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Cleso Firmino






QUANDO UM NÃO QUER, DOIS NÃO FAZ.

     Já passava das 18h30m. Dos subordinados, só restava Geovana que terminava de consumir umas poucas bolachinhas que sobrara, ainda do café da manhã, mas assim que consumira, registrou o ponto e saiu, ficando apenas Naomi. Essa não era funcionária da empresa; era terceirizada. Com ela ficou apenas o diretor encarregado de entregá-la as encomendas do dia.
 Acácio, o encarregado, preenchia as notas concentradamente, pois não podia errar; por isso o silêncio momentâneo.
       — Pronto! — disse ele — terminei.
    — Aff... — suspirou a mulher. — Graças a Deus! Já não agüentava mais ouvir o som do silêncio.
      Acácio riu-se.
     — Me desculpe, eu não poderia errar essas notas, senão você teria de esperar muito mais ainda.
      — Tudo bem! — respondeu Naomi.
   O jovem diretor havia muito tempo buscava oportunidade para se declarar à japonesinha, mas nunca tivera coragem.
      — E seu marido? — arriscou uma introdução.
      — Meu marido?... o que tem ele?
      — Como está... tudo bem?
      Naomi era uma pessoa muito direta com as palavras.
      — Aquele cretino?... Estou de mal dele.
      — Mas por quê? — perguntou Acácio.
   — Me traiu. Mas mesmo assim, continuo sendo fiel ao safado.
      Era a grande oportunidade de Acácio.
     — Eu nunca faria isso a uma mulher tão delicada e bonita como você.
      — Você me acha delicada?
      — Sim, muito mais que isso: pra mim você é uma deusa!
   O rosto de Naomi ficou vermelhinho com aquela súbita declaração.
      — Sério?! — perguntou surpresa.
   — Sim, estou sendo sincero, mas infelizmente você é casada.
     — É, e como já disse, continuo sendo fiel ao safado do meu marido.
    Agora quem ficou com vergonha foi Acácio, que por um instante não sabia o que dizer.
      — Mas se bem que...
      — Se bem que, o quê? — perguntou Acácio.
    — Se bem que ele merece ser correspondido da mesma forma. — respondeu a mulher.
    O jovem diretor tomou coragem e investiu novamente com as palavras.
      — Eu daria tudo para ganhar um beijo seu.
      No que ela prontamente respondeu:
      — Eu também tenho vontade lhe beijar, e não é de hoje.
      — Então me beija.
      — Não posso...
      — Por que não pode?
      — Porque não.
    — Porque não, não é resposta. Se eu tenho desejos por seus beijos e você pelos meus, o que tem demais?
      — Algo nos impede.
   — O que nos impede, estamos sozinhos! — Exclamou Acácio.
     — Um beijo, nunca fica só num beijo! Ainda mais quando se trata de alguém casado.
      — É só um beijo...
    — Não, esquece isso; nem deveríamos ter iniciado essa conversa. — respondeu a mulher.
   O diretor sentiu-se tão pequeno que desejou cavar um buraco no chão e se enfiar dentro para nunca mais ter que olhar nos olhos orientais de Naomi.
      — Tudo bem então, — concordou Acácio — quando um não quer, dois não faz.
       Passou a mão nas encomendas tratou logo de colocá-las no carro da mulher, mas ela o deteve na porta.
      — Me desculpe!
    — Não há de que lhe desculpar — disse Acácio — eu é quem fui atrevido demais com você.
     — Mas eu também disse que sinto vontade lhe beijar. Isso alimentou suas esperanças.
  — Sei... mas você nunca me corresponderá porque é casada.
   — Sim, é verdade; apesar de meu marido ser um safado, sou muito fiel a ele.
Acácio estava se sentindo muito mal com aquela situação, de tal forma que não via a hora da mulher ir embora.
    — Tudo bem então.
  — Tudo bem mesmo? — perguntou a mulher meio sem gracinha.
   — Tudo bem.
   — Você não vai ficar chateado comigo?
   — Não, de maneira alguma.
   — Então tá... tchau Acácio!
   — Tchau Naomi!
  A mulher se dirigiu em direção ao carro e o encarregado voltou à sua mesa. Sentou-se e refletiu por um instante na burrada que havia feito. E no outro dia, como iria olhar novamente àquela mulher?
    — Fui muito burro! Eu não devia ter dito nada a ela. Estou me sentindo um verdadeiro idiota! Otário!...
     De repente a porta abriu-se novamente.
     — Voltei Acácio.
     — Esqueceu alguma coisa? — perguntou à japonesa.
   — Eu só queria lhe dizer que também sinto vontade lhe beijar, mas um beijo nunca fica só num beijo.
     — E...
    — Mas se eu lhe desse um beijo você pensaria mal de mim.
     — Não, não pensaria. — respondeu Acácio.
    — Pensaria sim.
    — Já disse: não pensaria.
    — É, mas a possibilidade de um beijo está muito longe de acontecer, pois como lhe disse: sou muito, muito fiel ao meu marido.
   Disse isso trancando a porta e arrancando a chave da fechadura.  


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