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Quem te viu quem te vê, hein Natasha?

Quem te viu quem te vê, hein Natasha?
Natasha é uma menina interiorana, de família “nobre” de ascendência afro-indio-portuguesa, que mora no centro da cidade com seus pais e no entorno, seus parentes espalhados por ali. Fez sete anos em dezembro e agora está matriculada no primeiro ano do Grupo Escolar Coronel Nogual Viera Ofídio. Feliz, como todos os seus primos, primas e a garotada, todos conhecidos estão juntos na porta da escola. Durante seus primeiros anos de vida sempre ouviu considerações nada agradáveis em relação a essa gente de cor. Desnecessário listar aqui os qualitativos desmerecedores atribuídos aos negros, outrora escravos, vindos do outro lado do atlântico. Para surpresa de Natasha e as demais meninas, sua mãe e outras mães, aparece para o primeiro dia de aula uma menina negra Nadina e seu irmão Nardo também. Não poderiam deixar de comentar o escândalo que significava aquilo. Dentre elas, as mães chegaram a comentar se não haveria escola para essa gente fora dali para terem sidos matriculados naquele grupo escolar. Decorrido o tempo curto da entrega dos filhos, as mães voltam rumorosas do fato de verem negros entrarem para estudar com seus filhos.
Toca o sino. Blém,Blém, Blém, Blém,Blém, Blém. A garotada toda corre e se reúne no pátio, para formar as filas. Todos perdidos numa algazarra só, aguardam impacientemente uma funcionária do grupo que vem da secretaria para organizar as filas por ordem de chamada.  Um silvo de um apito- e que apito hein seu Alfredo?,   indica que era preciso silêncio e a meninada embora agitada obedece. Organizada as filas, os meninos na frente, as meninas atrás, filas duplas e de mãos dadas, cada turma entregue para suas respectivas professoras. Os irmãos negros, Nadina e Nardo ficaram de fora. Ainda não haviam sido chamados, e permaneciam encostados na parede, aguardando serem citados. Comunicado o fato à funcionária volta ela e os encaminha para a fila da professora Zélindia. Nardo, na fila sozinho, sem par entra fila e aguarda ordem da professora. Nadina, é encaminhada e vai para o final da fila a fazer par com Natasha. Natasha empalideceu-se. Uma negra do seu lado? Explodiu-se num choro ensurdecedor, desesperador e apavorada agitava-se gritando vertiginosamente. As professoras presentes ali, juntamente a outros funcionários não sabiam o que fazer. A menina estava transtornada e nada a fazia calar-se. Tiraram-na da fila e autorizaram a professora a subir com a turma. Chamaram a mãe de Natasha de volta à escola, explicaram o incidente e Natasha, volta para casa transtornada e em pânico. Nadina embora se perturbasse com o alarido em sua proximidade jamais saberia distinguir o que se passava ali. Em sã consciência jamais poderia vir saber que ela era a causa de tanto alarido e corre-corre no primeiro dia de aula. Mas como se sabe a consciência dá fruto tardio. Nadina saberia sim que aquilo ocorreu ao seu lado porque Natasha assustada, amedrontada anos a fio contra gente de cor, não admitia uma negra do seu lado e jamais daria a mão para ela. O estrago estava feito. Nunca mais Nadina, seria uma criança normal na escola. Os resultados até hoje falam por si só. Nadina e Natasha hoje tem cinqüenta anos. Quarenta e três anos se passaram deste incidente. Nadina enfrentou muitos outros dissabores raciais ao longo de sua carreira escolar. Hoje não é como ontem, mas não mudou muito. Natasha talvez nem se lembre disso, mas o tempo passou e hoje Natasha é outra. O arsenal racista depositados na consciência de Natasha desfez-se e uma paixão enlouquecedora levou-a aos braços de um negro, popularmente conhecido na cidade de “fumaci”. Como só podia ser, Natasha separa-se do marido, requer seus direitos constitucionais e assume o comercio sozinha, agora divorciada. Fumaci é bem mais novo que Natasha um dez anos, mas é a sua grande paixão. Rapaz solteiro, não dado ao trabalho, portador de alguns vícios passa a ser sustentado por Natasha. Um escândalo, poderia alguém dizer. Nada disso, absolutamente normal. Natasha vai buscá-lo em sua residência, ou melhor, na casa de seus pais. Tarde da noite volta ela, devolvendo-o no mesmo local. No afã de salvá-lo ou arrumar-lhe uma atividade, investe numa oficina. Fumaci, não dá valor para aquilo. Nada o demove de sua posição de desocupado ou, de homem pouco dado ao trabalho. Ela não desiste. Faz por onde de levantá-lo. Mas qual o que, Fumaci nada quer. Fecha a oficina. Ele volta para a rua desocupado. Mas não perde a panca e a “namorada”. Ele no vício e no ócio. Ela, branca, comerciante, apaixonada e sustenteando-o. Quem te viu quem te vê, hein Natasha? Nadina, ainda hoje luta para inserir-se na vida cotidiana. Não desiste de tentar a sorte. Estuda, trabalha e quer um lugar ao sol. Enquanto isso Natasha e Fumaci, seguem a trilha da vida.

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