MARCOS DAVID BITTENCOURT LEAL






A Virgem Doninha


Foi nos tempos idos de 1759 os Portugueses imperavam nesta nova terra descoberta, e para cá migraram famílias de todo os cantos do mundo, aventureiros, salafrários e todas as espécies de trambiqueiros e oportunistas.
Deixe lá que numa destas levas, acomoda-se no interior do nosso sertão nordestino uma família de aparência italiana, pois jamais foram reveladas suas origens.
Viviam na labuta do campo, criavam algumas vacas, cultivavam  hortaliças, milho, feijão e outras leguminosas, tudo em pequena escala, só para atender as necessidades domesticas e para a prática do escambo nas feiras semanais da vila.
A família era composta por um pequeno grupo, o patriarca, sua esposa, dois rapazes e uma suposta donzela.
Donzela esta que desde sua chegada mostrou suas habilidades em ganhar dinheiro principalmente com o mundo masculino da região.
-          Doninha, diga-me o que fazes tu para angariar tanto dinheiro, em tão pouco tempo?
Intrigado, indaga seu pai, sentado na mesa para o jantar.
-          Senhor meu pai, num fim de mundo deste, com tantos caipiras não me é difícil.
Responde cinicamente olhando-o por baixo dos olhos.
-          Peço-te Doninha, resguarda-te, pois logo terá um casamento de princesa.
-          Como sabes, Senhor meu pai!?
-          Ora, corre em toda a vila que virá á residir aqui um regente da côrte.
-          Regente?!...
Interroga a moça surpresa.
-          Certamente, minha filha, e saibas tu, que além de milionário é solteiro.
 
 
Passaram-se algumas semanas, e chega a imensa caravana na vila, seguem para o único palácio do local, construído para receber o rei em estadia na província há alguns anos atrás. Devido ao tamanho da comitiva que acompanhava o Regente, presume-se a importância dele no reinado Português.
Os dias passaram normalmente sem nenhuma novidade.
O pai de Doninha em suas saídas diárias movimentava-se para vender seu produto da melhor maneira que lhe fosse possível.
-          Doninha!
-          Pois não Senhor meu pai?
-          Prepara-te com teu melhor vestido, arruma-te os cabelos, que o Regente nos espera amanhã para o chá da tarde.
Chegaram no horário marcado, acomodaram-se numa sala totalmente decorada no estilo português. 
 
E no decorrer de uma hora:
-                     Senhoras e Senhores levantem-se para receber o Regente da coroa Portuguesa Dom Emanuel Fernandez.
Saindo duma imensa porta que se abriu lentamente, um homem de aparência atarracada, rosto largo, baixo e gordo, envolto num manto sordidamente decorado em ouro e pedras preciosas.
-          Por favor, acomodem-se.
Murmurou cordialmente, sentando-se pesadamente em seu  trono.
-          Então es a bela rapariga, que tu tens a oferecer-me  em noivado senhor?
-          Sim digníssimo, sim.
Respondeu o pai da moça atrapalhado.
-          Vamos Doninha, levanta-te para o Regente apreciar-te.
A moça levantou-se acanhada, aproximou-se e cumprimentou levantando a saia do vestido levemente, curvando-se numa reverência.
Dom Emanuel observou-a longamente.
-          O que achas, digníssimo?
Sentado, não foi necessário que respondesse seu semblante já o denunciava, pois a beleza da jovem o impressionou , conquistando-o definitivamente.
A moça continuava de pé a sua frente, e subitamente batendo levemente na palma da mão o magnata fez apresentar-se um súdito, que lhe conversou no ouvido retirando-se imediatamente.
-          Por favor, aguarde um minuto.
Falou para a moça tomando-lhes ás mãos acariciando-as.
Retornando o súdito, entrega-lhe uma caixa finamente decorada em ouro e desaparecendo-se em seguida. Retirando um lindo anel  de brilhante, coloca delicadamente no dedo da suposta donzela, firmando assim um casamento futuro.
Comemoraram, tomando chá, vinho e comendo à vontade, posteriormente despedindo-se de suas visitas alegando cansaço.
            Passaram-se os dias...
-          Filha, temos tudo que queremos, sabes tu que teu casório estás marcado, e o que tanto te aborreces?
Pergunta-lhe o pai, acompanhando-a num passeio de fim de tarde nos jardins da mansão do seu noivo..
-          Senhor meu pai, estou desesperada, pois não sei o que dizer-te.
Pararam casualmente sobre uma ponte, ficou ali observando a água fluir lentamente em pequenas ondas e seguindo seu curso rio abaixo.
-          Senhor meu pai, não posso casar-me com Dom Emanuel!
-          Doninha minha filha, nem pense nisso, não podemos perder esta oportunidade,
não tenho mais idade para a labuta do campo, bem sabes tu.
            E atirando algumas pétalas de flores na água.
-          Sei Senhor meu Pai, sei muito bem disso, só que não sou mais virgem, e bem sabes o senhor a pena que pagarei se ele  descobrir.
            Falou, desmanchando-se em prantos. Boquiaberto seu genitor a observava surpreso.
-          Mais, mais... Não pode ser quem fizeste isso contigo, mais quem foi o desgraçado?
Ainda chorando:
-          Senhor meu Pai, como achas que conseguia dinheiro, para  não passarmos fome, como achas meu pai??...
Ele abraçou-a, acalmando-a e ao mesmo tempo maquinando uma solução.
-          Não te desespera, haveremos de dar um jeito.
 
 
Passaram-se alguns meses e finalmente a hora do matrimônio havia  chegado.
A mansão estava sendo decorada a rigor, e  em passeio de inspeção aos preparativos , Dom Emanuel caminhava de braços dado á sua noiva, acompanhada dos pais e um grupo de serviçais em sua retaguarda , repentinamente induzida por orientação anterior de seu pai , ela para sobre a ponte e atira algo ao rio  e com o barulho do objeto tocando na água , começou a chorar e gritar histericamente.
-     Oh meu Deus! Por misericórdia, isso não pode acontecer!...
Gritava desesperadamente com as mãos comprimindo o ventre.
Seus pais aproximam-se encenando surpresa.
-     O que acontecer-te querida filha?
-      Diga o que tens!
Gesticulando a genitôra abraça a rapariga transmitindo proteção materna.
O noivo, confuso, precipita-se para sua amada.
-       O que te ocorres? Diga-me querida!
Desvencilhando-se da sua mãe.
 -     Oh amado da minha vida, sinto que não será mais possível nosso entrelace matrimonial.     
Superficialmente comovida e chorosa abraça seu noivo.
Ansioso e desesperado Dom Emanuel não admite a hipótese;
-          Não, isso não pode acontecer, diga-me o que queres e dar-te-ei, diga-me? Amada minha, diga-me?
-          Nada vos quero além do vosso amor, e bem sabes tu.
Enxugando ás lágrimas continuou:
-          Porém não pode desposar-me, se acabo de perder o que há de mais puro que tenho a vos oferecer-te.
-          Mas, diga-me, diga-me o que tens de mais nobre que teu amor?
Ela demonstrando tristeza e com o olhar perdido, responde-lhe cabisbaixa.
-          A minha prova de pureza, a minha  verdadeira prova de amor por ti, minha “virgindade”.
Dom Manuel, leva as mãos aos lábios  horrorizado.
-          O Jesus! Então foi o que caiu ás águas?
A falsa donzela balança a cabeça afirmativamente, e precipita-se ao corrimão da ponte.
Seu noivo, sem perder tempo desfaz da  manta das botas  e atira-se ao rio.
Mergulha desesperadamente, descendo em várias tentativas, nada encontra, já exausto chega á tona, olha para todos  sobre a ponte.
-          Doninha! Doninha! .
-          Encontras-te.
Indaga aflita a moça em cima da ponte.
-          Doninha! Vós ainda estais com a vulva?
Todos Intrigado entreolharam-se sem nada entender.
-          Sim, senhor meu noivo, ainda encontra-se no seu devido lugar.
De dentro do rio, gritou demonstrando certo alivio.
  -     Então ás favas a virgindade.            


 

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