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Arlete Meggiolaro






Insuportável presença

Happy-hour?!... Sim, horas-alegres de um domingo, bem no final da tarde. Daquele café-bar, a música suave descia entre as mesas. Para os enamorados o som vibrava nas cordas da comichão interior; lábios famintos saboreavam lábios ávidos. Enquanto, outros, em grupo ou só, apenas tentavam encobrir os rotos pensamentos. Sob esta fleuma, Dirceu escolheu um lugar entre as folhagens. Ao garçom pediu um café e alguns petiscos.

Notou que algo o escoltara até lá. Sim, ela estava, bem ali, ao seu lado. Nada prazerosa era aquela figura de contorno grotesco, e, seriamente vestida de cinza-grafite.

- Cinza-grafite!... - ele resmungou. O que é o cinza a não ser uma cor funesta, tediosa? Nada mais do que tentativas desastrosas; misturas das cores que resultou o insignificante, ou algo condizente ao extermínio... tais quais o pó do morto braseiro e a fumaça.

Esta metralhada da reflexão quase o transformou num paredão humano. Devido a rajada de imagens, Dirceu, abstraiu-se do essencial. Assim, alheado, não percebeu as guloseimas em sua frente. E, o sorriso da garota ao lado não lhe retornou ao convívio do festivo lugar.

Inconformado, ele repetiu - aquela de cinza... como alguém se atrevia usar cinza dos pés a cabeça? De sua mente crepitavam imagens; algumas até tenebrosas

E, aquela inexpressiva., a cinzenta, nada fazia a não ser mudar vagarosamente de posição. Enquanto isso, a indignação de Dirceu suturava episódios uns aos outros.

- Claro! Claro, coisa nenhuma, cinza. As cinzas representavam enfermidade; tom do perecível e do sem valor, penitência – imaginou a quaresma. Nesse instante, enquanto cosia os retalhos, a porta do sótão interior escancarou mostrando-lhe o quadro do campo de concentração de Auchswitz.

Envolvido pela nuvem mal-humorada, Dirceu, sem querer, bateu a mão na xícara, fazendo-a entornar o líquido sobre a mesa. Isto o retornou ao local. Só então, ele notou a moça sorriso. Esta trazia a luminosidade estampada na face. Vestida sem artifícios, mas em tom pastel! Com o olhar maroto, ele levantou-se a fim de se apresentar à garota. Quase ignorou aquela insuportável grafite que, até então, não descolara.

Por fim, o rapaz voltou-se com propósito de fitar a inconveniente – o "eu" sinistro - sua própria lânguida sombra; a perseguidora dos dias que as insatisfações extravasam do tonel. Entretanto, não estava mais ali. Ela escapuliu com a aproximação da formosa noite enluarada.

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