Antonio Cavalcante da Costa Neto






Carta para Paulino


 
 
          Carta para Paulino *
 
      No tempo em que se escreviam cartas, elas serviam tanto para dar e receber notícias, quanto para ensinar e persuadir. As cartas eram tão importantes que engendraram um tipo específico de literatura, o gênero epistolar, se bem que para alguns uma coisa seja carta, outra, epístola. Esta, voltada para o grande público, seria arte literária, enquanto aquela, correspondência entre um remetente e um destinatário determinados. Não obstante, existem cartas que interessam a muito mais pessoas que o seu destinatário original. As cartas de Paulo não são menos dirigidas a qualquer um de nós do que aos Romanos, Gálatas e Efésios.
    Sêneca, a exemplo de Paulo, foi um mestre na epistolografia. Contemporâneos um do outro e contemporâneos de Jesus, Sêneca e Paulo aparecem como autores de catorze cartas trocadas entre si: oito de Sêneca para Paulo e seis de Paulo para Sêneca. Tais cartas, porém, são tidas como apócrifas. Teriam sido escritas com o propósito de valorização do cristianismo no século primeiro, pois naquela época Sêneca já era uma celebridade. Mesmo assim, não deixam de apontar para uma influência mútua entre a fé cristã e o estoicismo, filosofia encarnada por Sêneca e exposta em seus escritos, entre os quais está a carta dirigida a Paulino, sobre a brevidade da vida.
       O Paulino da carta é uma incógnita. Sabe-se apenas que era encarregado do abastecimento da cidade, e cogita-se que poderia se tratar de Pompeius Paulinus, sogro de Sêneca. Já o conteúdo do escrito é relevante não só para Paulino, mas para o auditório universal. Sobre a carta, Diderot chegou a declarar: “Este tratado é lindo: recomendo sua leitura a todos os homens.”[1] Na verdade, cada uma de suas páginas está repleta de lições de vida.
           É comum as pessoas lastimarem a brevidade da vida, queixa que não é de hoje. Hipócrates, em seus aforismos, resumia: a vida é curta, a arte é longa. Para Sêneca, ao contrário, a vida “se bem empregada, é suficientemente longa e nos foi dada com muita generosidade para a realização de importantes tarefas”  (2006, p. 26).  Mas os que dissipam o tempo em luxo e indiferença e não realizam nada de valor, estes sim, desperdiçam a existência. Quantos homens e mulheres agem como se fossem viver para sempre, e tantos outros arranjam ocupações demais, não se dando tempo para aprender a viver. Grande parte de seus anos é apenas tempo e não vida. Por isso, quando chegam ao final da jornada, “morrem amedrontados, como se não estivessem deixando a vida, mas ela estivesse sendo arrancada deles” (SÊNECA: 2006, p. 52). Para essas pessoas valem as palavras de Sêneca a Paulino: “deve-se aprender a viver por toda a vida e, por mais que te admires, durante toda a vida se deve aprender a morrer” (Idem, P. 41).
          Ocorre que aprender a viver e a morrer parece não ser tão fácil para grande parte dos seres humanos, o que para alguns iluminados é motivo de perplexidade. Conta-se que perguntaram ao Dalai Lama o que mais o surpreendia na humanidade, ao que ele respondeu:
 
     Os homens... porque perdem a saúde para juntar  dinheiro, depois perdem dinheiro para recuperar a saúde. E por pensarem ansiosamente no futuro, esquecem do presente de tal forma que acabam por não ver nem o presente nem o futuro. E vivem como se nunca fossem morrer... e morrem como se nunca tivessem vivido.[2]
 
       Nos dias de hoje, em que não se tem tempo para escrever cartas, e talvez por isso os Correios tiveram que virar bancos; dias em que, diferente do que se passa na música[3] consagrada por Isaurinha Garcia, quase ninguém espera o carteiro gritar seu nome com uma carta na mão, pois o que ele traz é papel de conta para pagar, e não um sobrescrito contendo uma mensagem; nestes dias, mais do que nunca, é tempo de refletir sobre a carta de Sêneca, se não quisermos continuar lastimando a brevidade da vida. Para todos nós ainda valem as palavras dirigidas a Paulino: “Muito breve e agitada é a vida daqueles que esquecem o passado, negligenciam o presente e temem o futuro. Quando chegam ao fim, os coitados entendem, muito tarde, que estivaram ocupados fazendo nada” (SÊNECA: 2006, p. 70).

* Texto extraído do livro O sentido da vida (Publit)
Blog: mitosemetáforas.blogspot.com
                                                                                 
 
 
 
 
 
 

 


[1] Frase transcrita na capa do livro Sobre a brevidade da vida, de Sêneca, constante das referências bibliográficas.
[2] Cf. site o pensador: www.pensador.infor/autor/Dalai-Lama, acesso dem 29.03.2010.
[3] Música “mensagem” (1946), de autoria dos compositores Aldo Cabral e Cícero Nunes.

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