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Luiz C. Lessa Alves






NOMES APENAS NADA MAIS

NOMES APENAS NADA MAIS

 

- Pai, cadê vovô? Ele veio com você, não veio?

- Tá lá, onde sempre fica quando...! Cadê esse moleque?
- Já correu pra onde está seu pai!
- Vô! Você tá aqui! Que bom! Parabéns!
- Muito obrigado, meu menino! Cheguei faz tempo. E você aonde andava?
- Tava jogando vídeo game na casa de Dudinha.
- Eu sei: sua mãe me falou. 
- Vô, vem morar com a gente!
- Já falou com seus pais sobre isso?
- Já. Mamãe disse que era papai quem sabia. 
- E ele...?
- Ele disse que o senhor tá bem onde mora! Na sei por que pai nunca me leva lá!
- Porque lá não tem criança, e ele só vai para me apanhar; nunca se demora.
- Eu queria que o senhor morasse aqui! Contar história, brincar comigo...
- Gostaria muito, mas, existem coisas que contrariam a nossa vontade.
- Que coisas?
- Com o tempo saberá. Entretanto, pode nunca entender a razão, tampouco remediar.
- Não entendi nadinha. Mas deixa pra lá. Vamos pra dentro de casa assistir televisão!
- Vou ficar mais um pouco. Pode ir, se quiser.
- Eu também fico! Na TV não tem nada mesmo, essa hora!
- Ótimo!
- Vovô, por que você, quando vem aqui, fica o dia todo debaixo dessa mangueira?
- Porque não posso mais subir! Por isso observo de baixo o mundo que há em cima.
- Mundo! Mas que mundo, vô?
- Coisas que televisão nenhuma pode me mostrar.
- Que coisas? Hoje nem manga tem! Só folha, flor, passarinho, formiga... 
- Eu desfolho universos, através de tudo isto aqui.
- Mas que universo?
- Vejo o que se foi; amigos que partiram...
- Como?
- Fechando os olhos eu vejo.
- Vô, ninguém ver nada de olhos fechados!
- É aí que muita gente se engana: nossos olhos são como as janelas de casa!
- Como janelas de casa...?
- Quando fechada a gente presta mais atenção no que acontece por dentro da casa!
- Então é por isso que a casa de dona Júlia é desarrumada, porque ela não sai da janela!
- Esqueça a velha Júlia e me acompanhe.
- Pra onde, vô?
- Aos tempos dos meus dias coloridos. Feche os olhos e siga-me; vou contar uma história..
- Uma história? Oba! Fechei! Pode começar?
Sentado sobre toco, recostado na cepa da mangueira, João cerrou os olhos. Começou dizendo que certo menino, filho único, ganhou do pai uma casa construída em cima de uma árvore no quintal, quando completou sete anos.
Nela, ele brincava com seus amigos, fazia deveres escolares... Até comia e dormia. Aquela árvore virou seu mundo.
Protegido pela pequena casa suspensa, o garoto viu passar toda infância, adolescência e juventude. Dali assistiu até, com muita tristeza, sua mãe partir. Foi quando percebeu não ser mais nenhum menino. Naquele dia, a casa da árvore desmoronou. 
Ele se casou oito anos após dona Adelaide falecer. Mas, continuou morando com o pai. Ele e Margarida deram-lhe quatro netos. Construiu três casas iguais; uma para cada filho. Plantou árvores frutíferas nos fundos, incentivado por Euclides. Lulá, filha caçula, tinha onze anos quando perdeu o avô. Aos setenta, dona Margarida deixou-o viúvo.
- Mas vô, ele fez três casas, e tinha quatro filhos. Um ficou sem casa!
- Ele acordou com os filhos que a casa onde moravam ficaria para o último filho a casar.
- Mas por quê?
- Sendo quatro herdeiros, quatro casas evitariam problemas de inventário. 
- E quem casou por último?
- Totonho: segundo filho mais velho.
- E onde o pai foi morar, quando Totonho casou?
- Continuou na casa com o casal. A casa cabia-os com folga. Até que...
- Vô! O que aconteceu? Conta! Anda, vai!
Evitando olhar observador do menino, voz meio roca, prossegui. Contou que o homem, sem se dar conta, já deixava transparecer queda em seu patrimônio físico:pisos, assoalhos derrapantes; louças, copos quebradiços... Tributos que o tempo cobrava-lhe pelos bons anos usufruídos por ele. Juros meio demasiados, verdade, mas, nem por isso carecia cuidados. Atenção, talvez!... Ou somente afeto, tendo em vista seu dote psíquico continuar inalterado.  Não podiam era fazer aquilo com ele.
- O quê, vô?
João ergueu a cabeça, como se procurasse algo em meio à folhagem, abaixando-a em seguida, esfregando a camisa no rosto...
- Que foi, vô?
- Cisco, decerto. Nunca se sabe o que vamos encontrar numa mangueira assim, tão antiga, né?
- Deixe eu soprar!...
- Acho que já saiu.
- Cadê! Huuum! Tá é muito vermelho e cheio d’água! Os dois! Mas, não tem nada!
- Deve ter saído quando esfreguei.
- Saiu mesmo! Agora diga o que fizeram com... Como era mesmo o nome dele, vô?
Refeito, o avô disse que o amigo se chamava Joça e que Totonho achou melhor colocá-lo numa casa de repouso, ou seja, num asilo. O pai contestou, à toa. O filho pretendia, realmente, desatar as amarras daquele velho navio, a fim de que ele afundasse noutros mares, além dos seus horizontes. Já não via mais razão para ver seu lindo porto ocupado por uma embarcação à-toa, de porão vazio, costado encarquilhado pelas ressacas e tufões dos anos.
Continuando, João relatou que, taciturno, Joca foi procurar pelos outros três filhos, Vivi, Gil e Lula, esperando encontrar em um deles, pelo menos reconhecimento por tudo que ele havia lhes dado. Entretanto, todos disseram nada poder fazer, diante da exigência  de Totonho.
- O que Totonho exigiu, vô?
- Sendo quatro irmãos, cada um deles ficaria com o pai por um estação.
- E eles não quiseram?
- Não. Cada qual deu suas desculpas... E o pai ficou mais só do que antes.
- O que ele fez depois?
- Foi para seu quarto, já decorado para o primeiro filho de Totonho e Zazá.
- A casa não tinha outro quarto?
- Tinha mais dois: o do casal, o de Joca e outro que Totonho fez de escritório.
- Vô, ele se mudou pra o quarto do escritório?
- Não. Joça tomou ama atitude radical: arrumou as malas. Vendo, a nora ponderou.
- O que é ponderar, vovô?
- Disse que não precisa tanta pressa, que o neto dele só ia nascer dali a cinco meses!
- E ele ficou?
- Não! Sorriu e disse: “Eu também posso morrer daqui a cinco dias ou cinco horas!”. 
- Vô, ele ia morrer?
- Ele só quis dizer que não queria incomodar ninguém dali por tempo nenhum.
- E ele foi pra onde?
- Para uma casa que hospeda pessoas estranha; esgotada e vazia como ele.
- E ele ficou bem, vô?
- Naquele momento, pra ele, qualquer lugar do mundo era melhor do que o lar onde... 
- Vilson! Chama teu avô e venham! O almoço está pronto!
- Za... Elza tá chamando!
- É. Quer ir agora?
- Vamos. Não podemos deixar nos esperando...
- Vô, essa história é verdadeira?
- Pode acreditar! Joca e eu fomos com dois irmãos: sonho e ilusão.
- Se fosse eu não tirava meu pai de casa só pra ficar com o quarto dele!
- É bom ouvir isso de você. Espero que nunca esqueça disso que acaba de dizer.
- Por quê
- É que os pais nunca esquecem os filhos que têm;já os filhos o nunca lembram os pais que tiveram .
- Mas eu vou sempre lembrar do meu, mesmo quando ele estiver bem velhinho!
- Tomara! Agora vamos, antes que sua mãe grite outra vez!
- Pensei que não tivessem me ouvido. Você, mocinho, vai tomar banho rápido, se quiser almoçar com seu avô!
- Vô, me espere! Quero que me conte outra história, antes de voltar para sua casa! 
- Aquela mangueira, mesmo sem a casa, ainda guarda muitas histórias, não é seu João?
- Elza, sabe dizer se Vivaldo, Gilson e Laurência vêm aqui, hoje?
- Agora mesmo tocaram a campainha e Antônio foi... É Laurência!
- Olá, paizão! Parabéns pelo seu dia!
- Obrigado, Luli! Obrigado!
- Oh, pai! Há quanto tempo você não me chama assim! Sinto tanta falta! “Luli!...” Quanta saudade, papai! Que saudade!
- Minha filha, não precisa chorar. Saudade sente seu velho pai de quando ainda era “Joca”...
- Eu também, papai.
- Eu imagino! E é dele, certamente, de quem você mais sente falta! No entanto, são nomes, filha! Nomes apenas, nada mais.

Do livro Pequenas Histórias Pedaços de Vidas.

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