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Amarilia Teixeira Couto






Clube das sextas ( I )




Débora se definia como uma mulher solitária.Mas não admitia o fato de estar sempre sozinha com tranqüilidade.Isso não.A autodefinição surgia depois de uns três copos de cerveja ou de uma taça de vinho, quando nos encontrávamos num happy-hour e passávamos a falar de nossas vidas.O clube da Luluzinha era pontual nas sextas-feiras.Era um compromisso quase sagrado para o grupo de cinco amigas, assim mesmo, no feminino.Vez por outra, dois ou três representantes masculinos nos davam o prazer de suas presenças.Mas aí, a conversa solta, sem censura ficava comprometida, dava lugar às piadas, a assuntos ligados ao futebol, à política e economia.Lógico que a diversão era garantida, mas a cumplicidade feminina se resguardava de uma certa maneira e lia nas entrelinhas de tudo que era falado para aumentar a munição do próximo encontro que, sem dúvida, seria só das”Saias”, pois os nossos homens não tinham cadeira cativa em nosso grupo das sextas, eram apenas queridos convidados especiais.Ainda bem que eles apareciam pouco, pois o escopo de nosso encontro era o desabafo, a vontade de falar das coisas armazenadas durante a semana.A mesa de bar era nosso divã.
Voltando à Débora, ao admitir-se como uma mulher só, podíamos perceber um misto de desilusão e frustração em sua voz.Então ela começava a desfiar seu rosário de lágrimas, contando alguns dissabores vividos com o atual quase ex- namorado da vez.A gente ouvia atentamente o seu relato, até que as lágrimas brotavam de seus olhos, resultado da emoção ligeiramente turbinada pelo álcool consumido.Isso era recorrente.A sessão nostalgia sempre começava por ela. “Edu me prometeu que faríamos uma pequena viagem de férias.Que teríamos uma pequena lua de mel.Que tiraria uma folga de uma semana pois há três anos  não descansa.Foi lá em casa, tivemos um final de semana maravilhoso e.....Nem tocou mais no assunto.”
Enquanto a bebida não subia completamente, Débora ia pausando sua história e a gente aproveitava para opinar, para contar a nossa parte , para relatar nossas emoções.Mas a Débora....Quão loquaz e carente ela era!Na primeira brecha voltava a ser o centro das atenções. “ E o Carlos, vocês se lembram o que sofri com ele?Pois é.Ele foi minha cachaça durante três anos.O cara não tinha onde cair morto e só usava perfume importado e carro do ano.Só de falar nele sinto o cheiro do perfume que usava.Mas deixa pra lá, passado é passado..."
Nessa altura, a gente já sabia que tinha de intervir pra valer.Mudávamos drasticamente o rumo de nossa prosa, pois as lágrimas contidas já estavam prestes a cair aos borbotões dos olhos de Débora.Uma outra amiga, de risada deliciosa e contagiante, contava um caso engraçado e todas caíamos na gargalhada, transformando a cara de choro de Débora num riso inesperado.
Depois disso, tudo se amenizava.Cada uma contava um pouco de sua semana, do trabalho, de ex- maridos, filhos, sobrinhos, namorados.Momentaneamente tirávamos Débora do divã e outra nele se instalava.Cada uma de nós se abria, fazia confidências, falava de sua intimidade, das paqueras atuais, de seus devaneios.Mas no final do encontro, era a Débora que, num tom melodramático, afirmava: "Eu já falei com vocês que tenho o dedo podre pra homem.Só escolho cafajeste pra minha vida.É por isso que eu falo pra vocês que “eu tenho o destino da Lua, que a todos encanta e não é de ninguém..”.Ouvi esses versos de uma canção antiga e não sei a quem pertencem, mas servem em mim como uma luva".
Quando faço menção à Débora, não é porque somente ela é especial.Não.É que hoje quis ressaltar suas características.Em outra crônica falarei de outras pessoinhas queridas que compõem o nosso clube das sextas.


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