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Rafael Lopes Moraes






Loucura E Paz

 
Hoje eu resolvi fazer diferente, mudar um pouco a rotina da minha vida, chega de ser parasita, inútil, não posso deixar que a sociedade me esconda, passe por cima de mim, eu tenho que aparecer. As pessoas sabem como prejudicar e interferir na vida das pessoas, hoje eu passei por uma situação estranha, estava indo a padaria com meu suéter vermelho desbotado, uma sapatilha simples e uma calça de dormir, qual é? Era perto de casa, eu tenho essa liberdade! No caminho uma moça jovem de no máximo 18 anos, loira, mas pela cor da sobrancelha, não era natural, um frio que só quem acorda 6, 7 horas da manhã e não tem carro sabe, e lá estava ela andando como se estivesse desfilando pra “fashion week” com uma saia curtíssima, um salto enorme, e com a maquiagem pouco borrada, acredito que a noite dela tenha sido boa, ela estava mesmo acreditando que ainda estava na balada e era a mais bonita do grupo de amigas, se não fosse pela raiz escura, a barriga de fora, e a maquiagem, bom eu vou dar um desconto, pois são quase 7 da manhã e é praticamente uma missão impossível sair as 22:00 da noite passada ir de ônibus ou taxi, e chegar com a pele intacta, pela face dela, e andar, ela era uma dessas aproveitadoras e devoradoras de homens, sabe aquelas que sai com creme no cabelo molhado, pingando? E jura que é a mais “gata” imagine, que horror eu mal cheguei perto dela e já consegui perceber todos estes pontos, ah eu sou um gênio, ou melhor, eu sou vizinha da “periguete” o que facilita mais toda esta descrição que eu fiz, em plena manhã fria. Mas só consegui ter certeza quando ela chegou perto de mim e falou “eu em” nossa senti o bafo dela de álcool misturado com cigarro, foi nojento, ela olhou pra mim estranho, um olhar inseguro, mas que não queria mostrar esta insegurança, pois é minha vizinha, pega mal, não entendi muito bem o tom de voz dela, ela me olhou como se fosse lixo, poxa eu sou igual ela, ou melhor ninguém é igual a ninguém, mas eu sou ser humano mereço certo respeito, mas vou dar outro desconto, pois é de manhã e ela tinha que chegar em casa e inventar uma desculpa, ou não, os pais dela são tão “liberais”, mais ela é jovem, ela tem que aproveitar enquanto não tem tanta responsabilidade. Chegando à padaria, confesso que me senti um pouco feia, pois tinha umas pessoas bem vestidas, pessoas importantes que não tem tempo e necessita de um café rápido da padaria, é como se fosse um shopping, e eu com minha roupinha de “solteira aos 30”, e vida triste, mas são 7 da manhã, e eu não me importo com o que as pessoas pensam a respeito de minha roupa, bom, foi ali na entrada que comecei a cair na realidade, fiquei tanto tempo trancada em casa, que quando sai , estava fraca e quebrada, não tinha mais noção do que é sociedade, do que ela representa, meu Deus, estou ficando louca, ou melhor, estou percebendo a minha loucura, mas eu vim a padaria e não sei o que exatamente eu quero, não consigo pensar, todas as palavras fogem, ainda mais com a brilhante “periguete” baforando perto de mim, não que ela seja tão importante assim a ponto de eu dedicar minutos a ela, como agora. Uma moça, ou melhor, senhora fina, bem perfumada saiu da padaria, entrou em seu carro com toda sua elegância olhou fixo pra mim e disse “eu em”, ai meu Deus, novamente essa fala, o que será que está acontecendo?, Meu suéter é velho mais não é sujo, resolvi entrar, mais lembrei que não tinha um centavo pra gastar, pensei em ser humilde e pedi para usar o banheiro, pedi para a garçonete e ela me olhou, não falou “eu em” apenas falou, você está melhor Karen? Gente como ela sabe meu nome? Quando olhei para trás ela estava falando com uma cliente que a proposito tem o meu nome, apenas o nome, esta Karen era uma negra alta de cabelos cor de cobre, totalmente diferente de mim, pois sou magra, baixa, branca, tão branca que pareço doente, e nariz pontudo, fora as roupas “trapos” que estava vestindo, a negra olhou para garçonete e muito educada pediu a conta, eu não imaginava que logo cedo, a padaria estava tão cheia que parecia liquidação no shopping, como a garçonete estava ocupada demais, resolvi procurar o banheiro sozinha, e fui andando, passando por umas pessoas apressadas, tão apressadas que passava e esbarrava sobre mim, teve um que derrubou até metade do café, vê se pode, mas eu estava precisando ir ao banheiro que nem liguei, chegando lá não conseguia abrir a porta, minha mente estava fraca, eu estava fraca, não sabia que movimentos fazer para abrir uma simples porta de madeira antiga, quando a negra resolveu entrar e eu entrei junto a ela, ela entrou rápido e se trancou na ultima porta do banheiro disponível e eu fui me olhar no espelho, quando de repente, não conseguia reconhecer o reflexo que eu via uma moça branca, careca, nariz pontudo, parecia que tinha anorexia, será que eu tinha? E por que eu tinha esta necessidade de ir à padaria? Comecei a chorar, não sabia o que fazer, não estava me reconhecendo, tentei me descabelar, mas o que restava em meu couro era apenas alguns fios, fiquei com vergonha, a imagem era deprimente, sentei no chão, a negra saiu do banheiro e perguntei a ela, se estou muito feia, ela não me deu atenção, estava ficando muito triste, eu sentia uma dor tão forte no pescoço, e uma dor na cabeça que se espalhava rapidamente por todo o corpo, me esforcei ao máximo pra sair da padaria, sai com a negra que saiu com algumas sacolas, e sai da padaria, fui direto para casa, tentei correr, mas estava tão fraca que mal conseguia andar. Chegando a casa, vejo uma senhora idosa chorando, quem será ela? De repente vejo também a “periguete” tomando café preto, nossa isso se espalharia rápido por ela, logo o bafo seria pior, cigarro, álcool e café puro, corajosa ela, mais o que ela está fazendo em minha casa? Quem é esta senhora chorando? Vi algumas lagrimas no rosto da “periguete” achei estranho, de repente toca a campanhia, a idosa atende e entra a negra junto a moça fina da padaria que falou “eu em” todos pareciam muito triste, eu tinha que perguntar o que estava acontecendo, mas estava muito fraca, eu queria falar, mas não conseguia, e a dor muito forte no meu pescoço começou a piorar de modo que eu cai no chão, encolhi minhas pernas junto aos meus seios murchos, secos e sem vida e chorei de dor. Passou alguns minutos e levantei fui para a sala e encontrei muitas pessoas, fiquei confusa, quando de longe vi uma madeira, não entendi direito, fiquei apavorada e me aproximei vi uma moça deitada com umas rosas da cintura para baixo, e umas pessoas chorando e falando, “como ela pode fazer isso” “ela estava lutando” e a “periguete” falou “mas eu vi ela hoje de manhã, não acreditei, achei que estava vendo coisas, ela não falou comigo” e uma mulher alta de preto com os cabelos compridos até os pés falou “anorexia, esquizofrenia, câncer, tomaram conta da mente e do corpo dela, e ela não conseguiu lutar, 30 anos tinha uma carreira brilhante que infelizmente a doença foi mais forte e fez com que ela tomasse esta atitude” e a negra ” Por que ela se suicidou?” quando ela disse isso, pensei como uma pessoa pode ser tão egoísta, a ponto de se suicidar, estava ficando interessante achei aquilo um espetáculo isso as 8:00 e quando a “periguete” perguntou a negra como ela se suicidou, a negra respirou engoliu seco e disse “ela tomou todos os remédios de uma vez só, misturou ao álcool, e depois se enforcou” quando ela disse isso a dor no meu pescoço voltava e eu pensei que a morta poderia ser eu, e quando a moça fina finalizou o espetáculo falando “Karen tinha tudo, uma família que apoiava em todos as suas vontades, tinha amigos, mas não tinha amor próprio, o amor acabou 5 anos atrás com a descoberta do câncer, ai se afundou, ficou anoréxica, depressiva, esquizofrênica! “ eu sentei ao chão e chorei, percebi que havia tirado minha vida, ou melhor facilitei para que a dor que sentia acabasse, eu comecei a lembrar aos poucos, que todas aquelas pessoas passando quase me atropelando na padaria na verdade elas não estavam me vendo, mas por que a “periguete” me viu? E a moça fina? Isto é uma duvida que levarei comigo. A idosa era minha avó, a “periguete” era minha prima, vizinha, a negra minha grande amiga e a moça fina não conseguia me lembrar, talvez seja porque eu não a conheço, mas ela falou de uma forma que me conhecia, mas já aconteceu eu sei que Deus me perdoará, eu posso me arrepender mais tarde, mas agora a única coisa que queria era esquecer o dia que eu achei que teria após 5 anos trancada em casa, eu acreditei que fui livre, quando sai de manhã, pude respirar, um pouco com dor, mas pude, fui a padaria que ia todos os dias quando era saudável, tempos bons, e a padaria continua a mesma, fico feliz que minha prima se divertiu na balada, e chegou de manhã, preocupada? Até parece se eu não tivesse me matado ela voltaria daqui uns dias só, a negra foi uma grande amiga minha de infância, fico feliz que ela esteja bonita, minha avó coitada, ela não merece isso, mas logo passa, dizem que os mortos não têm muita lembrança, eu pude perceber um pouco disso hoje, meu primeiro dia de morte. A moça fina deu adeus a todos e falou umas palavras intrigantes, “filha, eu te amo” nossa aquilo me tirou a dor do pescoço, o peso da mente e pude ver pela primeira vez a minha mãe, fiquei sufocada, por conhecer a minha mãe logo após eu morrer, fui me lembrando aos poucos como me suicidei, minha avó tinha ido a igreja, minha prima saiu com a “galinhada” e resolvi acabar com meu sofrimento, agora o que me resta e esquecer tudo isso e poder descansar em paz, pois eu mereço, ah fiquei feliz por comprarem um suéter novo.
 

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