Apelido:

Senha:


Esqueci minha senha







Airo Zamoner






Paixão covarde

Revirava o copo entre os dedos. Líquido balançando e rebrilhando luzes do cair da tarde no calçadão da Boca Maldita. Olhava o bonde no outro lado, temperado de cartazes. Surgia o bonde velho, batendo sino, gente pendurada, o motorneiro alavancando trilhos. Pressa esquecida na calmaria dos dias, velhos dias trocados por estes ali à sua frente, travestidos, coloridos, nervosos... E o copo revirando dedos.
O pensamento salpicado de história. Ele agarrado ao estribo e a imagem de Sarita bimbalhando sedas, pulseiras e sorrisos de sedução incontrolável.
Atravessava a cidade em busca das tentações avassaladoras, só para sonhar com Sarita mais um dia, mais uma noite. E o copo revirando entre os dedos...
Coragem não tinha de aproximar-se garboso, dizer palavras mágicas tiradas do almanaque para vê-la sorrir aprovação e paixão. Saírem abraçados para o conluio preliminar dos gozos eternos. Mas, o bonde não era o velho, era o bondinho amuseusado de modernidades que enferrujava aquele pedaço pífio de trilho falso. Cheio de mães e pimpolhos, tintas, papéis e rabiscos de crianças esquecidas. E o copo?
O copo motorizava os pensamentos num ziguezague de frustrações geriátricas enchendo-se de digitais borradas, identidades dispersadas ao longo de buscas abortadas.
Ela aparece de costas, embevecida com a vitrine de badulaques. Costas torneadas com sublime arte, pescoço oferecendo penugem libidinosa e movimentos de ancas para cá, para lá, coreografados por bruxas do vale das exterminadoras de fidelidades eternas.
Só podia ser Sarita! Aquela escultura torneada debaixo do vestido obscenamente transparente. Fixou esforços no reflexo do vidro, tentando ver o rosto e nele o sorriso pleno de desgraças tentadoras. A vitrine subitamente vazia e o copo revirando melado, opaco em suas mãos salpicadas de borrões tatuados lentamente ao longo dos sonhos.
O sino do motorneiro insiste na partida. Acorda-o para dentro do antes. Tira-o do agora. Bota-o no bonde que desliza em direção a Sarita. Desce na lama dos confins como último passageiro da noite inventada. Caminha e caminha embevecido com seus delírios. Decide como homem absoluto que baterá à porta e vestido da coragem dos brutos, dirá os poemas apaixonados que decorou exaustivamente nos porões de seus planos. E dizendo-os, fará Sarita apaixonada, perdida em seus esconderijos.
As mãos congelam no calor da luz mortiça do poste único de fim da linha. O corpo recusa movimento. A janela abre cortinas e o rosto delicado, malicioso, irresistível de Sarita desgarra o covarde. Ele disfarça, foge.
O copo, ora o copo! Ainda se revira nos dedos, num rodopio reminiscente e o bonde é na verdade aquele bondinho chumbado no hoje, sem movimento, sem motorneiro, sem sino, sem Sarita.
Uma palavra! Só uma palavra poderia ter dito, mas não! Nem mesmo esboçou aquele sorriso de cinema que treinou nos espelhos manchados da pensão.
As mãos pressionam o copo com a força do arrependimento a ponto de provocar a explosão dos tempos. Desistem. Afrouxam-se. Relaxam no conformismo dos fracos.
O copo desliza vagarosamente. Dedos riscando gorduras. Solta-se no ar do presente, estilhaça-se na calçada, espalha-se pelo passado remoto em conchavo com o líquido traiçoeiro. O povaréu corre assustado, envolve-o na roda humana. Ele sussurra por Sarita agarrando a mão do paramédico.

Tempo de carregamento:0,04