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LEOMAR BARALDI






O OPERADOR DE EMPILHADEIRA QUE FEZ CHOVER

 
 
Quem toma a palavra agora é o meu amigo João Miro, mais conhecido por João Cebola:
 
Obrigado, caro amigo Leomar, vou contar a minha história, que é assim: Outro dia eu estava descansando no intervalo da refeição, em meu trabalho quando a gerente chama. A gerente é a dona Amaguila Vieira de Castro Coelho. Dona do aglomerado de rede de construtora Castro Coelho, reconhecida internacionalmente.
Ela me chamou e compareci até a sua sala.
-Me chamou, dona Amaguila?
Ele me correspondeu com um olhar que pareceu uma motosserra ligada. Dona Amaguila nunca estava com uma cara boa. Demonstrava toda a seriedade de uma empresária que irradiava respeito e liderança.
-Sim, o chamei. Sente-se.
Sentei e senti algo sendo amassado, estourado e estilhaçado. Percebi que sentei em cima da bolsa dela. Mas parece que ela nem percebeu. Levantei-me depressa e sentei em outra cadeira.
Porém ela começou a falar:
-Você faz chover?
-O que? –respondi com uma admiração brotando em minha cabeça e minha alma.
-Perguntei se você faz chover?
Pensei, pensei. Será que a dona Amaguila estaria brincando? Mas nunca vi aquela mulher brincar. Mais séria que um toco de carnaúba.
-Perguntei se você faz chover? Carambola! Será que vou ter de repetir a pergunta?
-Ah... Bem...
-É que está aqui no seu currículo. –ela me mostrou o meu próprio currículo.
Então vi mesmo, eu havia colocado que fazia chover, naquele desespero de arranjar trabalho que eu estava. Sim, sim, escrevi aquela aberração no currículo. Eu estava desesperado atrás de um trabalho. Mas minha especialidade é operador de empilhadeira. E é isso que eu faço com bastante destreza. Um dos melhores operadores de empilhadeira da região. Eu mesmo.
-Mas por que a senhora quer saber se faço chover... Senhora... Senhora Amaguila?
A mulher girou noventa graus na sua cadeira giratória, olhou para um aquário de peixinhos azuis e amarelos que possuía no canto da sala. Depois girou pro meu lado e respondeu:
-Quero que faça chover. Estamos vivendo um calor infernal. Uma chuva viria a calhar. Faça chover.
-Ah, claro...
E agora? A mulher era muito rigorosa, certamente se não fizesse chover, eu iria para a rua. E os bacurizinhos, dois na escola, um engatinhando e e outro no ventre da mulher. Preciso tanto desse emprego. E agora?
-Sabe... Dona Amaguila, é que faz tanto tempo...
-Que nada. Fazer chover deve ser como andar de bicicleta, depois que aprende jamais esquece. É só fazer chover.
Estou perdido. Olha o que fui fazer. Onde estava com a cabeça colocar aquilo no currículo.
-Vamos, faça chover!
Perdido. Já estou me imaginando procurando trabalho de novo. Ai, Jesus. Olhei para o céu. Nenhuma nuvem.
-Dona... Dona Amaguila, é que...
-Nada de mas homem... Faça chover ou...
E agora? Um simples operador de empilhadeira que mal completou a quinta-série. Estou na rua. Nenhuma nuvem no céu. A mulher me olhando durona.
-Vamos! –disse novamente a mulher. Ela dava a impressão de um trator prestes a passar em cima de mim.
Bem... Olhei para o céu, levei a mão no bolso do macacão, apertei o pano grosso do macacão, mais de desespero que outra coisa. Escutei um Fiiiiiiiiiiiiipi! Era o dinossaurinho do pequenino lá de casa, que devo ter colocado no bolso do macacão quando brincava com ele no dia anterior. Foi quando abri os braços para o céu e disse:
-Chova.
E não é que começou a chover.
A dona Amaguila ficou toda entusiasmada.
-Mas como você faz isso?
Estufei o peito. Nessa altura eu já havia me mijado todo de medo (acho que ela nem percebeu). Estufei o peito e respondi, mostrando o dinossaurinho de borracha:
-Aqui está, o meu controle remoto do tempo.
E sempre que queria, eu fazia chover.
 
 

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