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Cleso Firmino






O ESCORPIÃO

         Quem nunca ouviu a história do escorpião e da rã que tentou salvá-lo de um grande incêndio que consumia a floresta? Como recompensa, na travessia do rio, bem no meio, enfiou o ferrão nas costa da pobre rã, matando-a e se matando também. A mesma história de ingratidão se repete neste conto.
            Ali estava um corpo ensangüentado, caído no chão da cozinha, à beira do fogão, e trancafiado no banheiro apertado, um aracnídeo humano de mais ou menos vinte sete anos.
            Se a curiosidade lhe aperta caro leitor, vai degustando linha por linha do que pretendo lhe contar de agora em diante, contudo devemos voltar ao início para que você possa pegar o fio da meada.
            Izabel conhecera um rapaz, um estranho que nunca deu as caras, para que fosse apresentado à família da mulher. Nesse romance concebeu... em seu útero formava um embrião o qual lhe acarretaria a mais complicadíssima gestação que uma mulher possa ter, e quando finalmente chegou à hora de dar a luz, pobre jovem ainda na flor da idade, pouco mais de dezesseis anos, teve uma eclâmpsia, morrendo durante o parto.
            A adolescente mulher era filha única, e não restaria nada na vida de Helena, sua mãe, se o recém nascido não tivesse sobrevivido, graças a Deus. Um lindo menino! Enorme, quase três quilos e meio, uma bola de gordo e saudável, isso é o que importava num momento de tanta dor para a avó.
            Dona Helena era só, perdera o marido muito cedo, ainda no início do casamento, num acidente de trem, mas não perdera a vontade de lutar e vencer. Como tinha pouco estudo, ganhava a vida como diarista, fazendo faxina na casa de madames, quando não vendendo doces pelas ruas de Coxim. E assim foi sobrevivendo, isso mesmo, pobre não vive, sobrevive.
            Conforme criara a filha Izabel, criaria também o neto, como amor, carinho, dedicação exclusiva, esquecendo de si mesma para viver para o pequeno. Tudo se refletia na criança recém chegada, se comprasse três coisas, duas era para ele.
            Os dias passaram, vieram-se os anos. Um, dois, três... seis, sete anos já se passara desde aquele parto, o menino Calvino desvendava as primeira leituras, vovó Helena o ajudava com a cartilha.
            Com oito anos foi matriculado no colégio, mas as lições, já sabia de cor e salteadas. Aprendera com a doce ternura que tinha de ensinar da vovó Helena.
            Apesar da vovó lhe ensinar boas maneiras, com todo o carinho que ela tinha, o neto já bem grandinho, com seus doze, treze anos cometeu sua primeira travessura, essa poderia se comparar com um alto teor de gravidade. Pela terceira vez na fila da merenda, ouviu da merendeira um não.
            — Eu não aceito não como resposta. — era firme em suas palavras.
            — Não vou servir mais, você está pegando a merenda para jogar fora. Eu vi quando jogou. — Disse a merendeira.
            — Você vai se arrepender! — Gritou com grande furor e saiu correndo.
            Entrou para o banheiro e quando saiu, retornou trazendo em suas mão um frasco de plástico, com um líquido dentro, o qual lançou em cheio sobre o rosto da funcionária da cantina. Era ácido, ácido que as serventes usavam para desentupir os ralos do banheiro. As marcas ficaram para sempre, nem cirurgia plástica pode apagar as cicatrizes no rosto da cantineira.
            O menino foi severamente repreendido pela avó, pois nunca o ensinou a ser malvado daquele jeito. Apesar da repreensão, não o deixou de castigo, nem lhe deu nenhum tapa sequer, pois o amor que sentia pelo menino falou mais alto, preferia apenas conversar, dessa forma o ensinaria melhor. 
            Quatorze, quinze, dezesseis... na idade da mãe, o menino tomou-se as rédeas da avó. Essa já não podia mais controlar o adolescente que fugira da escola e passava a maior parte do tempo numa praça, brincando com a molecada. Apanhava, batia, voltava para casa tarde da noite, às vezes de madrugada, quando não amanhecendo o dia. Mas a avó o amava como um filho que nunca teve. Aquele menino era um xodó da velha Helena.  
            Dezenove anos, era um homem feito, 1.81m, deveria ter puxado para o gene do pai, pois a mãe Izabel e os avós Pedrinho e Helena eram de estatura pequena, 1.60 quando muito.  Nessa idade saia para suas reuniões com os amigos e exigia que quando chegasse o almoço deveria estar na mesa. Virou dono da casa, era manda chuva ali, e a avó apenas o obedecia. Isso tornou tão comum e internalizado que a avó, fazia sem perceber. Comida na mesa, roupa lavada, sapatos engraxados... tudo era ela quem fazia.
            Depois muitos anos de trabalhos e depósito certinhos no fundo de uma previdência, a faxineira poderia para descansar. Com a chegada da aposentadoria, não seria preciso vender mais doces pelas ruas para poder sobreviver. Enfim, o tempo da colheita chegara, para alguém que plantara boas sementes durante boa parte de sua vida.
            Tudo muito bonito! Não é mesmo caro leitor? Acontece que D. Helena recebera apenas os primeiros quatro meses de sua aposentadoria, as demais o jovem rapaz subtraia para si, o que muito causava desgosto na pobre vovó.
            Os comentários eram grandes, vizinhos sabiam do que estava acontecendo e tratavam logo de disseminar pela cidade. Logo até os parentes distantes que há muito tempo não sabiam notícias de Helena, tomara conhecimento dos fatos e vieram ver com os próprios olhos o que estava acontecendo.
            — Meu neto...
            — O que há com Calvino, tia Helena?
            — Ele está me roubando.
            Essa conversa causou uma ira em todos os parentes que moravam em outra cidade, e que agora planejava tirar Helena daquela casa, ou entregar o neto Calvino nas mãos da justiça. Mas a avó recusou todo tipo de ajuda. Seu amor por Calvino era maior que qualquer ajuda.
            — Mas titia, — dizia uma sobrinha distante — a senhora tem que esconder seu cartão...
            — É o que vou fazer minha filha. — Respondeu D. Helena.
            Foi o que ela tentou fazer, mas o plano não deu certo.
            — O almoço está pronto mãe Helena? — Era assim que Calvino a tratava, pois fora criado como filho.
            — Sim meu filho. Está na mesa, é só servir e comer.
            — Estou precisando de uns trocados mamãe Helena, a senhora recebe hoje, não é?
            A resposta veio sem vacilar:
            — Perdi o cartão.
            O moço agora com vinte sete anos, terminou de limpar o prato de macarronada, levantou-se da mesa e foi até o lugar que de costume D. Helena guardava seus documentos. Não havia documentos, nem carteira, menos ainda cartão de banco.
            — Cadê o cartão?! — perguntou num tom muito agressivo.
            — Não sei... sumiu!
            — Você está mentindo sua velha... eu preciso de dinheiro! — gritou mais uma vez.
            Como D. Helena estava decidida a não colaborar com larápio do neto, esse se enfureceu, mas enfureceu de um tanto que passou a mão numa faca e avançou contra a pobre velha que o criara desde o nascimento, desferindo quatro golpes que podia ser contados: um na palma da mão, quando ela tentou se defender,  um na testa, um no pescoço e último, o fatal, no tórax, que atingiu o coração amoroso da caridosa mãe-avó. 
            O sangue era tanto que esguichava longe, a mulher agonizara até a morte no chão da cozinha, à beira do fogão onde a poucos instantes atrás fizera o almoço que alimentara o neto Calvino, que agora se trancara no banheiro da casa e cortara um dos pulsos, na tentativa desesperada de um suicídio com seu próprio veneno.


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