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Cleso Firmino






CABEÇA TORTA

      Confesso que eu sentia um certo medo de “Cabeça Torta”. Quando a vi pela primeira vez, achei que ela era doente, pois com sua cabeça torta, girava sobre o seu corpo, trombava nos muros ao tentar fugir, parecia estar tonta, doida, era toda desengonçada.  E sempre que me via, saia em disparada. Na verdade ela também tinha medo de mim.
      Um dia quando cheguei do serviço, tive uma surpresa: há tempos não fazia um churrasco em casa e resolvi limpar minha churrasqueira, mas quando aproximei, pude sentir de imediato que tinha alguém lá dentro, algum animal. Pensei comigo “pode ser algum gato que está dormindo aqui dentro” não era um gato. Era uma gata, a Cabeça Torta, ela em pessoa estava ali dentro de minha churrasqueira. Em pessoa não, em felino. E Cabeça Torna não estava sozinha. Estava muito bem acompanhada. Eu levei um baita susto quando vi aquela gata desengonçada da forma que estava. Uma gata que sempre me causou arrepio, por parecer louca, agora me chamava a atenção a ternura de desempenhava ali. Cinco bolinhas pequenininhas ao seu lado, sugando os seus peitinhos. Cabeça Torta tinha dado a luz na noite anterior.   
      “Meu Deus”, pensei comigo, “tenho que soltar essa gata louca bem longe de casa, vai que ela me ataca, me arranha, me passa o vírus da raiva ” e esse planejamento fiz durante alguns dias. “vou esperar os gatinhos crescerem um pouco, aí os levo com mãe e tudo e os solto bem longe daqui.
      Passado uma semana, uma chuva daquelas pesadas caiu sobre a terra e fiquei ainda mais surpreendido ao ver Cabeça Torta, carregando sua cria de forma desengonçada, batendo pelas paredes com o gatinho na boca, mas carregando para dentro de casa. Disse a ela “Não, não Cabeça Torta, você não vai carregar seus filhotes para dentro de casa” arrumei uma caixa de sapatos e os levei novamente para fora. Mas Cabeça Torta era teimosa. Em dois minutos os cinco gatinhos já estavam novamente atrás do sofá, ela os tinham levado.
      Planejei soltá-los mais uma vez, as semanas passaram, os bichinhos cresceram um pouco mais, hoje já estão brincando como crianças pela casa. Mas a maioria do tempo passam dormindo em uma cestinha de taquara. Planejei soltá-los, mais uma vez, diversas vezes ensaiei isso, mas não tive coragem. Cabeça Torta foi muito inteligente, de gata arisca passou a “cordeiro”, amansou-se de vez, vinha lamber meus pés quando eu chegava do serviço. Isso partiu meu coração. “Como pode uma gata tão desengonçada feito uma louca, ser tão dócil como Cabeça Torta?” Analisando bem é possível que Cabeça Torta tenha sido atropela por algum carro, por isso ficou assim desengonçada, sem muita direção, mas quanto a animal, é maravilhosa, boa mãe, e dócil, muito dócil! Tão dócil que me fez desistir de soltá-la juntamente com seus filhotes.
      Agora estou contemplando Cabeças Tortas, cinco filhotes de olhos azuis e pelos cinza claro com os da mãe, cinco bolinhas insignificantes que cresceram um pouco mais e brincam como criança no meio da casa, cheios de ternura e graça.
      Vou te soltar Cabeça Torta, você não é gente, você não conversa, não entendo seus sentimentos, a não ser o sentimento de mãe; esse dá pra ver a distância. Você é muito, muito carinhosa com seus filhotes. Mas não haverá outro jeito, tenho que te soltar, tenho que te soltar, tenho que te soltar... Só não sei quando, pois você e seus filhotes me cativaram.   


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