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Amarilia Teixeira Couto






O vendedor de Bis


Eu ainda fazia faculdade e ele já estava lá, em sua cadeira de rodas improvisada e adaptada às necessidades de sobrevivência.O ponto do ônibus que eu tomava ,ficava na rua da Bahia e o rapaz cadeirante não perdia nenhum potencial freguês que surgia à sua frente.Mesmo na correria, ele conseguia abordar um a um os passageiros que estavam no ponto.Quando chegava ali, esbaforida, vindo do meu trabalho que ficava do lado oposto da cidade, apesar de muito cansada, não conseguia tirar os olhos daquele vendedor tão insistente e simpático a um só tempo. Bom, pelo menos eu o via assim, mas creio que esse pensamento não era consensual, pois não eram raras as vezes que uma pessoa ou outra perdia a paciência com ele, principalmente quando o passageiro era abordado, puxado pela perna da calça, quando entrava no ônibus.E o cara era cadeirante, imaginem! Mas o que me chamava a atenção nesse trabalhador ambulante, eram a sua agilidade e bom humor.Nunca o vi com o sorriso apagado no rosto ,e a presteza com que pilotava a sua cadeira em meio ao tumulto daquele horário era surpreendente.Não sei se o seu tino comercial era tão grandioso, uma vez que a sua mercadoria se resumia numa caixinha de Bis(sem pretensão de merchandising), exatamente UMA, que à medida que a última unidade dos biscoitinhos desaparecia da caixa, uma outra, num passe de mágica ,aparecia do nada.E toda essa enpreitada eu observei durante os quatro anos do meu curso.É claro que eu mudei de ponto nesse período, mas sempre ficava pelas adjacências e ele, o meu caro vendedor, percorria todos os pontos da região, com a mesma desenvoltura e com a mesma mágica da multiplicação de Bis.
Outro dia, recentemente, fui ao centro para tentar encontrar no comércio popular um apetrecho que precisava para a decoração de minha casa.Qual não foi a minha surpresa ,ao deparar ,no ponto de ônibus do meu bairro,com o meu querido vendedor ambulante. Enquanto aguardava o meu ônibus, fiz o que fazia nos tempos de estudante: observei-lhe bem os movimentos e a expressão facial.Fantástico! O sorriso estava lá.A magia da materialização dos biscoitinhos também (a mesma marca!).Só uma coisa estava diferente: os cabelos já grisalhos denunciavam o passar do tempo.Afinal, quase três décadas já havia transcorrido.Mas o tempo foi benfazejo com ele, creio.O sorriso denunciava.
Nem tudo segue um ritmo vertiginoso.Ainda bem que é assim.


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