho.  Educar é trabalhoso sim, exige tempo, dedicação, extrai energia, muitas vezes cansa. Demanda que os pais sentem-se com os filhos para estudar junto, sabendo fazer deste processo uma caminhada simples, divertida e atraente. Exige que o professor saiba buscar boa formação permanente e tenha paixão, muita paixão.
É fundamental que o jovem goste de ler, mas, trilhar as vielas da idolatria acrítica e despencar no discurso preguiçoso, cômodo e fútil da "linguagem simples", é quase embarcar na nova onda do "preconceito linguístico".

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