thelma b oliveira






DO PARAÍSO PERDIDO À ROSA INEXISTENTE


 
O ser humano tem direito a um jardim de delícias temporário: nove meses de vida intrauterina, quando nada falta ao embrião/feto. Alimento, calor, conforto físico constantes e nenhuma carência. Estado de plena felicidade, sem fome, sem dor, sem medo do futuro. A díade mãe-bebê convive em harmonia perfeita, mutuamente enlevados como se fossem uma única pessoa. O reizinho dentro da barriga vive em bem-estar absoluto, grau zero de preocupação. Até que acontece o nascimento e o hóspede é despejado através de um estreito canal. Daí tem que se virar para obter oxigênio, nutrição e calor. O bebê humano ainda se considera parte da mãe até pelo sexto/oitavo mês, quando começa a inquietar-se com um sentimento novo: solidão e iminência de abandono.
 
Tem filho que passa a vida tentando reviver o tal jardim: se não lhe veio da mãe, deve estar com “alguém”. Em família, a decepção entre os concorrentes ao jardim gera desconforto e ressentimento. Irmãos se sentem logrados e ficam de cara feia e tromba: se eu não tenho o jardim é porque algum de vocês ficou com ele! Nos anos subsequentes - e até morrer - sua vida se baseará numa promessa jamais feita, mas presumida: um jardim de rosas perfeitas. E tem mãe que cai na cilada de achar que prometeu - sim - o tal jardim e as tais rosas. Detalhe: ela não os possui nem para si mesma. Tudo que podia dar, ela já deu. Mas, em função da “promessa”, ela será cobrada pelos séculos dos séculos e arcará com a culpa eterna de não ser dona do jardim nem das rosas.
 
Para o psicanalista Davy Bogomoletz, “A mãe não exatamente ‘promete’ o jardim de rosas. Ela faz o possível para dá-lo - até que, lá pelas tantas, bem antes do oitavo mês, ela começa a explicar para o bebê por que o jardim de rosas não funciona mais tão bem quanto ‘antigamente’. Essa mudança significa: O mundo real não é um bercinho de recém-nascido. Os jardins de rosas existem, mas é preciso plantá-los, adubá-los, cuidá-los, e aí, depois de muitos espinhos, até que surgem algumas rosas - de vez em quando. Essa explicação, que começou cedo e foi se tornando cada vez mais explícita com o tempo, indica o caminho para o mundo do trabalho, do amor que não funciona mais só no sentido do ‘você me ama’, mas de tudo aquilo que é preciso FAZER para que as rosas brotem por entre os espinhos.”
 
Sem isso, é verdade: o bebê nunca cresce, e fica para o resto da vida cobrando a promessa original que a mãe esqueceu de explicar melhor. - Mãe, hoje é seu dia. Aceite esta rosa para que você se lembre, pela vida toda, de que me prometeu um jardim de douradas e perenes rosas. Esperei e esperarei por elas, custe o que custar. Me diga: Onde estão as minhas rosas? [Atenção para o refrão: - Mãe, não alimentarás ilusões nem expectativas irreais!].
 
A construção do jardim e a colheita das rosas não dependem apenas de você, mãe. Não existem rosas automáticas, rosas de bandeja. Desça do pedestal de rainha e venha para a planície da realidade. Colha a rosa possível, leve-a ao sol para pegar uma cor, plante-a juntamente com o filho e deixe que ele faça o papel de jardineiro, usando as mãos e as próprias lágrimas, se necessário.

É a vez de ele cuidar do terreno, adubá-lo, limpar as pragas. E esperar. Com um pouco de sorte, o pai entrará em cena, com suas mãos experientes e carinhosas. Enfim, estarão prontos para rosas bilaterais, rosas reais, rosas banais, rosas extraordinárias, rosas de alegria, rosas de parabéns, rosas de consolação. As esplendorosas rosas que brotam de corações apaziguados.
 

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