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Osmar Sampaio de Almeida Santos






Não se meta com minha sobrinha - Meu encontro com Hitler

Não se meta com minha sobrinha!
Durante oito anos de Suíça, viajei muito. Viajava sempre a negócios e prazer, acho que mais prazer do que negócios. O nosso escritório ficava em Lucerna que não tinha aeroporto. Levávamos duas horas de carro, para ir de Lucerna ao Aeroporto de Zurique que era o que usávamos em toda viagem.
Num dia feio de inverno, eu e meu colega italiano, Giuseppe, mais conhecido como Pino, tivemos que embarcar para um congresso de fim de semana em Londres, numa viagem de quatro dias. Saímos de Lucerna às 2 da tarde para pegar o avião das 5. No meio da viagem, o tempo fechou. De garoa passou à chuva gelada, e disso para neve molhada, e finalmente à neve braba que foi se amontoando no chão. Meu amigo Pino, calmamente, chegou à conclusão:
 - Carissimo, sempre falava italiano quando estava preocupado, - não vamos viajar hoje. Tenho certeza de que vão fechar o aeroporto. Não entre na periférica, na próxima saída, pegue a faixa para o centro. Vamos passar a noite em Zurique, se conseguirmos chegar lá.
Com muita dificuldade, derrapando nas ruas geladas, conseguimos chegar ao centro de Zurique, ao lado da estação de trens.
Na estação, no balcão da Swissair, tivemos confirmação. - O aeroporto está fechado. As passagens dos senhores foram remarcadas automaticamente para o vôo das 10:00, amanhã cedo. – Os suíços são eficientes e frios, como a moça que nem um sorriso deu, com a cara fechada, sem nos olhar, como se tivesse vergonha do inglês ruim que falava com dificuldade, acrescentou – o ônibus do aeroporto, aqui ao lado, sai amanhã 8: 30, gutte?
 - Gutte – respondeu Pino – danke! – Meu amigo era sempre muito educado, “tá bom e obrigado” eram obrigatórios no seu linguajar diário.
*
Bem em frente à estação, ficava o antiqüíssimo e famoso Hauptbanhof Hotel, uma verdadeira tradição com paredes, entrada e decoração em pedras, o século 19 ao vivo. Pino, bon-vivant, gourmet e otimista por natureza, discursou empertigado, - meu filho, você vai comer a melhor truta com amêndoas da sua vida.
Tinha razão. Registramos, descansamos, e às 7 da noite, nos encontramos no restaurante.. A truta estava tão boa que pedi outra garrafa de Chablis, o único vinho que vai bem com uma truta destas. Para rematar, eu engoli duas fatias enormes de uma torta de chocolate, a tal de Black Forest gateau, enxaguadas com alguns cálices de kirsch, cachaça de cereja típica da Suíça. Quantos cálices? Quatro, cinco, seis? Sei lá. Durante o jantar/banquete, pago pela companhia, é claro, meu amigo me falou em voz baixa, como se fosse um segredo - Hitler ficou neste hotel na única vez em que veio à Suíça. Os suíços nunca falam nisso, afirmam que Hitler nunca veio a Zurique, negam até que Hitler tenha vindo à Suíça! Coglione, veio sim, veio acertar os depósitos de dinheiro, ouro, obras de arte, roubados dos países ocupados e principalmente dos coitados do Holocausto, tudo isso está aqui, bem embaixo de nós, em subterrâneos dos bancos que você vê por aí. E veio também tramar com o governo, “comprou” a neutralidade suíça, desde que esta deixasse os alemães usarem as ferrovias e estradas suíças com a Itália.  - Fiquei impressionado com a história. Quando o meu amigo Pino subiu, fui à recepção. - Por favor -  disse ao recepcionista noturno, fardado e mal encarado - meu quarto é um pouco barulhento, com esses bondes. Talvez o senhor pudesse me mudar para outro, eu agradeceria muito.
- Naturalich, estamos vazios, qualquer quarto que senhorrr quiser.
- Eu gostaria de ficar no mesmo quarto em que Adolf Hitler ficou.
 - Herr Hitler na Suíça nunca veio - a cara do homem virou de bicho brabo - comecei a mexer no bolso. Ele adoçou a expressão - se veio, neste hotel não ficou. -Tirei a carteira do bolso, puxei uma nota de 100 francos, que pus em cima do balcão. Falou baixo:
  • É o 37 D, andar terceiro. Mas é uma suíte, o senhor só tem quarto de solteiro.
  • Eu pago a diferença, ponha na conta. – A companhia pagaria, não ia sair do meu bolso. Bêbado, tive esse desejo mórbido de dormir, no mesmo quarto da besta furiosa, na mesma cama, com toda certeza – os suíços não jogam nada fora, conservam tudo.
                                                                       *
Foi uma das piores noites da minha vida. Muito vinho, as cachaças, mas não posso culpar as bebidas. O quarto era luxuoso, tipo decoração cafona, cama, cortinas, cadeiras, móveis, tudo do século 19 mesmo. Não podia pegar no sono, quando consegui, o sono era leve, cheio de pensamentos, via soldados desfilando, sentia falta de ar, o peito aperto, uma sensação de horror. O quarto estava frio. Levantei, botei a mão no radiador – fervendo. E, vi Hitler. Distinta e claramente. E não foi sonho, juro. Vi, estava lá, olhando para mim, sério, semblante brabo, e quase que falava comigo, como se estivesse vivo. Estava de paletó marrom claro, tipo militar, a suástica na braçadeira vermelha, calças pretas, o boné na colo. Estava sentado numa cadeira de braços no canto perto da janela. As cores, a feição vívida, não podia ser sonho, eu nunca sonho em cores. Ele me encarou fixo, com olhar penetrante, em silêncio, como me julgando. Com uma voz rouca, alta e bem claramente, falou, falou não, me ordenou, apontando ameaçador um dedo na minha direção.  
- Deixe minha sobrinha em paz, não mexa com ela! Estou mandando, não pedindo, é uma ordem! – Terrorizado, fui ao banheiro, lavei o rosto com água fria, olhei no espelho. Lá estava ele, atrás de mim, de braços cruzados, me olhando zangado. Repetiu, cada vez mais furioso, - Não se meta com minha sobrinha! Deixa minha sobrinha em paz!  Levantou um dedo ameaçador, como se eu fosse uma criança. Voltei ao quarto e me sentei numa outra cadeira, do lado oposto ao que Hitler estava sentando. Nos encaramos por longo tempo, sem trocar palavra. Fiquei pensando no que Hitler queria dizer com sua ameaça. Acabei por pegar no sono e dormi um pouco. Acordando, agitado, toda vez que olhava, lá estava ele, sentado na poltrona, com o dedo em riste, sem dizer nada, o dedo me apontando.
A luz do dia entrou pela janela atrás de Hitler. Ele não estava mais lá. Eu não tinha mais vontade de pensar no acontecido. Arrumei tudo e fomos embora para o aeroporto.
*
A conferência de Londres, de quatro dias, durou 2 e meio. Pino voltou à Suíça sozinho. Eu telefonei para uma amiga, Júlia um amor casual que morava em Kent. Ela me convidou para passar o fim de semana numa casinha do século 17 que tinha comprado, e estava reformando. Júlia, era um desses amores sem futuro, nunca chegou a ser nem mesmo um caso. Dizia ter um namorado fixo, que chamava, às vezes de noivo. Mas como boa feminista, adulta, independente, gostava de sexo pelo que era, na hora que fosse, mas não com quem quer que fosse, era seletiva, nem sei como chegou a gostar de mim como companheiro transitório e temporário. Abria-se ao sexo casual, quando lhe dava vontade, com quem achava oportuno. E, no telefone, me pareceu que ela estava com vontade de me ver. Júlia era muito inteligente, instruída, com boa cultura geral. Quando nós nos encontramos no passado, nós mais conversávamos do que fazíamos amor. Eu conhecia bem o nome dela: Júlia Hilton, a firma sendo Júlia Hilton Marketing. Ela trabalhava como autônoma de pesquisa de mercado, e a nossa firma a contratava de vez em quando. Por isso, nossos contatos eram esparsos e nos lugares mais estranhos, Lucerna, Paris, Londres, e agora ela queria me mostrar a casinha dos seus sonhos, numa aldeia de pescadores, perto do mar, em Kent. Ela mesma estava decorando, e, orgulhosa, quis me mostrar a jóia de casinha, e o ambiente da aldeia, com igrejinha, barzinho, pracinha, tudo com o mesmo jeito de 400 anos atrás. Ah! O prazer das coisas antigas, e, quem sabe, um pouco de prazer presente, pensei eu. Júlia não era muito fogosa nos jogos de amor, e tinha o gosto estranho de tirar fotos nuas com uma Polaroid. Para encurtar a estória, não vou entrar nos detalhes carnais dos atos praticados no meio de uma casa em meio de uma reforma inacabada, colchão no chão, tábuas, e latas de tintas por todo lado. Sendo boa feminista, não havia nada na casa para comer, geladeira vazia. Tive que fazer uma excursão a uma cidade vizinha e fazer as compras, e cozinhar também. O que lá havia na casinha era somente um bom uísque de malta, velho, que ajudou a nos esquentar. Júlia não era afetuosa nem carinhosa. Nem abraços, nem carinhos, nem emoções do coração. Era ficar nus e ir ao ato. Júlia tinha cabelos loiros curtos, olhos azuis bem claros, um tipo bem nórdico, diria germânico, mas era muito inglesa.
Na casinha não havia aquecimento central e o uísque veio a calhar, principalmente quando se passa duas horas nus tirando fotografias. Esse foi o fim de semana nosso, fotos e atos de amor e passeios pela aldeia.
Como manda a etiqueta de amantes informais, em retribuição à “hospitalidade”, no domingo, convidei-a para almoçar no único restaurante da aldeia. A etiqueta, em relacionamento desse tipo, sexo pelo sexo, manda que não se faça muitas perguntas pessoais. Mantínhamos, portanto, uma certa distância emocional. Eu sabia que ela era divorciada – o departamento do pessoal é uma das seções mais ameaçadoras de uma firma, com segredos pessoais, para todos saberem. Júlia dedicava-se ao seu trabalho, guardar dinheiro, comprar casas, e nesses casos curtos – em 5 anos de “amizade”, nos encontramos umas 4 ou 5 vezes, nunca mais do que por 3 ou 4 dias. Não havia compromissos, nem emoções. Durante aquele fim de semana, tínhamos falado de tudo, menos de nós mesmos. No restaurante, para não ficarmos calados olhando para as paredes, e os copos, quebrei a etiqueta. Eu estava curioso sobre o sobrenome dela – Hilton, Júlia Hilton. Pensei comigo, “deve ter sido casada com um dos donos da cadeia de hotéis, ou ser ela mesma dona de ações?”. Seria um paradoxo, pois a hospitalidade caseira dela era nula. - Hilton? - eu perguntei sem muito interesse. - Esse é seu nome de casada, ou de nascimento? - fui ficando impertinente.  - Você não é dona dos hotéis por acaso? Na próxima vez que fico no Hotel Hilton vou pedir desconto. Desculpe, eu não devia fazer perguntas pessoais, sou xereta.
 - Está bem, não me incomoda. As respostas são: errado e errado. Hilton é meu nome de solteira, não tenho nada a ver com os hotéis, nem tive marido chamado Hilton. Quando me divorciei, reverti ao meu nome original. É charmoso ter o nome Hilton, pela fama, gente de sucesso se hospeda lá. O nome é bem comercial, fácil de lembrar, está associado com os hotéis de luxo, a minha firma fica imediatamente associada com os bons hotéis, bom para negócios.
*
Na segunda-feira, Júlia me levou de volta para a estação de trens. Por delicadeza, de novo, agradeci o fim de semana “maravilhoso”, e perguntei quando nos veríamos de novo. Uma pergunta retórica, pois sabia que ela detestava coisas planejadas, tudo tinha que ser por acaso. Um caso dos acasos.
 - Não sei quando irei à Suíça de novo. E, faça o favor de não me chamar de Miss Hilton. Só uso Hilton para negócios. Aliás, o sobrenome não era Hilton, foi mudado pelo meu pai, antes do meu nascimento.
 - Ah, não era Hilton? 
 - Não, meu pai imigrou, muitos anos da guerra, da Alemanha para a Inglaterra. Quando a guerra estourou, ele decidiu mudar o sobrenome, para evitar constrangimentos. Resolveu anglicizá-lo.
 - Qual era o seu sobrenome alemão? Vai ver que somos parentes, tive um bisavô chamado Kurtz.
 - Hitler, mas nunca cheguei a conhecer o tio Adolf. Em casa, nem se falava dele. Ele era um primo distante do meu pai. Agora você entende, um nome como Hitler não caía bem na Inglaterra, durante a guerra. []
                                                                       

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