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Airo Zamoner






A fuga de Lúcio

Lúcio agarrou fortemente as barras da grade com suas mãos virgens de trabalho, poupadas da insana lida. Usando o peso do corpo, sacudiu sem raiva as grades insensíveis, numa tentativa quase estúpida de atravessá-las. buscar uma liberdade irresponsável, leve, impune, ainda não experimentada.
Ofegante, cansado, enfiou o rosto pela fresta estreita, apertando-o como se pudesse avantajar a passagem, escapulindo seu corpo das amarras seguras de si, invencíveis. Vermelhas e fundas marcas nas maçãs do rosto, foram as únicas conseqüências.
Caiu sentado, exausto como sempre, frustrado como nunca. Um minuto! Apenas um minuto de reflexão e conformado, distraiu-se com os objetos que o rodeavam, até que o sono dominou o exíguo espaço, levando seu corpo para trás, lentamente, suavemente.
No sono, o sonho era de liberdade. Era somente lá que Lúcio alçava seus vôos heróicos. Do alto podia ver com desdém a prisão vencida, derrotada, perplexa.
No sono, o sonho recursivo, porém, apagava a liberdade. Ele abria os olhos devagarinho, espiando com medo em volta. Via as mesmas e implacáveis barras a despejá-lo na realidade crua de novas, inúteis, malogradas tentativas.
A fome avassaladora obrigava-o a tentar, no desespero, no aflorar do instinto escondido pela sobrevivência, mesmo sem liberdade, transformar objetos em alimento, mordendo-os com força vã.
Seu olhar pesquisava o entorno na busca de socorro, enquanto o vazio aumentava zombeteiro, produzindo uma tristeza imensa, acumulada com a prisão do corpo. Um torpor desconhecido invadia-o, balançando entre o sofrimento da fome e a tristeza da prisão injusta.
Lúcio não conseguia descobrir em seu passado, os atos cometidos que justificassem seu destino e chorava. Chorava baixinho. Chorava o choro do limbo, onde moram os inocentes, presos pela sarcástica imaginação dos peraltas, dos santos, dos malvados, dos papas, dos espertos a se locupletarem pelos séculos dos séculos, sem definir jamais o amém da glória.
Mergulhado na fome de uma liberdade desconhecida, instintiva, Lúcio amargava as dores da outra fome rasteira a corroer as entranhas e a salgar a alma. Entre sonhos e choros mudos, entre o sofrimento e os sonos breves, não via o tempo correr, mas o tempo corria sem conta.
Depois de um adormecimento insentido, a boca seca indicou a sede. O corpo mole na perda de energias enfileirou os sofrimentos das grades, da fome, da sede e Lúcio chorou mais uma vez.
O lugar, pequeno para seus desejos, tornou-se sujo, fétido, insuportável. Os excrementos se espalharam, ferindo sua pele com seus ácidos perversos. Sentiu dor e nojo de si mesmo.
Despencando num estado sonolento, quase mórbido, fechou os olhos. Examinou-se vagaroso. Percebeu o corpo em dores, a liberdade usurpada, mas sentiu que navegava lá dentro alguma coisa valiosa e ele pensou. Pensou, descobrindo uma outra liberdade, mais saborosa que ia além das grades. Com ela, brincou e espiou para fora. Com seu pensamento malicioso comandou que o cativeiro inteiro desmaiasse derrotado, abrindo o espaço de Lúcio. Aí sim, conseguiu sorrir. Pensou mais uma vez e os cheiros desapareceram, a fome foi consumida pela sede, o corpo flutuou, atravessando o universo. Cá de cima viu suas dores lá embaixo.
Seu corpo dançou pelo espaço. Finalmente, desfrutou da liberdade que tanto quis, sem saber o que era.
Repentinamente, a porta se abriu. Viu-se outra vez aprisionado. Voltaram, a fome, a sede, as dores...
– Olhe só o que eu trouxe pra você!
Lúcio bateu palmas, feliz ao ser guindado para fora do berço.


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