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Marlos Mello






Olhares sobre a ciência e a imprensa: a divulgação da pesquisa científica no Brasil

 

Olhares sobre a ciência e a imprensa: a divulgação da pesquisa científica no Brasil1

 

Por Marlos Mello2

 

Uma simples observação sobre os dias de hoje, por mais superficial que seja, mostra que o modo como nascemos até o que comemos, bebemos e o modo como nos relacionamos passa por um projeto adaptado de ciência. Esse projeto é cauterizado num determinado saber, o saber cientifico: mas em que se baseia esse saber para se auto-afirmar como verdadeiro?

 

Muitos estudiosos já tentaram responder a essa questão e, por isso, não nos atrevemos entrar nesse embate, ao menos não nesse momento. Nosso objetivo neste artigo é colocar em “xeque” os meios de divulgação do saber cientifico, de como ele se faz na imprensa e o modo como ganha legitimidade e liberdade para adentrar nos diversos e distintos lares, famílias e comunidades brasileiras.

 

A ciência e a “construção” da realidade

 

A imprensa, de certa forma, canalizou o serviço de divulgação da ciência. A legitimidade e a credibilidade dos meios de comunicação (jornais, rádios, televisão e internet) adquiriram, da sociedade, o direito de apurar o que fundamentalmente está em evidência no campo cientifico.

 

A inserção do pesquisador no campo midiático está relacionado com as diferentes situações a que é convidado a dar sua opinião. Tal situação ocorre, muitas vezes, por apreço do editor/jornalista que convida o pesquisador para participar ou escrever sobre determinado assunto ou, em certos casos, pela importância da sua pesquisa diante da sociedade.

 

Nesse sentido, a imprensa, além de ocupar um lugar de destaque por participar/pautar de maneira decisiva na formação das evidências cientificas, atua no processo político-social e na construção/interpretação da realidade, funcionando como um importante instrumento de acesso e visibilidade às informações científicas.

 

Os pressupostos da imprensa científica

 

Reportando-nos a história percebemos que o pioneirismo no desenvolvimento da imprensa cientifica coube ao alemão Henry Oldenburg, que percebeu a possibilidade de inovar através de um novo jeito de fazer ciência. Além dessa percepção aguçada, ele tinha um talento especial, o de juntar e inspirar a nova geração de homens da ciência. A combinação do caráter informal e fragmentado das cartas escritas com o potencial de alcance popular das mesmas foi identificada por Oldenburg que não exitou em sua campanha de “democratização” do conhecimento.

 

Já nos Estados Unidos, Edward Scripps, em 1921 fundou o primeiro serviço de notícias científicas. Scripps, como gostava de ser chamado, era um homem apaixonado pelo jornalismo e pela ciência e estabeleceu nessa relação as bases para a criação de “Science Service”, ou Serviço da Ciência que é, até hoje, uma das principais agências de notícias científicas dos Estados Unidos.

 

Disse Scripps: "É somente por meio da imprensa, especialmente a que se faz diariamente, que a grande maioria da população deste país pode receber educação, informação e ser instruída com qualidade e rapidez nos assuntos de seu interesse. O objetivo desta instituição, a Sociedade Americana para a Disseminação da Ciência, é servir-se largamente da imprensa para disseminar o conhecimento resultante de longas pesquisas realizadas por centenas ou talvez milhares de homens qualificados e de grande capacidade mental". Assim, estava posto os pressupostos da imprensa científica3.

 

O motivo da divulgação da ciência

 

No Brasil, a divulgação da ciência surge quase sempre de uma “preocupação social” da empresa de comunicação, não é por acaso que os programas que vinculam a palavra ciência são sempre carregados de slogans com a marca da “responsabilidade social”. O que as empresas de comunicação no Brasil não divulgam são os valores financeiros embutidos nos produtos, programas, matérias e reportagens relacionadas a venda de produtos “legitimados” pela ciência.

 

Num primeiro olhar parece que não tem problema a ciência estar a serviço dos interesses das empresas de comunicação que lhe outorgam para si o direito de escolher os horários e como serão vinculados os programas, e até mesmo que tipo de matérias, quais pesquisadores serão entrevistados e como será publicizada a informação cientifica. Porém, devemos estar cientes que a existência da ciência só se deve a um motivo específico: melhorar a vida das pessoas, não apenas em termos de disponibilizar as descobertas geradas por si mesma, mas também no sentido de questionar as pessoas, provocá-las em relação ao mundo em que vivem buscando torná-las críticas frente a realidade.

 

Sawaya: um visionário da ciência no Brasil

 

Quem melhor definiu a necessidade da divulgação da ciência no Brasil foi Paulo Sawaya em documentário organizado pela SBPC (Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência) onde diz o seguinte: “Eu me lembro que me encontrei com uma pessoa muito conhecida, e que por sinal era uma religiosa, num instituto em São Paulo e disse assim: “o que é que vocês tão fazendo lá que conta que vocês começaram a brincar de fazer uma sociedade cientifica e agora ta incomodando muita gente”, e é isso mesmo, (respondeu Sawaya), ela nasceu pra isso mesmo, porque só incomodando muita gente é que a gente pode progredir na ciência”4.

 

A resposta de Sawaya representa o cenário da pesquisa no Brasil. Muitas pessoas não sabem e/ou não entendem o que faz um pesquisador e nem mesmo o porquê de uma pesquisa. A divulgação da ciência esta calcada no que ela produz, no produto final gerado por ela ou na discussão que alavanca e não nos desafios que os pesquisadores enfrentam diariamente. Nesse sentido, nos últimos anos, embora o Brasil tenha atravessado uma profunda e crescente ascensão financeira - com progressivo aumento da classe média - manteve acesa a demanda da ciência e da tecnologia. Dessa forma, para mim, um dos principais desafios da ciência no Brasil, hoje, é interagir nos aspectos cotidianos, relevantes, ritualísticos, bem como nos espaços públicos e privados. Ou seja, não deve, e nem pode, continuar restrita aos muros das Universidades.

 

O CNPq e as agências de fomento à pesquisa

 

Em 2011, o Conselho Nacional de Pesquisas - CNPq, criado em 1951 completou 60 anos. Em um primeiro momento, a criação desse conselho foi intimamente ligada à ideologia nacionalista, a entidade representou o primeiro esforço significativo para estabelecer uma regulamentação sobre a ciência e tecnologia no Brasil. Atualmente o CNPq é a principal agência de incentivo à ciência no país. Realiza pesquisas próprias e atividades de informação e divulgação sobre ciência e tecnologia.

 

Apesar da inegável importância que tem o CNPq, na tarefa de promover e informar a sociedade a respeito das pesquisas realizadas nas mais diversas áreas do conhecimento, as quais podem trazer avanços para o dia a dia do brasileiro e podem significar melhorias consideráveis na qualidade de vida das pessoas, parece precipitado ou ingênuo afirmar que o CNPq da conta da promoção e do acesso à informação científica tendo em vista que o acesso as revistas e publicações desse porte é difícil e, na maioria das vezes, restrita ao espaço das universidades ou centros de pesquisa.

 

A responsabilidade educativa dos meios de comunicação

 

Entretanto, os meios de comunicação, que reconhecidamente se utilizam de grande apreço e legitimidade junto a população, funcionam como difusores do conhecimento, ou seja, as empresas de comunicação utilizando-se de seus veículos de acesso mesclam suas programações com ficção e realidade, produção de conhecimento e entretenimento. Por isso, a ciência passa a ser um atrativo e, muitas vezes, sua real função acaba subjugada no emaranhado “mundo” de informações elaboradas pela imprensa. Outro ponto frustrante do modo como a imprensa se relaciona com a ciência é a relevância dada as constantes opiniões e pontos de vista sobre variados temas. Acontece, e não é raro, de alguns comunicadores não demonstrarem preocupação com suas afirmações ditas “cientificas” em órgãos de imprensa, como já foi investigado e demonstrado por diversas e distintas pesquisas.

 

No Brasil, os meios de comunicação social além de exercerem as funções que lhe cabem, entretenimento, informação, etc., exercem um importante papel educacional. Para mim, não há problema nos meios de comunicação também possuírem uma função educativa, ao contrário, como já esclarecemos em outros artigos, acreditamos ser indispensável essa responsabilidade educativa aos meios de comunicação.

 

Os atuais desafios da divulgação da ciência no Brasil

 

Entretanto, queremos manifestar nossa preocupação no que tange a forma como a ciência é tratada e retratada pela imprensa brasileira. Até o momento, não acreditamos que haja uma real divulgação da ciência. O que há, na verdade, é um aproveitamento de alguns resultados produzidos pela ciência, esses, geralmente, associados a bens de consumo. Portanto, as funções e a ações educativas dos meios de comunicação ficam prejudicadas. Os programas que aprofundam um pouco mais o tema da ciência são colocados em horários de pouca visibilidade e, muitas vezes, a publicização da ciência é sem nenhum critério justo de divulgação. Assim, os desafios de divulgação da ciência continuam e precisam ser enfrentados.

 

Aproveitamos esse espaço final para dedicarmos esse artigo aos pesquisadores e pesquisadoras que fazem da sua curiosidade um instrumento de trabalho e dedicação e que mesmo com as dificuldades, percalços, falta de recursos materiais e financeiros, não se deixam abater e seguem na sua luta cotidiana de descobertas para fazer do mundo um lugar melhor para se viver.

1Não citar nem reproduzir sem autorização escrita do autor

2Psicólogo Social


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