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Carlos Eugênio Sombra Moreira






Esquecido na multidão


      A cidade acorda bem antes do alvorecer. Pessoas se cruzam nas ruas, caminham pelos calçadões, passam uma pelas outras e não se cumprimentam. Os olhares dispersos testemunham a distância, não geográfica ou física, mas de cunho afetivo, na forma como elas se relacionam. Cada uma com seus problemas, conflitos internos e aflições, medos, transtornos, alacridade e melancolia, dor ou consolação. Enquanto outras, por motivos inconstantes até chegam a trocar algumas palavrinhas e sorrisos, entretanto, vão-se sem deixar transparecer cumplicidade, dissimulam os anseios que alimenta seu cerne, como robôs programados para o trabalho, reclusos as suas preocupações, caminham em meio à multidão solitários, acorrentados as limitações impostas a sua psique.
      Na volta do trabalho, percebo a angustia latente no semblante de alguns. Os ônibus lotados e o martírio da espera nos terminais ou na estação do metrô fazem-me presenciar, ainda mais de perto, a axiguidade sentimental e a ausência de maviosidade com o outro. Nesse instante, vejo o quanto estou rodeado de pessoas, entretanto, sinto-me completamente só, esquecido, envolto a regras dos tempos modernos.  Sinto na pele o quanto a vida na grande metrópole chega a ser ironicamente isolada.
      Chego a pensar que essa sensação de isolamento social, talvez venha ser a ausência de um exímio amor. Alguém para dividir meus anelos, que substitua a apatia e a insensibilidade da tela de um computador. Onde encontro séquitos virtuais, e ao mesmo tempo fico desacompanhado do calor humano, de uma caricia que possa transbordar em desejos, como um toque aconchegante do encontro de duas bocas que sentem o doce mel do sabor de um beijo, e uma respiração ofegante, arfante rumo ao encantamento. Particularidades de uma sociedade que afora, a cada nova geração, os relacionamentos virtuais, ignorando a relevância do calor humano, e negando partilhar o reconhecimento das almas, na fascinação dos olhares que se cruzam, para facultar o nascimento de uma insigne paixão, com a sedução que reluz em palavras no desabrochar de uma rosa.
      Enquanto rolo na cama fria e mergulhado nas nuances de meus pensamentos, a noite adormece nos roncos dos motores que começam a cessar vagarosamente. As vielas ficam menos movimentadas e bem ao longe os cães ladram, anunciando os mistérios da noite, ao passo que vou adormecendo em minhas lembranças, já que o meu porvir reserva os sobressaltos que chegam para aclamar momentos de volúpia e melancolia.
      O dia inicia juntamente com a monotonia cotidiana. Não obstante, um entardecer, em que a cor gris do horizonte confundindo-se com o colorido do arco-íris, chegam para encantar. Nesse momento, alimento a quimera de um porvir que venha trazer-me a perspectiva de uma vida como o sol e a lua compartilham, em tempo real, uma só existência, no encantamento de um eclipse, aonde a união de ambos, sobrepondo-se, simboliza a benevolência genuína de dois corpos que se amam.
      Envolto desse estado de espírito, no qual contemplo o cair da tarde, em comunhão com a natureza, rogo que a humanidade perceba que seu bem maior é a vida, e essa só terá sentido quando compartilhada com um abraço amigo, uma palavra de conforto nos momentos tétricos, um olhar que possa aquecer o sorriso e disseminar esperança, e um gesto de afeto que venha romper as correntes do ermo, em nome da sonhada felicidade.


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