Ana Flores






O TRATO

Ainda não eram nove da manhã e Edgar já estava à espera, na sua sala, quando Danilo entrou. Pediu-lhe que fechasse a porta, e ele mesmo já havia baixado as persianas que davam para a sala dos redatores, numa tentativa de evitar que aquela conversa pudesse ser decifrada pela leitura de lábios. Mesmo assim, sentou-se de frente para Danilo, dando as costas para as persianas.

- Bom, você sabe por que eu te chamei aqui.
- Claro. Quer dizer, acho que sim. É por causa do filme.
- Certo. Você está com ele aí?
- Claro. Não é sobre isso que vamos conversar?
- É, mas por favor, pare de responder “claro” a tudo o que eu perguntar.
- Claro. Não me custa nada.
- Mas é pra fazer um esforço, Danilo. É muito chato você ficar respondendo “claro” a toda hora.
- Não tem problema.
- Bom, então este aí na sua mão é o tal filme do cinegrafista anônimo.
- É. O que eu encontrei dentro da câmera nos escombros do prédio.
- O mesmo que você me mostrou ontem.
- Claro, e já vi umas trinta vezes. Vem cá, Edgar, nós estamos falando do mesmo assunto?
- Por que essa pergunta agora?
- Você vê o filme, me pede pra vir aqui, e agora vem com esse rodeio todo...
- Não tem rodeio nenhum.
- O que é, então?
- É só uma questão de segurança.
- Olha, desde que eu entrei aqui, eu estou sentindo alguma coisa esquisita que ainda não consegui decifrar. Porta trancada, persiana arriada e esse olhar de aloprado no seu rosto. E agora vem falar em segurança.
- Está bem, você não podia, mesmo, entender.
- Então me explica.
- Escuta com atenção. – Edgar ajeitou-se na cadeira como se quisesse se certificar de que Danilo não perderia nem uma sílaba do que ia dizer. E baixou a voz. - Danilo, neste exato momento você pode estar dando o grande passo da sua vida.
- Estou ouvindo.
- E quer saber por quê?
- Tem a ver com o filme?
- Tem tudo a ver com o filme. Você está prestes a entrar para a história do jornalismo como o autor dessas imagens que estão aí.
- Como é que é?...
- Isso mesmo que você ouviu. Vai ser o grande salto na sua carreira.
- Peraí. Que história é essa?
- Calma. Quer um café, uma água? Temos tempo.
- Não. Só quero entender o que você está dizendo.
- Bom, eu estou dizendo que se você quiser, muda a história da sua vida agora mesmo. – Os olhos de Edgar estavam fixos no rosto de Danilo, observando cada milímetro dos movimentos faciais do colega.
- Por acaso eu ouvi você dizer que eu podia ser o autor dessas imagens?
- Ouviu. Foi o que eu disse.
- Então deixa eu ver se entendi bem. Eu estou no prédio quando começa o incêndio, e pouco tempo depois, já no meio da confusão e dos gritos, vejo uma câmera caída no chão, sem ninguém por perto.
- Isso. Você, cinegrafista sem câmera, está no prédio porque Deus te mandou ir ao dentista naquele dia e naquela hora. Recolhe a câmera, procura o dono, não encontra e traz pro nosso estúdio.
- E o combinado é que hoje, quando o noticiário for pro ar, vamos homenagear o autor anônimo dessas imagens.
- Que Deus o tenha.
- E o que isso tem a ver com os seus planos de agora?
- Danilinho, meu amigo, acorda. Você já conseguiu o apartamento que você e a Sílvia querem comprar?
- Ainda não.
- E por que não?
- Vai direto ao ponto, Edgar. Tem alguma coisa fedendo por aqui.
- Eu te digo por quê. Porque teu salário é uma merda, os serviços de rua que você tem feito são medíocres e, nesse andar da carruagem, sabe quando vocês vão comprar apartamento? Preciso dizer? Hein?
- E você, movido por sua extrema bondade, se lembra de me fazer passar pelo autor das imagens para eu ficar rico e famoso, e finalmente poder comprar a porra do apartamento.
- Bingo!
- Por pura solidariedade a um amigo fodido.
- Engano seu. De São Francisco eu não tenho nada. Acompanhe meu raciocínio: não sou o seu chefe? Não lembra que fui eu que te mandei levar a câmera naquele dia do dentista, como se já pressentisse que alguma coisa boa fosse acontecer?
- A coisa boa que você diz é o incêndio com 14 mortos?
- Então veja por outro ângulo. Nós tiramos a sorte grande, Danilo. Eu, como seu chefe, te dando o conselho certo, e você seguindo o conselho. Conseguimos o grande furo para o nosso noticiário.
- É isso que você planeja dizer no jornal de hoje?
- Não, Danilo. É isso o que eu vou dizer. E você, como um excelente cinegrafista que é, fez o que eu sugeri, filmou tudo o que estava acontecendo e captou imagens que nenhum outro conseguiu, simplesmente porque nenhum outro repórter tinha ido ao dentista no lugar certo e na hora certa, como você.
- Você sabe bem o que está me pedindo?
- E se eu disser que não estou exatamente pedindo?
- Pô, Edgar, pega leve. Olha bem o que você está querendo.
- Pensei que nós estivéssemos querendo.

Edgar se levantou, tomou dois goles grandes de café como se fosse água e voltou para sua cadeira.

- Danilo, antes que seus escrupulozinhos tomem conta de sua razão, me diga só uma coisa: o que nós temos a perder com isso? Você conhece o cinegrafista que perdeu a câmera?
- Provavelmente é um dos mortos no incêndio.
- Então. – Edgar diminuiu o volume da voz, suavizando o tom como se tentasse convencer uma criança a dormir depois de um pesadelo. - Morreu... Acabou... Não é simples? E a câmera que você encontrou já foi destruída, não foi?
- Foi.
- E fita não tem nome nem assinatura, certo?
- Fita, não, mas imagens, sim.
- Pelo amor de Deus, Danilo, – o volume aumentava novamente - no meio do fogo e da fumaça, ninguém pensa em ângulos e luz. Quer é registrar o que está vendo antes de sair correndo.
- Nunca vi nada igual. – Danilo falava como se Edgar não estivesse ali. – E o pior é que não é ficção.
- Graças ao seu santo não é ficção. É a realidade nuinha que 20 milhões de espectadores do nosso jornal vão adorar ver. E nós é que vamos dar esse presente a eles.
- Ele gravou até a mulher subindo na janela pra saltar.
- E saltando.
- Vão chamar de reportagem oportunista, antiética, o diabo a quatro.
- Ou vão chamar de profissionalismo: o cinegrafista que arrisca a própria vida em nome da melhor notícia.
- Você sabe que atualmente já não é tanto assim. A patrulha da ética grita muito mais alto.
- Ou seja: uma reportagem polêmica, assunto de entrevistas, análises sociológicas, artigos, debates e mesas redondas em faculdades de comunicação. Enfim, a glória.
- Você já liberou as chamadas para o jornal?
- Já, mas estou esperando o seu sim para anunciar o autor. E tem que ser logo, para fazermos uma bela entrada com a sua imagem, com uma câmera nas mãos, evidentemente, e bater todos os índices de audiência do horário.
- E quanto eu levo pra dar o sim?
- O quê?...
- Pra aceitar a mutreta...
- Mais do que você vai levar com a fama e o prestígio, Danilo? Você está querendo que eu te pague pra aceitar o trato???
- Por que não? A fama e o prestígio são hipóteses. O trato, aqui, é real.
- Se eu estalar o dedo, consigo pelo menos seis cinegrafistas que fariam isso de graça.
- Então chama. Mas não esqueça que eu sei da história verdadeira e ela pode vir à tona a qualquer momento. Posso até mostrar a câmera que eu encontrei e procurar pela família do dono.
- Você não disse que destruiu a câmera?
- Disse. Mas estou desdizendo.

Edgar se levantou sem tirar os olhos de Danilo que, calmamente, continuava sentado e encarava o colega. Edgar olhou-o de cima e finalmente conseguiu falar.

- Inacreditável.
- O quê que é inacreditável?
- O que eu estou vendo na minha frente. O incorruptível Danilo Seabra, cinegrafista de merda, um belo de um chantagista.
- E você, Edgar, tão esperto, achou mesmo que eu ia passar o resto da minha vida ouvindo você me chamar de cinegrafista de merda? Que eu ia passar o resto da vida ajoelhado aos pés do gênio do jornalismo brasileiro?
- Está bem. Quanto você quer?
- Não é quanto. É o quê.
- Pode ser mais específico?
- Quero a direção de reportagens externas.
- Ahn?
- Isso mesmo que você ouviu.
- Você quer o lugar do Assis???
- Ele é que está no meu lugar. Não se esqueça nunca disso.
- Você não está se comparando a ele...
- E por que não? Não sou o cinegrafista que fez a melhor cobertura dos bastidores de um incêndio, arriscando a vida para cumprir o dever? Meu trabalho não vai ser apresentado ao país hoje à noite? Realidade nuinha, lembra? Suas palavras. A não ser que você já tenha desistido do nosso grande furo...

Edgar abriu duas paletas da persiana, olhando por entre elas para a sala dos redatores. Ficou assim por alguns instantes, fechou-as e voltou-se para Danilo. Seu rosto, assustadoramente pálido, já não tinha qualquer traço da animação de minutos antes.

- Está bem. Você fica com as reportagens externas.
- Ótimo. Avise aos colegas. E ao Assis, claro. Assim posso ter várias testemunhas. E nem pense em mudar de idéia.
- Vou avisar agora. Eles ainda não sabem sobre o filme.
- Ótimo.

Danilo levantou-se e dirigiu-se para a porta. Parou antes de sair:
- Ah, outra coisa.
- O que é?
- Pára com essa bobagem de me proibir de dizer “claro”. É um velho hábito do qual não tenho a menor intenção de abrir mão. Fui claro?
- Vai à merda, Danilo.
- Não, Edgar. Agora é que eu estou saindo dela. E obrigado pela força. Amanhã recomeço a procurar apartamento.




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Outubro/2002

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