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Tony Pent






O rato II round

O rato II  round
 
 
 
- Pega! Meus Deus! O rato voltou!
 O rugido que se ouviu  pouco mais das duas da madrugada, tremeu  o silêncio da casa em  que todos dormiam e brotou em tudo um arrepio de susto. Minha mulher apareceu no meio da sala em desabalada carreira e logo atrás dela, o mesmo vulto que me acompanhara durante as semanas. O rato estava de volta! Só que desta feita, bem maior e mais escuro.
- Viu ele?  - gritava minha esposa tentando frear a corrida, assim que me avistou estático no centro da sala. Nossos corpos se chocaram com tal violência, que fomos arremessados de encontro à parede.
Levantando-me o mais de depressa que pude, disparei atrás do vulto infeliz. Minha  mulher por sua vez, estatelada como estava, permaneceu boquiaberta enquanto chegava os outros participantes da casa.
- Acuda-me aqui! – gritava eu no encalço do rato, que em se ver quase sem saída, se emprenhara atrás de  um velho móvel .
Ninguém perdeu mais tempo. Meu neto rodeou de um lado e minha sogra, ainda vestida com a seus trajes noturno, rodeou do outro.  Mais dois retardatário adentrou o ambiente; um era meu filho e o outro era a sua namorada, que por algum motivo não aparente dormira em seu quarto.
Acredito que o próprio rato naquele momento, soltava riso frouxo ao ver a cara dos seus perseguidores. Minha sogra escancarando as suas grossas pernas na tentativa de cercar o infeliz, dava a ele num plano mais baixo, a visão pavorosa do inferno.
- Fica vigiando aqui! - dizia meu neto para o tio, tentando se livrar de um  possível encontro com o perseguido. Minha futura nora, ao ter a consciência de que se tratava de um roedor tratou de subiu no sofá e ficar supervisionado do alto, a passagem do infeliz.
No fundo, parecia que todos rezavam para que ele fugisse, pois a gritaria era tão grande, que dava a entender ao rato, que o melhor a fazer era se entregar sem resistência.
Na perseguição, agora, já se podia contava com mais de dez pessoas do lado de fora.  A louca da empregada como dormia nos fundos e sem saber do acontecido,correu para a rua e anunciou aos vizinhos que se trava de um assalto.
- Eu o vi  pular o muro! – dizia o meu vizinho da casa a esquerda, tentando acalmar a minha melindrosa operaria do lar, que no momento,  vestia-se de uma transparente camisola, que o reflexo da luz do poste lhe contornavam as intimidades.
Algumas crianças acordaram no embalo do tumulto e acompanharam seus pais pela rua.
Tinha um que tremia tanto, que suas mãos mal conseguiam segura a ponta do pipi para não encher o pijama de xixi.
- Vai para dentro... vai que sobra uma bala perdida! – clamava o pai das crianças se aconchegando no corpo da minha empregada.
A rua se tornou em um dia de festa, com todas as janelas iluminadas. Gente começou a vir de todos os lugares e cada qual com o vestuário noturno mais ridículo que o outro.
O guarda de rua que também dormia no horário  do acontecido, passou a acreditar nos fatos e assoviou o apito com mais freqüência. Ai então que se fez o pandemônio. Como toda a vizinhança passou a exigir que o guarda fosse socorrer as vitimas do seqüestro, ele mesmo se incumbiu de bater em uma das casas e pedir socorro a policia.
A gostosa da vizinha que ainda permanecia em trajes menores, abriu-lhe a porta e ele em disparada correu para o telefone , e enquanto aguardava completar a ligação se assombrava, nas curvas da espavorida senhora, que em meio ao medo, esquecera um dos seios para fora da camisola.
- O que foi que houve? – perguntou a mulher ao guarda .
Ele para tentar permanecer ignorado até a chegada da policia. Lascou um comentário.
- A casa da frente está sendo assaltada e acredito que um dos bandidos escapou de lá e pulo no seu quintal.
A mulher ficou estarrecida e com a chegada das crianças que também acordaram, o barulho de choro passou para uma gritaria sem precedentes.
- Pelo amor de Deus, seu guarda... não vai embora e nos proteja, meu marido está viajando!
Aquela suplica viera em boa hora. Ficar ali era tudo que o danado queria. Já pensou se a policia demora e a vizinhança o obrigue a enfrentar a quadrilha?
 A essa altura dos acontecimentos, o comentário entre os vizinhos era de que: uma poderosa quadrilha fugida de um presídio de segurança máxima havia invadido a minha casa e tomado todos os seus moradores como reféns.
As pessoas que se aglomeravam na rua olhavam para a minha casa e ficavam estarrecidas a ponto de minutos, um se destacar do grupo e  dar a sua opinião, de como faria para salvar a minha família das garras dos facínoras.
O mais amedrontado ao visualizar a minha casa de longe, gritava para a multidão que estava havendo uma sessão de tortura e que todos estavam apanhando de vassoura e que os facínoras estavam fortemente armados.
Na verdade, as cenas que se viam do lado de fora, nada mais eram do que a luta do rato para não ser apanhado, pela vigorosa vassoura que empunhava a minha sogra.
Era preciso calma naquela hora. Algumas janelas já estavam abertas à espera da policia, pois as mesmas já tinham sido escolhidas pela população, como o melhor lugar para se instalar o atirador de elite. A casa da gostosa da minha vizinha foi à escolhida por ficar bem defronte a janela da minha casa. Os mais espertos, e que já tinham a certeza de que o assalto só se transcorria na minha residência se enchiam de coragem e tomavam a frente em vasculhar as casas vizinhas, abrindo armários e mais armários, no intuito de descobrir mais segredos do que propriamente encontrar algum meliante.
 
Quando soou a sirene da viatura da polícia anti-sequestro, o guarda de rua que rezava para que a polícia demorasse a chegar se desvencilhou dos braços da sua protegida e correu para a rua girando o seu inexpressivo cacete  .
Ao todo,  aglomeram -se em frente a minha casa , nada mais que dez viaturas e todas elas despejavam mais policiais fortemente armados, do que os Estados Unidos na invasão do Afeganistão. Após os policiais se posicionarem em locais estratégicos conforme instrução do quartel, um jipe parou e dele desceu um comandante enfeitado por várias estrelas. Era o capitão comandante do esquadrão anti-sequestro. Dirigindo-se para a multidão que se aglomerava ainda mais em frente a minha casa, passou a interrogar as pessoas.
- O quê esta acontecendo?
- Um seqüestro relâmpago! – disse um vizinho acostumado a ler noticias policias.
- Eles estão apanhando muito – confirmou um outro –, até sangue eu já vi espirrar na vidraça...
- São mais de dez lá dentro! – disse humildemente o guarda de rua, mostrando a cabeça e apontando para um ferimento antigo ocasionado por uma briga com a mulher . - Eu nada pude fazer, senhor comandante, eles estavam fortemente armados...
-  Fez bem.! Reagir  nessa hora é morte certa! – falou o comandante depois chamar um bombeiro do regate para dar suporte médico aos feridos. Nessa hora apareceu mais de cinco feridos, e todos  eles alegavam um confronto direto com os bandidos.
 O comandante tomou a dianteira e dando algumas instruções no posicionamento ideal para os militares se encaminhou para frente da minha casa, acompanhado pelo militar negociador. Com um megafone de mão falou bem alto.
- Saiam de mãos para cima! A casa está cercada! É a policia!...
Assim que nós ouvimos aquele barulho todo que vinha da rua, a nossa caçada imediatamente foi suspensa.
Vagarosamente me dirigi para a janela e olhando pela fresta da cortina fiquei atordoado em ver a minha casa cercada por um verdadeiro batalhão de polícia.
- Fomos denunciados por algum representante do IBAMA! – exclamei.
- Quem é o chefe da quadrilha? – interrogou-nos a voz que vinha de fora.
- É o Toninho! – respondi sem dimensionar a gravidade do fato.
Do outro lado o comandante falou para o negociador.
- Esse seqüestro vai ser o mais difícil que já enfrentamos! Estamos diante do famigerado “Toninho boca grande”. Esse não perdoa ninguém! Mata mesmo! Já tive uns negócios com ele e sem bem do que ele é capaz!
- Vocês não têm nenhuma chance! Entregue os reféns e saiam com as mãos para cima! –disse o negociador tentando levar aquele acontecimento o mais rápido possível, pois ele também estava envolvido com o meliante em questão.
As palavras que vinham de fora me deixavam mais atordoado, se eu que não havia pegado nenhum um rato, como eles estavam falando em mais de um. O caso poderia ser mais grave para o meu lado, sabendo-se que eu estava cometendo um assassinato em massa dos pobres animais. Tinha comigo a noticia de que vários pesquisadores haviam sido presos por usá-los em experiências cientificas.
- Ele está acabando com a minha casa, e eu o mato como bem entender! – disse para fora.
O comandante ao ouvir o meu pronunciamento desesperado, afastou-se e se dirigiu para onde estava as pessoas e passou a interrogá-las.
- Nessa casa alguém viu algum morador em atitude suspeita?
- Tem uma senhora gorda que mora ai, às vezes eu a vejo trocando a roupa de cama. – disse um.
Minha sogra mudando as roupas da cama, por causa da alergia.
- Prostituição, então?
- Acho que sim! – respondeu um outro - As moças que fazem sexo ai dentro, cada hora é uma: vem baba, vem enfermeira, mulher com chicote e até freira eu já vi. – desabafou o homem receoso em cometer um pecado.
Meu filho com seus fetiches, usados pela sua namorada!
- A mulher que toma conta da casa – disse um terceiro -, muitas noites eu a vejo fumando maconha na sacada.
Minha mulher fumando um simples cigarro para se livrar da insônia.
O comandante se afastou da multidão e foi ter com o negociador.
- Não tenho mais duvidas! Isso é acerto de contas!- disse o comandante – A casa ao meu ver é ponto de droga e prostituição e o nosso amigo o Toninho boca grande, pode nos comprometer com essa burrice
- Precisamos ter cautela! Essa gente não brinca em serviço!   Ainda mais quando se trata do “Toninho boca grande”. Se ele abrir a boca nós estamos perdido!
- Fala com ele educadamente senão vamos por tudo a perder! – comentou o comandante.
O negociador pegando o megafone falou para eu ouvir.
- Senhor Toninho, solte os reféns que nós lhe daremos um julgamento de cidadão!
-  Eu não entrego nenhum refém! Eu confesso que nem pus a mão nele!
-  Eu não disse! – comentou o comandante – ela já matou todos sem pôr as mãos! Os  comparsas dele já fizeram o serviço! Esse homem é bárbaro!
- Então libere os fregueses!
- Eu não vou liberar nada! Se eles querem acabar com a minha casa eu vou matar todos e ai eu quero ver se tem algum o protetor desses animais que vai me impedir...
Assim que falei, minha sogra me fez um sinal de positivo, como se eu devesse ser mais durão nas transações.
- E se tiver alguém ai do meio ambiente disposto a hospedá-los em sua casa, eu os mando  para a casa deles. – dei uma risada e minha sogra novamente me aplaudiu.
O comandante sem entender a minha mensagem, indagou ao negociador sobre o que eu estava me referindo.
O negociador retirou uma agenda do bolso e escreveu a frase que eu havia dito e passou a decifrá-la.
- Se tiver alguém ai? A palavra: alguém AI,  vem de Albergado Interno. Meio Ambiente? – vem dos moradores da favela. Disposto? – cabeça do trafico que perdeu o posto. A Hospedá-los em sua casa – Comando Vermelho. Eu os mando para a casa  deles? – mando – recebe ordem. Casa deles – cemitérios. Refazendo tudo “Houve denuncia de um albergado interno e a cabeça do tráfico do comando vermelho recebeu ordens para enviá-los para o cemitério”.
- Muito bom! – disse o comandante orgulhoso em ter um oficial tão preparado sob seu comando.
Nesse momento eu ouvi um forte barulho dos motores dos helicópteros que sobrevoava a minha casa. Um era o “Águia da policia” e, o outro era o helicóptero da Rede Bandeirante pilotado pelo comandante Hamilton  . Em plena madrugada, o Luis Datena fora acordado para comentar ao maior assalto do ano. Como o barulho era muito forte, Nós nos deitamos no chão com medo de que alguém nos alvejasse do alto
- Me ajuda ai ô! A rede de televisão Bandeirante, sempre ajudando a policia, estará no ar até que tudo termine! Temos noticias que várias pessoas já foram mortas pelo bando do Toninho Boca Grande – dizia o locutor –
- Datena – chamava o comandante Hamilton – Como você pode ver pelas imagens, o chão está coberto de sangue e de cadáveres. Um verdadeiro assassinato em massa.
- É isso ai comandante! Uma família inteira assassinada e os políticos não fazem nada, nada, nada! Quem é pessoa correta, tem que conviver com esses bandidos!To errado, me ajuda ai!
-  Datena, as pessoas que estão lá dentro, não são tão corretas assim! Pelo que eu ouvi pelo rádio, o que está acontecendo, nada mais é do que  um acerto de contas!
-  São bandido também comandante Hamilton? Põe na tela!
-  Perfeito, Datena!
Enquanto a rede de televisão exibia os meus prós e os meus contras o comandante trocava palavras com o negociador. 
- Então vamos invadir!
- Não acha melhor negociar com ele um pouco mais, se nós precipitarmos pode sobrar para a gente? – disse o negociador.
- Acredito que você tenha razão, num momento como esse, eles podem muito bem sair atirando para todos os lados e inocentes serão alvos de balas perdidas...
- Vamos evacuar o ambiente, comandante!
- De jeito nenhum! Se fizermos isso, muita gente não ira ver o nosso trabalho e por conseqüência falarão mal da policia. Temos que levar em conta que as televisões estão todas presentes e, isso podem ser os nossos dez minutos de gloria. Vamos interrogar a empregada! Eu tenho certeza de que ela tem muitas coisas para nos dizer. Empregados sempre ouvem as conversas dos patrões  e ela pode ter ouvido alguma coisa que possa nos comprometer
Sem perda de tempo a moça que ainda se encontrava muito abalada, fora levada para o interior de um camburão e lá começou a sessão de interrogatórios.
O militar que trabalhava no caso era um experiente interrogador, pois em outros tempos servira aos militares da repressão ao comunismo.
- Vai falando! – dizia ele empunhando um pesado cacete e batendo-o a todo instante na lataria do camburão.
- Eu não sei de nada! Estava trabalhando naquela casa, só há dois dias...
- Sabe sim! Conta tudo senão eu lhe arranco a língua!
Depois de alguns minutos ele saiu do camburão com um extenso interrogatório assinado pela infeliz empregada, que só tinha os olhos que se mexiam na cara, em meio  a tantos hematomas. Chamando  o comandante de lado passou a dissertar sobre o que havia ouvido da moça por confissão espontânea.   
- O caso é muito mais complexo, comandante! Se o meliante sair vivo dessa ele vai pôr a boca no trombone. Vou ligar para a policia federal e ver se de lá eles conseguem que algum  juiz autorize o grampo telefônico do meliante.
Depois de alguns minutos a resposta veio da policia federal, que já tinha uma escuta telefônica do Toninho boca grande. A operação tinha o nome de “Satiaboca”
“ fala para o comandante que o dinheiro já está na conta”
“ o homem morre hoje ?”
“ Até as quatro ele vai para a terra do pé junto”
O comandante da operação ao ouvir  no grampo a sua conversa com o meliante Toninho boca grande tratou de por fim a aquele acerto de conta
- Não ! Quando se entra em briga de bandido, o melhor que se tem a fazer é matar a todos,e  assim, a gente queima logo o arquivo. – disse o comandante.
- Vamos acabar logo com isso, senão vai sobrar para todo mundo...
O comandante apreensivo pelas declarações ouvidas, passou a mão pelo  megafone e gritou:
- Nós vamos esperar cinco minutos, se ninguém sair nós vamos invadir a casa!
- Os homens vão invadir a casa, Datena!
- Fica na posição, comandante Hamilton! Pode acontecer da policia precisar do nosso helicóptero para retirar os corpos!  
- Não se entrega! – dizia a minha sogra naquele momento. – Se você for preso, esse crime é inafiançável e por isso você vai passar uns bons anos na cadeia, mas não vai ser morto
- Vovô, eu acho melhor o senhor se entregar e acabar logo com isso! – dizia meu neto. Dez anos de cadeia não é tanto assim...Já pensou que o senhor não vai precisar mais trabalhar e que nós vamos receber o seu salário  integral do governo.
- A se pensar por esse lado, você tem toda a razão! Eu vou me entregar!
No momento em que eu me dirigia para a porta para me entregar, os cinco minutos já haviam se esgotado e as balas começaram a choveu por todos os lados. Nos atiramos para o chão na melhor forma de nos escondermos e o que se ouvia era só estrondo de balas rompendo as portas  e as vidraças.
O tiroteio cessou e o atirador de elite recebeu a ordem para atingir quem quer que se movimente dentro da minha casa.
Como o atirador estava posicionado  na janela da casa da gostosa da minha vizinha  e a visão que ele tinha dela era bem melhor do que a minha - acredite, mas ela  ainda permanecia com um dos peitos para fora da blusa -, e foi o que me salvou, quando eu já me encontrava na mira do atirador.  A bala passou do meu lado, com um erro de dois metros do alvo e atingiu um vaso que estava encostado na parede do quarto.
O perigo que eu havia levado toda a minha família me fez refletir que: o  melhor a se fazer era me entregar. Fui até a janela  e gritei que me entregaria  na presença da televisão e de um juiz.
Antes que alguém me desse alguma resposta, as balas comeram soltas para todos os lados e as portas vieram abaixo.
- Todos de mãos nas cabeças! – gritavam os policiais aramados até os dentes
Minha sogra que havia enroscado uma das pernas no braço do sofá, na ânsia de se esconder, deixava a mostra todos os seus pudores, só vistos por meu finado sogro e pelo maldito do rato.
E por falar no maldito!
Assim que a fumaça abaixou, ele lentamente passou perto da minha cabeça que estava de encontro ao chão e sem olhar para trás se emprenhou  por entre os escombros que havia transformado a minha casa... e sumiu.
O comandante virando o meu rosto com uma botinada exclamou surpreso.
 - Esse não é o Toninho Boca Grande!
-  Graças a Deus! - suspirou aliviado o negociador   
- Datena, eu estou recebendo ordem do Águia Dourada para abandonar o local porque as cenas de sangue são fortíssimas!
-  O que é isso! Não se respeita mais o direto de imprensa! E esses políticos não fazem nada! To errado? Ajuda-me ai ô! -  Nossos comerciais por favor! 
 
 
 

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