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Osmar Sampaio de Almeida Santos






JÁ TINHA VIVIDO EM IPEROIG

JÁ TINHA VIVIDO EM IPEROIG
 
Conto premiado pela FundArt
Sam Payo
 
- Iperoig era bem como imaginava — disse minha mulher.
- Meu bem, o lugar se chama Ubatuba agora.
Minha mulher, Sílvia, estava muito estranha desde que entramos em Ubatuba. Viemos com o objetivo de comprar uma casa na beira do mar. Queríamos, de preferência, uma casinha velha, tipo colonial.
 
- Temos várias — disse o corretor — a melhor fica aqui ao lado, na praia do Perequêaçu. A casinha é típica, colonial, acho que do século XVIII, o proprietário deixa até muitos itens de mobília, o fogão a lenha é original, tijolos e ferro, coisa que não se encontra mais.
- Podemos vê-la agora?
A casa era realmente um sonho, tinha sido recentemente reformada, via-se a imaculada pintura caiada, branca pelas paredes e azul nas  janelas. Janelões largos, o chão de madeira, tudo de acordo com o nosso sonho. Assim que entramos na casa, minha mulher ficou com um ar estranho e me disse:
- Vamos embora, não estou gostando daqui. Me sinto mal.
- O resto da casa - apontei para o corredor—, vamos ver tudo antes de passar à outra.
Quando chegamos na cozinha, Silvia teve de se sentar, pálida sem fôlego, balbuciou como se estivesse com dor:
- Estou tonta...
- Vamos embora daqui. Não gostei, não gosto. Vamos embora de Iperoig. logo!
No carro, ela se recuperou do mal estar. Olhando para o mar, pensativa, disse:
- Eu já morei em Iperoig no passado.
- Ubatuba, querida, mas como? Você disse nunca ter estado aqui.
- Pois tenho a certeza de que estive. Reconheço o lugar, conheço aquela casa, essas ruas estreitas, tudo é fami1iar... Meu Deus, como me sinto mal aqui. Vamos embora.
- Sílvia, meu bem, por quê? O corretor tem outras casas para mostrar.
- Não quero. É do lugar que não gosto, de tudo aqui. Já conheço tudo e não gosto. A casa que acabamos de ver, já morei lá. Ela não era branca, era cor de barro, o chão era de terra batida e tinha uma escada para um patamar na sala. Tinha um poço, e a entrada era pelo lado direito
e não pela frente. Vejo tudo muito bem.
O carro do corretor parou na frente do Registro de Imóveis, onde ele foi buscar alguns dados sobre casas antigas. Minha mulher saiu do carro, olhou para uma árvore velha na frente do prédio e desmaiou.
No hotel, o médico deu um calmante - cansaço de viagem, calor, o pessoal não está acostumado...
Enquanto ela dormia, fui ver o corretor, com a idéia de conversar, beber um café...
- Gostou da casa?
- Bonita, mas acho que minha mulher não gostou.
- Pena, é uma das mais velhas daqui, que diga aqui o meu sócio.
O sócio era um homem de barbas brancas, um velhinho que nascera e tinha morado sempre em Ubatuba, conhecia bem todos os costumes e estórias do lugar. Falei pra ele dos nossos planos e desejos de casas velhas, e acabei contando que minha mulher tinha descrito a casa de um jeito diferente.
- Sem dúvida - respondeu ele. — As casas daquela época eram mesmo de cor de barro, a pintura era muito cara. E aquela casa tinha mesmo uma entrada do lado, o último proprietário é quem a reformou, tirou uma escada que tinha na sala, mandou pintar de branco e azul, mas deixou o fogão como era, de tijolos e ferro, deixou até aquela panela de ferro enorme que deve estar lá. Essa panela tem uma história interessante... Quer ouvir?
- Sim, se o senhor tiver tempo.
- Pois aquela casa foi construída para um casal jovem. O marido saía de manhã pra pescar e voltava à noite para o jantar. A mulher, chamada Sílvia, é quem cuidava da casa. Quando primeiro filho nasceu, a mulher começou a ficar estranha, não queria que o marido saísse mais, ficava triste sem motivo. Uma tarde, o marido chegou em casa pra jantar e viu a esposa sentada ao lado do fogão, a panela de ferro fumegando. Ela tinha os olhos vidrados, rosto sem emoção... Quando o marido perguntou do jantar, ela mostrou a panela fumegando em cima do fogão.
O marido foi ver e, com horror, viu o bebê do casal na água fervente.
- Não sabia o que fazer para o jantar — disse a mulher sem se alterar.
- Bem, é essa a história. Condenaram a mulher como bruxa, feiticeira, hoje os médicos sabem que se tratava de depressão pós parto. E, como feiticeira, ela foi enforcada naquela árvore, bem de fronte ao que hoje é o Registro de Imóveis. Mas é uma bela casa. O senhor vai comprá-la? []
 
Baseado numa história real.

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