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Amarilia Teixeira Couto






Histórias de amizade ( I )

Gosto de ouvir histórias.Também de relembrá-las e, claro, aprecio repassá-las.Assim, a cada reconto, um novo ponto, e a gente vai se apropriando da história alheia, pegando carona, assumindo participação.Quando não nos tornamos personagens definitivas ou até , dependendo das identificações e das emoções trocadas, a gente vira também protagonista.Então vou contar o que ouvi de uma amiga muito querida.É uma história de amor, ou pelo menos uma pequena ilustração do sentimento vivido por ela. Luiza estava apaixonadíssima.Conhecera um italiano numa de suas saídas para dançar e a atração fora fulminante. Assim que ele a chamou para bailar, o seu jeito de cavalheiro, o seu porte elegante, os seus modos de gentleman a fizeram tremer dos pés à cabeça. Ela até já havia perdido as esperanças de encontrar alguém assim tão requintado e agradável ao mesmo tempo.Já andava meio desiludida e saía nos finais de semana exclusivamente para se divertir e dançar, o que adorava fazer. Mas naquela noite parecia que algo de novo ia rolar.Quando saiu de casa, ao se olhar no espelho, percebera um brilho diferente nos olhos, uma quentura nas mãos, um bom presságio.E tão logo entrou no salão com sua amiga inseparável ( eu mesma), sentiu que a noite seria especial.A partir daí , posso contar o que sei, o que presenciei.Depois passo a narrar em terceira pessoa.
Fomos para a nossa mesa, que já era cativa.Nem bem sentamos, um homem trajando camisa social e gravata, aproximou-se de nós e chamou minha amiga para dançar.Ela agradeceu o convite, mas pediu- lhe um tempo, dizendo que a gente tinha acabado de chegar e que ela não gostaria de deixar sua amiga(eu) sozinha na mesa.Que ele voltasse um pouco mais tarde.E ele retornou meia hora depois com o amigo que estava com ele.De maneira bem-humorada apresentou-nos o amigo que ,por sua vez, me convidou a dançar. Somente no final da noite reencontrei Luiza.E como estava feliz! Logo percebi que uma química especial havia acontecido entre ela e Mário(era esse o nome do italiano), enquanto Hugo( o amigo) e eu nos divertimos muito, nada mais.

Depois dessa noite, Luiza e Mário passaram a se encontrar com frequência.Fiquei um bom tempo sem ver a minha amiga.Apenas nos falávamos por telefone.A paixão vivida pelos dois era intensa demais para caber qualquer outra pessoa.Até que Mário teve que retornar a Buenos Aires, onde vivia há alguns anos.Ele era um grande executivo de uma empresa automobilística e viera a Belo Horizonte para passar alguns meses apenas, a serviço também. Os dois continuavam apaixonados.Falavam-se por telefone diariamente, trocavam cartas, emails.Ele vinha vê-la com frequência, nem que fosse para um simples final de semana.Ela foi algumas vezes ao encontro dele também.

Um dia, depois de muito tempo sem nos vermos, Luiza me ligou, convidando-me para ver um filme com ela.Sempre fazíamos isso, antes do Mário.Marcamos numa tarde de sábado.Depois da sessão de cinema, fomos fazer um lanche e contar as novidades.Foi quando Luiza me contou entre risos sobre o presente que havia enviado ao Mário pelo seu aniversário.Sendo ele um homem mais sóbrio, muito viajado, bem requintado, intelectual, ela não sabia exatamente o que dar a ele de presente.Então resolveu apelar para o popular, para o diferente.Ele, quando estava em BH, adorava ir à feira de artesanato.Gostava também da culinária mineira e, de vez em quando se atrevia num gole de pinga.Então Luiza não teve dúvida: comprou um "pingômetro".Para quem não conhece, trata-se de um objeto comprido, de quase um metro, feito de uma espécie de ampulheta de vidro, sobre um suporte de madeira, para armazenar a cachaça, ou aguardente, ou a famosa pinga aqui das Gerais. Comprado o presente, minha amiga deparou com outro problema: como enviar o dito cujo para Buenos Aires? Nos correios não havia caixa adequada para o sedex.E aí? Mas somente quem não conhece um coração apaixonado para duvidar da realização da empreitada.Pois Luiza percorreu o centro de BH até conhecer um marceneiro que fizesse uma caixa de madeira onde coubesse o bendito pingômetro.E juntamente com uma carta imensa, perfumada e cheia de beijos feitos com o batom preferido dele, mandou o presente para o seu destino. Nesse momento da narrativa, eu já estava ansiosa para saber da reação do Mário, se havia gostado ou não, quando minha amiga rindo mais ainda concluiu a história. Eles continuavam se falando por telefone diariamente.E Luiza não falou nada sobre o presente.Afinal era surpresa.Ela contara direitinho os dias para que o presente chegasse exatamente no dia do aniversário dele.Assim, quando o dia chegou, Luiza ligou para dar os parabéns, toda melosa e saudosa e foi logo perguntando se ele havia gostado do presente."Que presente, amor? Não se preocupe.Você é o meu maior presente". "Como, você não recebeu nada?NÃO É POSSÍVEL!"

O que conversamos a mais não vem ao caso.Fato é que um mês depois da postagem do pingômetro, na hora em que estava em casa almoçando, antes de retornar ao trabalho, a campainha toca.Quando Luiza vai atender, recebe das mãos do carteiro uma caixa grande e pesada.Ao abri-la lá está ele: o pingômetro e a carta já quase sem perfume. Não tive como não rir das idas e vindas do presente da minha amiga.Mas como não entendia o retorno daquilo que não chegou, ela me deu as últimas explicações.É que o Mário esteve ausente do seu endereço durante uns quinze dias.Como morava sozinho, o correio portenho que, segundo ele ,nunca foi muito confiável, retornara à agência com a encomenda e, posteriormente a reenviou ao remetente. Enquanto a bela história de amor e paixão dos dois durou, esse caso rendeu muitas risadas.Hoje Luiza e eu continuamos mais amigas do que nunca.Ela tem outro amor, mas as lembranças... essas ficam para sempre.

Ainda bem que a amizade segue outros caminhos, não é?


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