Apelido:

Senha:


Esqueci minha senha







Luiz C. Lessa Alves






CENSURA E DEMOCRACIA

            CENSURA E DEMOCRACIA
 
            Foneticamente, o vocábulo “censura” é bonito e até harmonioso! Talvez seja pela terminação idêntica a da ternura. Contudo, para quem já provou de sua essência, certamente, dirá que tem sabor sepulcral!
            Protetora da soberania popular, distribuidora equitativa do poder, paradoxalmente, democracia tem sonoridade incompatível com seu significado, porque a sílaba pré-tônica, “cra”, é áspera; chegando até ferir nossos sentimentos morais, quando usada indiscriminadamente.  
            Hoje só em pensar no retorno da censura, meios de comunicação tremem. TV, então!... Esta sabe, perfeitamente, que ressurreição dessa palavra vai secar muito capim responsável pela engorda das cavalgaduras; tração imprescindível para suas carruagens desfilarem pomposamente.
            Propaganda de bebida alcoólica será uma das primeiras, sem dúvida, porque sua proibição já existe desde os velhos tempos da ditadura militar. Ela jaz por aí sob alguma campa! Nudez, palavrão podem ser encaixados, também, nesse contexto; não tem cabimento país como Brasil, abundante em cabecinhas miúdas, fazer apologia a droga, patifaria, etc..  
            Ninguém tolera repreensão nem ordens. Mas todos adoram impor suas vontades; principalmente quando isso lhes concede dinheiro, fama e puder.
            Passando-se por boazinha, senhora da verdade, televisão aborda nossas casas, induz, dita regras, impondo-as, formando opinião.
            Olhando o Brasil como nação camponesa, ela dana a espalhar adubo por todo território, sem dar a menor importância às diferenças regionais, variações climáticas, do solo, etc.. Para ela somos todos reles, ignorantes; comemos qualquer coisa! Até mesmo aquelas nojentas! Basta dizer que é salutar, não importa se foi regurgitada, o povo se lambuzar! Censura serve, justamente, para coibir tais abusos.
            Mídia não aplicaria tanto na “agricultura”, caso nossos governantes investissem na cultura; consequentemente, programas como Big Brother nem recicladores de violências e desgraças haveria. Cultura mostraria aos puxadores de carroça diferenças existentes entre alfafa e alface.
            Televisão explora sexo até para fazer humor, sem respeitar hora nem local!
            Meses atrás, “Caras e Bocas”, novela das dezenove horas, mostrava determinado casal em lua-de-mel proporcionando um alvoroço danado, ao fazer a casa chacoalhar! Tais cenas imorais foram excessivamente repetidas com intuito sórdido de causar gracejos, através da simulação exagerada de sexo.
             Já nem me causa mais espanto ver pessoas somarem tais imoralidades ao cotidiano.
            Às vezes fico imaginando como reagirá, amanhã, esses pais vendo seus filhos menores drogados, vomitando; filhas, também, adolescentes, entojando!
            Na época da ditadura não havia nada disso. Muita gente boa foi perseguida, exilada, desaparecidas por coisas pequenas. Estes versos, por exemplo, de Geraldo Vandré: “... Há soldados armados, amados ou não / Quase todos perdidos de arma na mão / Nos quartéis lhes ensinam uma antiga lição / de morrer pela paz e viver sem razão...” e “... Joga bosta na Geni / Ela dá pra qualquer um...” de Chico Buarque. Na ocasião, essas músicas, dentre outras, não puderam ser gravadas, e se foram, tiveram suas vendas proibidas. Até versos inocentes de “Sem Lenço Sem Documento”, de Caetano Veloso e Roda Viva de Chico causaram suspeitas aos militares. Verdade é que eles nada entendiam de palavras figuradas, ou, simplesmente, faziam isso para manterem a fama de durões.
            Assim era o regime daqueles dias: comíamos “à corda curta”; no entanto, havia respeito e moralidade. O ruim em tudo isso, era que o militar causava pavor!
            Esse medo gerou insatisfação. Descontentamento levou o povo às ruas pedindo mudanças; e houve! Censura partiu, deixando sua cadeira vazia... libertinagem, então, ali, sentou. Foi ela quem notabilizou o funk, música constituída, quase que na sua totalidade, por vocábulos ambíguos, pornográficos. Esse novo gênero musical acabou virando “arte”. Incluído, recentemente, no acervo cultural do Rio de Janeiro, outorgado pelas autoridades “competentes” desta metrópole!
            Por conta disso, “dondocas do papai”, dizendo-se “gostarem” do estilo da tal “arte”: remexer o “cérebro”, digo, o traseiro, fazendo poses eróticas em público, exibindo toda sua “sabedoria” recheada de silicone, passaram a frequentar bailes nos morros, favelas, deixando-se ficar por acolá com homens que ali negociam drogas, portando rifles, fuzis, pistolas; feito soldados em quartel.
            Conforme as coisas andam, o povo nem vai estranhar quando esses apetrechos descerem ao asfalto carioca como brasão de masculinidade. Afinal, sexo, droga, dinheiro, poder ditam moda, fazendo coisas para Satanás duvidar e Deus se surpreender em ver o homem se curvar. Tudo em nome da democracia e libertinagem, digo, liberdade.
            Confesso não saber qual é nosso sistema governamental. Hoje não há cabresto, é verdade; vivemos somente num curral. Poderosos manipulam e ordenam; fracos só obedecem aos arreios!
            Neste mundo globalizado, muita gente sofre influências externas sobre suas atitudes; entretanto, ninguém admite, até surgir mais um BBB. Dezenas de outros programas, igualmente, vulgares, sem nenhuma cultura, também, provam isso!
            O caso da família Nardone foi mais um fato comprovador do quanto o povo é manipulado pela mídia.
            Ao tomar conhecimento do ocorrido, a imprensa autoritariamente fez-se juíza. Condenou pai e madrasta, sem esperar definições dos fatos nem ouvir as partes: acusação e defesa. Manipulada por ela, a turba atirou-se sobre o casal, como hienas a búfalo mortalmente ferido por leão.
              Esses animais agem assim por instinto de sobrevivência; já aqueles irracionais, por impulso selvagem, para, então, a mídia poder sobreviver.Mal sabe esse “povinho” que hienas como chacais não atacam búfalos fortes, em pleno vigor físico; assim também é a imprensa.
            Em Brasília tem sempre alguns políticos flagrados cometendo crimes de toda ordem; no entanto, a imprensa divulga os fatos, comedidamente, e espera com paciência as decisões dos magistrados. Por que ela não açula, também, aquela gentinha de contra esses corruptos, criminosos e ladrões? Isto essa gentalha não consegue enxergar!                                                                                                                                                                        
          Jovem se deixar coagir pela força do poder é natural, pois lhe falta maturidade para diferenciar coação de coesão! Lamentável, porém, é ver pessoas “encruadas”, dizendo-se cultas, insistindo em pôr taquara na moenda para fazer melado. Essas, infelizmente, já estão fadadas a morrem sem saber que bambu não é cana-de-açúcar, portanto, não dá garapa!
Esse povaréu, que não consegue discernir experimento de excremento, vai até seus últimos dias buscando entulhos como “lava-cérebro” BBB, os “lixos reciclados” Fantástico, Cidade em Alerta, Profissão Repórter, etc. para encher suas lacunas. Ainda assim, coitado, morrerá peco; afinal, ilusão é como vento e recordação: ocupa espaço, mas não preenche vazios!
            Ironicamente, tudo aquilo que era proibido, quatro décadas atrás, aos meios de comunicação escrever, mostrar... sexo, drogas, palavrões, etc., é, hoje, “pré-sal” da mídia.
            Lembro-me ainda, quem quisesse ver garota da capa de qualquer revista masculina, como Playboy, precisava comprar, porque ela vinha disposta sob plástico fosco e fechado! Somente adulto podia comprá-la. Sansões cabiam ao jornaleiro infrator.       
            Atualmente fotos eróticas nos atropelam nas vias públicas, nos lares... Mas ainda há quem pergunte de onde surge tanta violência! Tanto vício! Tanta safadeza!
             “O muito ver faz aprender; e quem aprende quer fazer!”. Já dizia minha mãe!
            Todo mundo passeia pelas ruas; usa computador; assiste TV; tem, portanto, poderosas oficinas ao seu dispor!
            Algumas coisas do presente me trazem outras passadas. Certa manhã, ao passar pela cozinha, onde estavam minhas tias Alzira e Caçula eu ouvi sua irmã lhes dizer: “... Existe tanta gente tola neste país que se Getúlio Vargas quisesse demarcar os limites do Brasil com essas pessoas fincadas como estacas, aposto como ainda ia sobrar idiotas!”.
            Nem sei a quem minha mãe se referia, faz bastante tempo!... Eu nem tinha seis anos! Getúlio era presidente do Brasil! Nessa época a população brasileira, certamente, nem “espiava” metade de um paredão Big Brother.
            Eu e minha ingenuidade saímos dali rascunhando como seria uma fila de pessoas aterradas até os joelhos, comendo, bebendo, à mercê das vontades alheias.
            O tempo me fez deixar para trás aquele desenho. No entanto, olhando o mapa brasileiro, hoje, vejo que o projeto da minha infância foi executado; provando que não era figuração aquilo que minha mãe dizia. Existem mesmo milhões de pessoas tolas atoladas por si mesmas nas suas próprias fronteiras; isto é, nos limites de suas ignorâncias! 
            Dirigir vidas alheias manipulando-as, impondo-as é canga! E jugo não é democrático! Nem é democrático obrigar atleta praticar esporte sob calor de quarenta graus, ou em horário inadequado ao espectador, para satisfazer uma ou duas emissoras de rádio e televisão! Obrigar pai retirar crianças da sala ou desligar sua TV porque o programa exibido pela emissora contém cenas picantes de sexo, ou alguma outra violência, também não é democrático!
            Entendo por democracia respeito mútuo: direitos e deveres iguais; sem isto não pode haver democracia. Censura é somente sua conselheira administrativa para mantê-la longe dos excessos abusivos! Portanto, ela tem que existir, também! Mas, não imposta por decreto-lei, e sim pelas próprias pessoas. Contudo, para tanto, não basta que a mídia e usuários tenham cultura, é imprescindível que ambos sejam, sobre tudo, inteligentes. O primeiro, para não fazer porcarias; o segundo, para não comprá-las!  
            Essas duas criaturas do homem foram tema da conversa em mais uma pescaria de pouco peixe, em Grumari, no entanto, com muitas estrelas, porque a Lua, por ser ainda menor, deitou cedo, naquela noite!
 
     

Tempo de carregamento:0,04