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Cleso Firmino






TIO TORTO E O ESGUALEPADO

              “Esgualepado”. É nome que foi dado ao cachorro do tio Torto.
           Descrevemos então o tio torto: Gente boa, amigo de todo mundo, adorava distribuir caramelos para a criançada na pracinha Ernesto. Já tinha seus quarenta e cinco anos, mas ainda era um menino, uma criança grande e desengonçada, que corria com a molecada, que jogava bolinhas de gude, que brincava de esconde-esconde... tio Torto não crescera, foi menino a vida toda.
              Nasceu tão feio, cabeçudo, com uma perna mais curta que a outra, uma mão atrofiada, que a vovó conceição até pensou em jogá-lo rio a baixo, mas depois se arrependeu e resolveu criá-lo.
            Isso foi bom, porque ele brincava comigo, me contava estórias, me ensina a orar... Tio Torto tinha uma alma generosa; sempre me dizia que lá no céu morava um homem chamado Jesus, o qual amava e cuidava das criancinhas que eram boas; falava muito enrolado, gaguejando, mas eu entendia tudo o quanto ele queria me dizer.  Ainda me recordo nitidamente do versículo da bíblia que ele sempre recitava para mim: “Deixai vir a mim as criancinhas, e não as impeçais, pois delas é o reino de Deus”.
        Quando eu não estava com tio Torto, ele se sentia sozinho e para não se sentir assim, resolveu arrumar um vira-lata; era um cãozinho pulguento que viva se coçando, mas que lhe servia de companhia quando eu ia para a escola; quando eu retornava para casa, nós três brincávamos juntos.
          Certo dia, o cachorro mordeu um sapo e o batráquio soltou leite em sua boca; dizem que sapo não tem veneno, mas o cachorro ficou doente; os seus ossos enfraqueceram e o pobre cachorro desconjuntou-se todo.  Andava todo torto, semelhante ao seu dono.
            Era até engraçado quando aquelas duas figuras saiam pelas ruas. Todo mundo parava para observá-los e zombavam e riam deles. Por causa da semelhança entre os dois é que o cachorro ganhou o nome de “Esgualepado”.
Cada dia que passava o animalzinho adoecia ainda mais; até que um dia acabou morrendo.
          Tio Torto chorou profundamente a perda do amigo.  A partir daquele dia, já não era o mesmo: sua alma se abateu de um tanto, que já não sentia mais vontade brincar com a molecada, nem comigo; recolheu-se em seus aposentos para curtir a tristeza que extravasava seu espírito.
Um dia vovó Conceição entrou no quarto e viu o pobrezinho coberto dos pés a cabeça e notou que estava com muita febre e delirando.
              — O que você tem Torto? Perguntou vovó.
Mas ele não se pronunciou; ficou em silêncio.
              — O que você quer torto? Insistiu vovó.
             — Es.gua.le.p.ado!... Sussurrou de modo compassado.
E foi só isso, tio Torto não falou mais nada; virou para o canto, adormeceu e sonhou com uma luz muito forte, que vinha ao seu encontro, e dela saia uma suave voz que lhe dizia: “Vinde a mim, minha eterna criança, porque seu é também este Reino”. Tio Torto adormeceu e nunca mais acordou.
 


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