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Anderson Machado






Dos homens aos deuses.

Evolução, processo pelo qual toda espécie apta permanece em existência.
A regra é simples, as espécies evoluem, não para melhor ou pior, mas para sobreviver tendo o meio como referência. Assim a natureza tem feito pelos últimos bilhões de anos.
Até o homem florescer e com a sua consciência mudar o processo.
Para o homem, tudo precisa ser bonito, eficiente, perfeito. 
Em sua concepção ele usou a tecnologia com a intenção de evoluir para melhor.
Doenças, baixa expectativa de vida, dependência de alimentos, horas perdidas com sono, na visão do homem moderno tudo isso era um empecilho, tempo jogado fora, e como bem sabem para este primata, tempo é dinheiro.
Por anos a tecnologia estudou uma maneira de libertar a humanidade destes males, apenas para aprisioná-la em outros, então surgiram os primeiros implantes ligados diretamente ao cérebro. 
Surdos voltavam a ouvir, cegos a enxergar, aqueles com problemas motores voltavam a ter o controle sobre seus movimentos. 
A primeira vista esta façanha parecia algo próspero.
Mas apenas para aqueles que podiam pagar.
Com o passar dos anos, novos olhos, ouvidos, pulmões, corações entre outros órgãos eram desenvolvidos, não mais para curar enfermos, mas para serem mais eficientes e confiáveis, e assim passaram a fazer parte do mercado.
Novos olhos eram ofertados nos comerciais "uma revolução na maneira de ver o mundo" diziam os anúncios.
Anos a frente o avanço da tecnologia e a aceitação do público aprimoraram estes implantes e trouxeram a evolução humana para um novo patamar, agora processadores poderiam ser ligados ao cérebro para auxiliar com precisão em várias tarefas cotidianas, tínhamos os, os inibidores de sono, controladores digestivos, controladores de movimentos, além dos restritos aceleradores de raciocínio, entre muitos outros, tudo para "melhorar a qualidade de vida humana".
Daqueles que podiam comprar. 
Com o passar das décadas a noção que nos venderam foi a de que o corpo humano é apenas um suporte para nossa consciência, ele só serve para manter o cérebro funcionando, não é surpresa de que o corpo humano passou a ser visto como um estorvo, algo descartável, um simples envólucro. Essa visão facilitou a aceitação e acelerou a produção dos primeiros híbridos, voluntários bilionários que transferiam seus sistemas nervosos para corpos artificiais visando a perfeição, tanto na área estética quanto na eficiência.
Agora, humanos poderiam ter a forma que quisessem, carros com sistema nervoso, humanoides, semi-humanoides, era possível até adquirir uma réplica de uma personalidade famosa, se pudesse pagar pela licença. 
Os primeiros semi deuses nasciam, sem mais doenças, sem mais velhice, para estes novos indivíduos a expectativa de vida era calculada na quantia de dinheiro que possuíam para custear a manutenção de seu novo corpo, que era muito cara, esta condição limitou os híbridos em poucas dezenas, estes viraram escravos do desejo pela existência eterna. 
Embora avançada, a tecnologia ainda não podia (e não queria) oferecer independência a estes indivíduos.
Os híbridos precisavam de capital para se manter, e a economia mundial se acelerou.
A cada dia a tecnologia oferecia novos corpos para a elite, ainda melhores e de manutenção ainda mais cara. 
Os híbridos passaram a depender ainda mais do capital, então abriram crédito para a casta trabalhadora, humanos comuns, que mal tinham instalado um inibidor de sono ou um controlador digestivo.
Partes melhores eram ofertadas aos trabalhadores, as leis vieram a favorecer os implantados, logo o uso de implantes virou obrigatoriedade para se ingressar no mercado de trabalho. 
Os trabalhadores tornaram-se novos velhos escravos de um novo velho sistema, pois precisavam trabalhar, não mais para ter o carro do ano, ou aquela roupa de marca, mas sim, para pagar por seus implantes.
Muitos destes operários podiam programar com precisão seus horários para ir ao banheiro, eram capazes de mover seus dedos com precisão milimétrica em um terço de segundo ou ainda, enxergar um alfinete a dezenas de metros graças aos seus implantes, ao mesmo tempo, eram incapazes de desenvolver qualquer raciocínio complexo. 
Aceleradores de raciocínio e implantes similares eram proibidos para a maioria dos cargos assalariados, apenas alguns modelos limitados eram vendidos por um preço extremamente alto.   
A dívida obrigava 95% das pessoas no mundo a trabalhar, mais de 3% dos restantes eram responsáveis por manter a estabilidade deste sistema, a minoria que sobra era dividida entre os menores de cinco anos, que ainda não estavam aptos a trabalhar e os que ganhavam com o sistema, estes investiam o trabalho de um mundo inteiro em luxuria e no desejo de fabricar um espirito perfeito totalmente independente de um corpo, consequentemente, livre do alto custo das manutenções.
Décadas se passaram e uma nova era surgiu onde deuses nasciam.
A tecnologia trouxe o que a casta dominante mais desejava, a independência de um corpo, um espirito livre de qualquer ligação com um envólucro, ainda assim consciente.
Como um vírus de computador a consciência humana pôde ser traduzida em linhas de comando, programas que imitavam o funcionamento do cérebro humano foram desenvolvidos e melhorados quase até a perfeição, consciências foram transferidas para dentro de computadores e a partir de lá poderiam estar em qualquer parte do mundo e quando assim quisessem eram capazes de hospedar qualquer envólucro que desse suporte a essa nova tecnologia.
Enquanto isso no mundo a faminta indústria sugava com voracidade os últimos recursos que ainda existiam no planeta, guerras civis aconteciam em boa parte do globo, a sobrevivência voltou a ser a preocupação das castas trabalhadoras, o caos que se instalava no mundo não poderia mais ser controlado pelos dominantes, então, eles construíram máquinas capazes de transportar sua consciência através do espaço.
Assim os deuses do planeta Terra abandonaram seu lar e viajaram pelo universo visando chegar a um novo paraíso.
Para novamente destruí-lo. 
 

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