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altair almeida






Último suspiro

 Ficou ali deitada, a noite inteira, gemendo e chorando, bem baixinho, para não incomodar ninguém, ninguém, pois não havia ninguém mesmo para ser incomodado.
-- Como dói, vou morrer aqui sózinha...-- Urinou na roupa, seu cheiro de urina a incomodava, ela que era tão asseada -- merda! -- Disparou com sua voz bem forte cortando o silencio da madrugada quase encontrando o amanhecer.
Seu cheiro de suor misturou com a urina, e os engulhos ganharam força, ela que já vomitara por 3 vezes pela casa, já não sabia oque estava acontecendo. O cheiro de vomito, misturado ao cheiro de urina que por sua vez misturado ao seu cheiro de suor era sufocante. 
-- Adauto, aquele ingrato, nunca mais veio me ver -- enxugou com a manga da blusa os olhos que começaram a marejar, continuava ali deitada no chão, descabelada, olhando o teto de sua casa, com medo de fazer o menor movimento.
-- Tino, era engraçado, parecia que era o único que não era da familia, não existe negro branco de olho azul -- passou a mão nos cabelos, tentando ajeita-los, começou a urinar alí mesmo, não conseguia mover um músculo. As mãos e os braços estavam bem, mas as pernas...
-- Acho que morro aqui hoje, Magda é uma bruxa, uma ingrata, como Jeronimo pode com ela? Rapaz tão bom,trabalhador...-- A campainha tocou -- Dona Teresa? -- Uma voz forte, grossa, parecendo de homem, veio da porta.
Ficou silenciosa -- Hoje não quero saber de ninguém -- tocou mais uma vez a campainha, e mais uma, e mais uma....Começou a arrastar-se vagarosamente, a madrugada estava fria, o ruído de aves que vinha do lado de fora, parecia de quero-queros -- Vá saber...--tossiu um pouco, olhou para os seus setenta anos e ficou alí perecendo frente a uma descoberta -- setenta anos? Mas me sinto tão jovem...
Arrastou-se pela sala, na verdade engatinhava, pois assim que desmaiara sem nenhuma explicação, quando abriu os olhos já não tinha força em suas pernas. 
-- Tino é um ingrato e o furo na parede que pedí a mais de um mes para colocar a mangueira? -- Foi engatinhando vagarosamente, a sala era pequena, uma típica sala de uma pequena casa de um bairro de subúrbio, dois sofas, uma grande televisão de plasma, fotos dos netos espalhadas por uma velha estante, uma minúscula sala de jantar, o telefone, alguns badulaques soltos na estante.
-- Ai, como dói, parou de mexer-se um pouco, arrastara-se por uns dois metros, passou rente a poça de vômito, a outra peça de vômito, o barulho na porta cessou -- Graças a Deus --
o cheiro de urina continuava forte, por sorte não olhou-se no enorme espelho  que ficava bem no meio entre sua sala de estar e sua sala de jantar. Ainda bem, que não se viu com o cabelo totalmente desgrenhado, os olhos em um meio termo entre esbugalhados e tristes, a cor branca, ou melhor, o branco sem cor dando o tom de sua face.
-- Marta, mora na praia, se não resmungasse tanto, se não fosse tão mau-humorada...preciso cortar as unhas, não me aguento com esse fedor todo, eu que sou tão asseada...
Roncos de moto e carros começaram a surgir vindos da rua que fazia fundos a sua casa, a sensação de impotencia era assustadora, 80 anos e longe de todos, sim, porque agora era um estorvo, já não andava tão rápido, já atrapalhava nos passeios, já recebia as visitas de obrigação, mas para asilo não iria -- Sempre fui dona do meu nariz, ninguém me tira de minha casa. 
Foi arrastando-se até a porta, ia agarrando o chão com as mãos, agarrando com toda a força e puxando, trombou com um banquinho, enroscou a blusa na mesa, mas queria chegar na porta, talvez alí fosse seu último suspiro, não queria apodrecer dentro de casa e ser achada uma semana depois, apodrecida e com o cheiro do podre incomodando os vizinhos.
-- Em Mato Grosso, no sítio, era bom de se viver, teve aquele dia que Saturnino, para provar que era homem enganchou a corda que segurava o touro no dedão da mão e disse que dalí touro não escapava, e lá se foi o touro correndo pelo pasto levando o dedão de Saturnino preso na ponta da corda. Saturnino nem teve tempo de chorar...-- Soltou um pequeno sorriso.
Parou um pouco no caminho, precisava respirar um pouco, as poucas forças que haviam sobrado, esvaíram-se. -- Saturnino, onde andará Saturnino, meu melhor irmão, o irmão que me amparou quando todos não me queriam, meu Saturnino.
Tocou a campainha mais uma vez, mais uma vez, repetiu-se mais umas duas ou tres vezes, mas ela decidiu que não iria falar nese momento com nnguem, na verdade já era uma eremita, mas agora era uma "eremita declarada", concluiu que melhor viver sozinha, que viver sozinha entre as pessoas.
A dor de cabeça voltou, seu cheiro de urina, misturado com vomito embrulhava novamente seu estomago, -- O que vai ser de mim? O que vai ser de mim? Velha e sozinha, sem amigos nessa cidade? 
Os pássaros da manhã começaram seus cantos fortes e animados, uns pendurados nos fios de luz, outros nos postes, outros nas árvores em frente a casa e ela alí jogada e suja  observando do canto onde se encontrava.
A porta estava próxima, distante estava seu filho, seus netos que via esporádicamente, seus irmãos, sua mãe.Tentou arrancar a blusa mas não conseguia, tentou então, esparramada ali no chão alcançar o telefone, mas também não conseguiu.
-- Ah se Zito estivesse aqui, Zito me amava, Zito me protegia -- sempre que lembrava de Zito sentia-se mais desemparada e isso ela não queria sentir agora, olhou para o outro lado da parede e lá estava a foto de Zito estampada na parede, com seu olhar sério e seu uniforme miltar.
-- Será que alcanço aquele copo com água alí em cima da mesa? -- O copo com água estava alí próximo a ela, a cerca de dois metros, a luz que vinha da janela parecia transpassá-lo e ela reiniciava o seu engatinhar, como um soldado rastejando silenciosamente no campo inimigo, mas sem a mesma força e determinação, ela reiniciava.
Os pássaros começaram a cantar mais forte ainda, a luz começou a invadir a sua sala pelas frestas das persianas...
-- Não estou sentindo as pernas, meu Deus, ajuda-me Deus. Tenho que ir ao banco, ir ao túmulo de Zito, socorro --Gritou com sua voz fraca, em falsete, pois não acreditava que alguem fosse ouvi-la.
Repassou tudo, o saldo no banco, sua senha, a saudade de seus filhos que nunca vinham vê-la, as viagens que nunca fez, a última pescaria ao lado de Zito, o coropo de Zito estendido e mau-cheiroso no caixão.
Sabia que estava sózinha, sabia que há muito tempo estava sózinha, mas nunca sentiu-se tão sózinha como nesse momento, as forças acabaram, não conseguiria chegar no copo com água, mas não iria voltar para trás, olhou para o relógio na parede, marcando pontualmente 6 da manhã. 
Decidiu-se então a acomodar-se melhor, pois percebeu que iria para o sono final, o sono em que poderia enfim descansar um pouco e em paz, enfiou a mão em sua boca, retirou a dentadura, sentiu um leve engulho novamente por todos os cheiros do ambiente e acomodou melhor sua cabeça. Enfim sentiu que ía descansar um pouco. 
 
Quando seus tres filhos conseguiram por a porta abaixo, lá estava ela deitada encolhida em um canto, o cheiro era insuportável, mas no meio daquele cheiro horrível, no meio daquela podridão, ela estava encolhida em um canto com um sorriso terno em seu rosto.
Agora não adianta dizer que a amavam, agora não adiantava dizer o quanto ela era importante, ela se foi, em uma noite fria, alí deitada em seu velho tapete de liquidação. 
 

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