Apelido:

Senha:


Esqueci minha senha







LEOMAR BARALDI






O LADRÃO DE TALENTO

Era um dia de folga para Sandra e Leandro. Ela tirava pó de uns livros na estante. Pretendia fazer um trabalho sobre a vulcanização da borracha, tentar descobrir novos métodos de pôr mais resistência em certos tipos de compostos de pneus para aviões, ela trabalhava numa empresa fabricante de pneus. Leandro estava no seu “ateliê” improvisado na despensa. Ao lado de carriola de roda pra cima, ao lado de ferramentas de pedreiro e coisas esparsas, tentava passar para a tela o que estava sentindo. Na verdade sua pretensão era tornar-se um artista plástico. Desde a adolescência comprava guaches e purpurinas, formava paisagens de borrões em cartolinas. Mostrava para as garotas colegas de ginásio. Elas riam, mas davam uma esperança para Leandro. Um dia ainda teria a sua exposição. Quando borrão se transformar em arte.
Seus quadros eram sempre rejeitados pelas pinacotecas.
-Isso aí não tem valor nenhum.
-Coloquei a minha alma neste trabalho. Sabe, a textura...
-Seo Leandro, entenda uma coisa, claro que os trabalhos são bons, mas convenhamos que a sua hora e o seu dia ainda chegarão.
Pintava tudo o que se via pela frente. Um emaranhado de riscos, curvas e uma sucessão de clarões que produzia com as tintas como se tivesse arremessado o pincel contra a tela. E era mesmo. Ele literalmente arremessava o pincel contra a cartolina, na sua raiva de não conseguir algo melhor.
Ficava pensando, refletindo. Será que tinha mesmo nascido para a pintura? Abandonava os “quadros”, ficava meses sem tocar nas tintas. Meses e meses. Depois lhe vinha aquela vontade de pintar. Pegava os pincéis, misturava as tintas. Lhe subia um prazer especial. Aquela sensação produzia uma reação dentro de si que se assemelhava a reação do sal de fruta na água. Vou colocar o que sinto pra fora!
Ficava enfurnado no seu “ateliê” até altas horas. Saía depois, todo eufórico.
-Sandra, Sandra! Vem ver o que eu fiz!
-Já vou. –a voz dela vinha lá da frente da casa. Ela costumava cuidar de plantas quando estava de folga ou em casa sem saber o que fazer.
-Sandra, vem logo!
-Um minuto.
-Vamos, Sandra.
-Já vou, caramba.
Na manhã seguinte aparecia no escritório de Teotônio Castilho. Marchand e curador de Museu de Artes Modernas.
-Senhor Teotônio. Dessa vez criei a minha obra prima.
O olhar do velho não se surpreendia nem se comovia com nada. Seus gestos eram frios e taciturnos. Se fosse por ele jamais quereria ver aquilo que Leandro trazia embaixo do braço. O verdadeiro artista é descoberto e não se auto-divulgado. Era uma velha raposa no mercado de artes. Conhecia todos seus meandros e saliências.
-Se prepare, seo Teotônio. Ãhn, ãhn!
Tirou a moldura de dentro de uma sacola. Estendendo-a sobre a mesa do curador.
-Seo Leandro. Quer que eu chame a polícia?
-Por que?.. Eu... É uma obra prima...
-Seo Leandro, isso aqui é um cocô. Sabe o que é um cocô? É isso aqui que o senhor pôs na minha frente.
-Senhor Castilho, podemos conversar... Sabe aqui, é uma ovelha, aqui os pastores... Eles vão indo para uma capelinha rezar...
-Tire isso da minha frente. Já.
Leandro disse para Sandra que desistiria de pintar. Mandaria aquilo tudo para o inferno. Chega! Decidiu pegar o carro, dar uma volta pela cidade. Espairecer. Logo na Avenida Brasil teve um pneu do carro furado.
Trocava o pneu do carro quando sente algo apertando as suas costas na altura do ombro.
-É um assalto! Vai passando tudo!
-Ah, não, de novo não.
-Você?! –dessa vez até o assaltante teve a reação da surpresa. –Mas será que você não tem o que fazer, não?
-E você? Sempre assaltando a mesma pessoa?
-Não fala assim.
-Falo sim.
-Você está me destratando.
-Olha só quem fala.
-Não brinca comigo, não, sou um assaltante.
-Assaltante de merda.
-Não fala assim não, camarada.
-Falo sim.
-Não fala assim não.
-Falo sim.
Leandro ficou meses sem tocar em suas tintas, em suas aquarelas. Vou ser um grande pintor. Um gênio. Vou ser um gênio. Mas era um artista em crise consigo mesmo. Meses longe das tintas. Meses. Levava Sandra passear no bosque. Um projeto dele como paisagista para uma praça da prefeitura, uma praça abandonada que pretendia dar contornos surrealistas. Aliás o secretário da prefeitura havia ligado semana passada para cobrar o adiantamento do projeto. Leandro tentando transmitir para a cartolina idéias abstratas que o senhor Teotônio chamaria de cocô se esqueceu completamente. O secretário fez menção de cortar a verba se acaso esses atrasos continuassem.
Sandra questionou-o do assunto. Não sabia que a situação tinha chegado neste ponto. O projeto era um projeto sério. Havia uma prefeitura na jogada. Cifras milionárias, Leandro ganharia o que jamais ganhou com aqueles projetos de jardins. Sandra o condenou mais ainda por ficar atrás de suas pinturas. Ele não podia dedicar seu tempo a elas. Sabia se tratar de um parto difícil. O que estaria ganhando com suas supostas aquarelas? Seo Teotônio Castilho as haviam chamado de cocô. Sandra aconselhou Leandro a dar um tempo na sua intenção de ser artista plástico.
-Vou parar com tudo isso! –disse ele, irritado.
-Não estou dizendo para você parar.
-Mas está insinuando que eu pare.
-Leandro, tente entender... Tem uma carreira, um projeto para a prefeitura, um contrato. Se eles...
-Sei, se eles cortarem o contrato, vou ter de devolver o que já me pagaram.
-Não quis dizer isso.
-Sou um fracassado.
-Leandro, espere.
-Sandra, não precisa dizer mais nada. Vou pegar essas coisas todas, essa porcaria e jogar no rio Tietê. Já que é cocô.
-Leandro, não foi isso que quis dizer. Só quero...
-Você só quer que eu me livre dessas coisas. Sou um fracasso como artista plástico... E você não quer ter um fracassado em casa.
-Leandro, meu amor, me escute...
-Vai dizer que estou doido, um louco, por ir atrás dessa porcaria...
-Leandro, assim não dá pra conversar com você. Não dá!
Sandra saiu da sala, se trancou no quarto. Leandro ficou pensando, pernas cruzadas, sentado no sofá. Na televisão passava um teatro de bonecos. Ele com o pensamento distante.
Decidiu. Foi até o seu ateliê. Pegou todas as tintas, os guaches, as cartolinas, as telas pintadas. Carregou tudo no carro, não queria que ficasse uma só lembrança daquilo. Um quadro na moldura não queria entrar no porta-malas, o forçou, provocando um rasgo.
Saiu com o carro, começava uma chuva fina. Guiava, o pára-brisa mostrava o seu rosto distorcido pelos pingos que deslizavam pelo vidro. Sua expressão era a pior possível. Os traços de sua fisionomia estavam muito nítidos, transparecendo, assim toda a sua tensão. Passava pelas ruas escuras e via mulheres, crianças, velhos. Todos tinham um destino, todos eram bem sucedidos em suas vidas. Todos pintavam ou desenhavam nem que fosse um rabisco e eram felizes com aquilo. Que mundo cruel, indistinto, falso. Falso, um mundo de falsários. Outro dia um cara pegou uma roda de bicicleta e aquilo era arte. Ferro-velho é arte? Lixo é arte? Teotônio Castilho, maldito. Filho da puta. Esses caras americanos, se eles aparecem com um abridor de latas enferrujado, isso é arte. O que eu faço é cocô! O que eu faço é cocô! Vou mostrar pra esse cara o que é cocô. Se um camarada aparecer com uma privada encontrada num lixão e colocá-la no meio do museu municipal, isso é arte. Arte! Porra de arte. Droga de arte. Um papel que limparam o cu é arte. Isso é arte! Meu Jesus, o que eu sou? O que?
Chegou. Depois de trafegar por um bom trecho da marginal Tietê, finalmente chegou no seu destino. O rio. Ia jogar tudo dentro dele.
Abriu o porta-malas.
-Vai passando tudo, é um assalto!
-Não pode ser, meu pai do céu. Logo agora!
-Ah, não, você de novo. –o assaltante chegou até a abaixar o revólver para o chão. Depois reanimou: -Não estou nem aí se estou assaltando o mesmo cara dias seguidos. Vai passando tudo, é um assalto!
-Sou o único cara no mundo que tem um assaltante particular. Pára com isso.
-Mas que pára com isso! Não estou brincando, não. Vai passando tudo!
-Não tenho mais nada para te oferecer. Ah não ser isso.
Mostrou as suas cartolinas pintadas.
-Ah, você pinta? –perguntou o assaltante.
-Tento.
Leandro viu o semblante do homem mudar. Ficou tão absorvido por aquelas pinturas que se aproximou do porta-malas como se fosse atraído para lá por um imã de energia inimaginável.
Passou a mão pelas cartolinas com todo o cuidado como se procurasse absorver a tela.
-Desde criança eu queria ser pintor, ser artista plástico. Mas...
Com voz cada vez mais emocionada e embargada o homem parou e chorava como uma criança.
-Eu queria ser artista plástico. Minha mãe tomava conta da gente. Meu pai tinha morrido... Eu queria ser artista plástico. Eu desenhava bem... Eu vendia desenhos na rodoviária. Eu desenhava coelhos, joaninhas... As pessoas gostavam.
Leandro estendeu uma cartolina para ele, procurou o estojo com os pincéis e as tintas. Os olhos do homem pareciam flamejar.
Com mãos trêmulas segurou o pincel, escolheu as tintas. Deixou os frascos abertos, ali na beira da guia da ponte do rio Tietê. Misturou cores, misturou mais cores e foi estudando o resultado. O primeiro traço foi descontínuo, serpenteando sobre o branco da cartolina.
O traço final foi surpreendente. Um néon faiscante. E uma tela jamais sonhada por um ser humano pintada na frente de Leandro. Constituía uma cidade, formada de luzes. Luzes que a mistura das cores irradiavam. Mas irradiavam de uma forma tão natural que dava a impressão de a tela estar iluminada. E toda essa compleição de cidade deixava claro por baixo uma sombra, a sombra de um rosto feminino.
-Espantoso! –o senhor Teotônio Castilho engasgou com a própria saliva. Socorrido por Leandro e pela secretária, depois de restabelecido, ficou olhando para aquela tela sem piscar sequer.
Ficou tão surpreendido com a obra que passou a noite em seu escritório, olhando para a tela.
Foi arrematada por dois milhões de dólares por um desconhecido.

Tempo de carregamento:0,05