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SEBASTIO CARNEIRO DA SILVA






LITERATURA, SINHA DANADA!

LITERATURA, SINHA DANADA!
 
Vivo falando aos amigos acerca do descabeçamento que é escrever. Mas não tem jeito de me curar do vício, embora alguém o chame de hábito: continuo descabeçado, meus nobres. Tirem a prova: são 7 e 34, acabo de jantar. Passeio no jornal, fico enjoado; ando pela televisão, enjoado fico; viajo num livro, aí é que fico mesmo.
Entediado, ligo-me a uma redinha, ligo o computador, ligo-me na literatura.
Escreverei algo. Mas que algo seria esse? O próprio algo, penso. Algo dá excelente crônica. Algo nos diz muita coisa. Aqui acolá a gente não diz que “algo me diz que...”
“Grande babaquice essa de escrever sobre algo, meu”, advertem-me os meus nobres e jovens botões.
Discordo. Falarei a respeito do amigo algo, sim.
Mas quer saber? Antes verei se algum incauto culto acessou meu blogue hoje, o http://www.pocilgadeouro.com/. Então o bicho pegou, gente. Cadê me lembrar da senha de acesso à porcaria? Não me lembrava de jeito e qualidade. Aí me lembrei duma sugestão lida numa revista e por mim já aprovada. A sugestão e a revista, evidentemente.
A sugestão é que devemos nos distrair e esquecer o esquecido. Feito isso, o esquecido é recordado, entenderam? Aprovei-a no Banco do Brasil. Eram somente três letrinhas. Enfiei o cartão e nadica de nada de me lembrar das bichinhas. Virei, mexi, olhei pra cima, breu total. A fila já me vendo burro, dedei uma senha de araque e disse ao cabra atrás de mim: “O teclado tá doidão, vê se você tem mais sorte”.
Bom, saí do banco, acendi um veneno, dei umas baforadas, voltei assobiando. Mal meti o cartão no terminal. Pimba! As doidinhas começaram a sorrir pro meus dedos. Aprenderam? Devem-me essa, meus nobres.
 Pois então, com o terminal do BB na cabeça, levantei-me da tipoia, tomei um cafezinho, acendi um veneno, dei umas baforadas, voltei assobiando. Mal vejo o notebuque... O resto vocês já sabem, não? Detesto repetir.
Mas neste momento ocorreu outra maluquice. Não estou dizendo que escrever é sadia diabrura? A diabinha da senha lembrou-me outro episódio de senha e me fez abandonar a ideia da crônica de nosso amigo algo. Aconteceu quando morri, vai fazer três anos agora em agosto (desculpe, Brás Cubas). Foi assim, ó!
Chego à sede do juízo final, entro numa enorme fila... Sim, ia me esquecendo: havia 6 acessos ao meu blogue. 2 americanos, 2 portugueses e 2 alemãs.
Como estava a dizer, entro numa gigantesca fila de adultos (crianças não entram em fila), os homens de cueca, as mulheres de calcinha. Frio de bater o queixo, a fila começa na calçada do purgatório, enrola no oitão do inferno, termina num alpendre do céu. Vejo uma porrada de gente conhecida, galera. Mais por meio da imprensa, é verdade. Vocês nem adivinham quem estava na minha frente. Então, a fila andando, daí a pouco o pessoal esbarra num pente-fino, controlado por um soldado, São Sebastião. São Sebastião fica pedindo que o sujeito ponha o polegar numa maquininha e, a depender do que observa, dá o comando:
“Limpo. Céu, avante. Difuso. Purgatório, à esquerda. Sujo. Inferno, tobogã, à direita”.
No caso de o felizardo ir pro céu, a maquininha ainda gera uma senha, tá ligado? O tobogã, meus nobres, fede a enxofre que só a bexiga.  Soube depois que o tubão termina na caldeira 666 do inferno. Bem, chegou a vez de o bossal que estava na minha frente se identificar. São Sebastião nem precisou da digital do infeliz. Mirou-lhe o focinho, estirou-lhe a língua, deu-lhe um chega pra lá e o cara tibungo no escorrego fedorento.
Uivo ecoando, dou um passo a frente e quedo-me surpreso com a recepção:
“Xará, seu danado. Precisa da senha a fim de passar na borboleta do Pedro. Bote o dedo aqui, seu danado. Próximo...”
“Valeu, capitão”, agradeci, exultante com o atendimento, encabulado com tamanha simpatia, mas já arrependido de tê-lo chamado de capitão. São Pedro estava cochilando, mas pressentiu meus passos:
“Tião, seu danado. Entre. Tem que digitar a senha, do contrário a borboleta não abre. Sente-se aqui, seu danado”.
Digitei a senha, sentei-me, começamos a bater papo. Fiquei atarantado quando ele disse que no céu todos os santos tinham meu livro, o Intuitor Bião. Perguntei-lhe como o livrinho havia chegado lá. Por intermédio de um brasileiro, o Sr. Mindlin, respondeu ele. O Sr. Mindlin passou na catraca, trocou umas palavrinhas comigo, mas não despregava os olhos do livro. Curioso, li a orelha, interessei-me pela história e pedi um exemplar, já que o Sr. Mindlin me dissera que tinha um de reserva. Mostrei o Intuitor ao Mestre, Ele gostou, mandou digitalizá-lo e deu o endereço eletrônico a todo mundo daqui.
Sobre o porquê de eu estar sendo recebido tão bem, São Pedro riu e alegou que eu era bem-aventurado por ser cobrador de impostos e por conversar com animais. Engraçada foi a resposta ao saber que, ao contrário do céu, na terra quase ninguém lia meus livros. Gracejou ele:
“Então, seu danado, você não sabe que santo de casa não faz milagres?” Conversa solta, mas passados longos minutos, eis que aparece uma pretendente ao céu:
“Digite a senha, minha filha. Cuidado pra não errar, senão terá que estagiar no purgatório. Pode fazer três tentativas, filha. Não tenha pressa, pelo visto apenas vocês dois entrarão hoje aqui.”
Desconheço se a moça conseguiu, pois precisei me retirar assim que potente voz ecoou no serviço de som:
- Pedro?
- Sim, Senhor.
- Por que não mandou o Tião vir a mim?
- Perdão, Senhor. Começamos a resenhar o livro dele, o tempo foi passando... Mas ele já vai. Vou mandar o Gabriel deixá-lo aí.
- Assim seja!
Bem, dali a segundos, eu nas asas do Gabriel, estava sendo recebido por Ele.
“Tião, seu danado, como vai? Como vai é força de expressão, não é, seu danado! Você vai voltar pra terra. É o seguinte...”
Evidentemente que não posso lhes revelar tudo de tão sublime confidência. Mas posso adiantar dois pedidinhos Dele:
Que, nos meus escritos, a exemplo do escancarado no livro Intuitor Bião, eu insistisse em chamar a atenção dos governantes para o principal dever deles: proporcionar serviços de qualidade à população. Notadamente na área da Saúde.
Que permanecesse firme em mostrar a força do sexo, porque soberano, a fim de que as pessoas o praticassem sem preconceito, e que todos deixassem para o responsável livre-arbítrio, porque a imagem Dele, a missão de comandar as iniciativas sexuais.
Ele foi comigo até a porta e ordenou:
“Agora vá, seu danado”. Falou, deu-me carinhoso empurrão e...
Juro por tudo que não é sagrado que até hoje eu desconheço o motivo de todos ali terem me chamado de “seu danado”.
 
Será que é por que considero escrever uma danação?
É isso.
O “é isso” é tão somente uma expressão de encerramento, viram, seus danadinhos?
Com abençoado abraço,
Tião


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