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Hideraldo Montenegro






FÁBULA SENIL




FÁBULA SENIL: A MATURIDADE DO ENVELHECIMENTO


Era um sujeito orgulhoso. Nariz arrebitado. Nunca olhava para os lados ou para baixo. Não falava com qualquer um. Não era qualquer um.

Sujeito privilegiado. Nasceu rico. Tinha tudo o que queria: carros, roupas de marcas e as mais lindas mulheres aos seus pés.

Mas, a vida, sábia, tenta nos ensinar de qualquer jeito.

Primeiro, teve que amputar os pés. Pensou: e daí? Para aonde preciso ir?

Depois foram amputadas as suas mãos. Pensou: Sim, e daí? Para quem preciso acenar?

Depois, sucessivamente, foram amputados seus braços, pernas, tronco, olhos, boca, ouvidos, dentes e cabelos. No fim só sobrou o nariz arrebitado.

Insistente a vida lhe amputou a fortuna, o nome e o paradeiro.

Mas, aí já não pensava mais nada e seu nariz foi finalmente comido pelos vermes.

Em seu velório, nos discursos, foram realçadas as virtudes do seu nariz, a sua altivez.

Parece que apenas o verme aprendeu uma lição: quem tem fome precisa comer. Comeu.

E, a vida vencida morre com o sujeito, mas insiste em viver no verme, um nariz sem pés rastejando pela vida, sem orgulho, com o único propósito de se erguer, se tornar homem.

Hideraldo Montenegro

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