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Mário Diógenes Poplade






Uma das formas de utilização da linguagem


Não é de ontem que alerto àqueles que comigo vem realizar análises de controle que: “Quando abrimos a porta do consultório não sabemos quem nele vai entrar. Além de não sabermos quem vai adentrar nossa sala, a priori não sabemos de quem se trata, assim como, que nada sabemos sobre as pessoas. Somente poderemos nos credenciar saber algo a partir do momento em que, oferecendo nossa escuta, se predisponham a nos ensinar um pouco sobre elas”.
Na minha concepção, além de poder ser tomado como uma espécie de ensinamento, o texto abaixo é a expressão de uma forma de utilização da linguagem que todos os viventes, temos. Num primeiro momento - quando esta descrição me foi apresentada - teci algumas hipóteses diagnósticas chegando até à indelicadeza de aventar a possibilidade de tratar-se de uma psicose com seus cotidianos neologismos porque pensando tão somente em termos psicanalíticos. Mais tarde tive a humildade de verificar que muitos dos termos ali utilizados detêm até alguma erudição e faz parte do vernáculo, denunciando, inclusive, um quanto da minha ignorância. Não é para menos que Lacan, em algum lugar de sua obra, adverte que nós, os analistas, não devemos saber tudo, mas que é necessário que saibamos alguma coisa. Todavia, e uma vez que estamos vivendo a plenitude democrática, fica implícita a aceitação de opiniões divergentes a respeito.
Seja como for, e após ler o texto com um pouco mais de detimento, verifiquei não se tratar de outra coisa que de um recorte discursivo muito próprio ao contexto social e à pessoa que o realizou. Era a sua forma e condição de expressão verbal. Assim, despido de alguns preconceitos, verifiquei o quanto era interessante e rico o que me fora exposto verbalmente. Tanto foi assim que mesmo antes de a pessoa se ausentar, solicitei-lhe que lesse o que do seu relato eu havia anotado. Sobrevieram suas sugestões de correção de tal forma que as anotações ficaram tal como ele me relatara.
Ainda que tenha sido um cliente que esteve no meu consultório somente naquela ocasião, não revelarei seu nome. Isto porque, da mesma forma como procedo desde o início do meu percurso na psicanálise sempre sou e estou obediente a minha ética pessoal. Em coerência ao meu procedimento ético pelo qual sempre pautei minha clínica, solicitei previamente sua permissão para “democratizar” essa forma muito particular de tratar e se valer da Linguagem..

Assim posto, vamos ao relato:

Ainda que já tivesse pagado pela infração que cometera e procurando eximir-se de uma culpa que já há alguns anos carregava, marcou uma entrevista. No consultório e após ser interpelado a relatar o que o incomodava, de imediato e para justificar sua procura por análise, foi logo dizendo:

− Aí seu doutor... Boas tardes.
− Sabes; no meu redondo eram quinze pras cor-de-rosa(1) . Eu estava estreando meu branco(2). Pintou um paca(3)na minha jogada dizendo que queria bater uma caixeta(4)com a minha pessoa. Como eu não tava a fim de lero(5), fui perturbar numa outra situação. Antes disso apareceu o gajo(7)da falsa mina(6). E detrás de seus muafos(8)me disse que era dedo-duro(9). Que era assim “cos homi”(10)e ia tingir meu branco de vermelho. O gajo manipresto(11)puxou do fazedor de defunto(12)e deu duas vezes na espoleta(13). Pá; Pá.... O degas(14)aqui que é magano(15)e muito vivo, saltei de lado e dei com os dois pisantes(16)no cheirador(17)dele. Nem bem comecemos a preliar(18)e ele caiu moqueado(19)ali na hora. Dei no pirulito(20). Peguei o borracha(21)e fui até o final do carretel(22). Desci, manjei(23)e periscopei(24)o moquiço(25). Nela entrei, puxei a quatro patas(26) e me larguei(27). Intimei o gravata(28)e pedi uma minhocada vermelha(29), uma delas-frias(30)e uma preta(31) bem gelada. Ingeri o rango(32)e sorvi os líquidos. Mas na hora da situação(33), o meu era nenhum(34). Aí inquiri de novo o bom gravata e pedi pra ele pendurar no cabide(35)ali da frente que depois eu legalizava. O gravata não se deu por rogado(36). O mal-azado(37)não achou bom e xingou. − Sou preto mas não sou gato félix(38)eu disse. Puxei da solinge(39)e abri uma longa avenida na epiderme dele. Tingi o branco de groselha(40)e o gravata moqueou. Nisso eu fui dar de pinote(41)e apareceu o dedo-duro que me caguetou pros xifópagos(42). Fui preso e comi o pão que o diabo amassou. Trago isso comigo há muito tempo seu doutor. E é por isso que eu hoje estou aqui .....

* Possível significação de alguns dos termos utilizados:
1.Alusão à bola do jogo de bilhar n.º 12, que é cor-de-rosa
2.Traje Branco; Terno Branco.
3.Pederasta passivo.
4.Entabular conversa; Assuntar.
5.Conversa fiada.
6.Um indivíduo qualquer; Pessoa sem qualificação.
7.Menina; Garota.
8.Trapos velhos; Andrajos.
9.Alcagüete; Delator.
10.Aglutinação da expressão: Com os homens; Conhecido das pessoas que representam a Lei; Com os policiais.
11.Destro; Aquele que detém maior habilidade na mão direita.
12.Arma letal; No caso, Revólver.
13.Acionar o gatilho da arma de fogo; Atirar com arma de fogo.
14.Modo de alguém se referir à própria pessoa como matreiro; pessoa dada a gabolices; o papai; o cara; o experto.
15.Jovial; travesso; Atrevido.
16.Pés.
17.Nariz.
18.Combater; Lutar.
19.Cair seco; Desmaiar.
20.Evadir-se, fugir
21.Tomar o ônibus; Embarcar num veículo de transporte coletivo.
22.Ir até o final da linha (do ônibus).
23.Observar; iterar-se da situação.
24.Observar; Examinar minuciosamente.
25.Cabana; Casebre; Choupana.
26.Puxar a cadeira.
27.Assentar-se.
28.O Garçom.
29.Macarrão Espaguete ao molho sugo.
30.Cachaça; Aguardente.
31.Cerveja escura; Maltzbier.
32.Alimento; Comida; Refeição.
33.No contexto; No momento de pagar.
34.Estar sem dinheiro; Estar sem recursos para saldar dívida cometida.
35.Deixar no fiado; Pendurar a dívida; Venda a crédito por quem tem fé e confiança que futuramente será pago.
36.Diz-se da autoridade judicial a quem se encaminhou carta rogatória; Pedido; Solicitação.
37.Pessoa imprópria; Inadequado; Desajeitado.
38.Malandro; Mal pagador; Desonesto.
39.Marca antiga de um canivete alemão.
40.Tingir de sangue.
41.Fugir; Evadir-se.
42.Diz-se de, ou pessoas intimamente unidas por inclinação ou temperamento. No contexto policial designa-se como cosme-e-damião àqueles que fazem a ronda juntos.

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