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LEOMAR BARALDI






O ROUBO DA BICICLETA DO DENTISTA

                                                      
 
Dr. Boticão, emérito dentista, conceituado obturador, bom no exercício do motorzinho, no manejo e destreza na arte de restaurar coroas e abcessos erosivos em dentes cariados ao extremo. Porém temido pelas crianças. Mais por sua aparência. Alto, de longos braços, de cabeleira vasta e espetada, dava a impressão que raramente penteava o cabelo, pestanas grossas e espessas sobre os olhos como se fossem ponto de espera de circular. Seu olhar lembrava o olhar de um cientista maluco prestes a descobrir uma fórmula mirabolante, ou aquela imagem do cientista maluco que está prestes a pôr em experiência uma máquina acoplada a um chimpanzé e a um ser humano só pra ver o resultado. Seus gestos eram espalhafatosos, exagerados quando dialogava. Gesticulava tanto que certa vez chegou a meter a mão na cara do turco Marrah, que mandou a peruca dele longe. Na sua empolgação era um desastre. E o seu caminhar? Parecia um boneco andando. Dava a impressão de o Frankstein andando. Na rua quem topava com ele pela frente era melhor livrar a passagem senão poderia ser atingido por seus sapatões sem destino.
Dr. Boticão era uma pessoa singular e única, sem dúvida iria ser lembrado por toda a história de Morro Alto do Caruru. Acima de tudo pessoa carismática, todos o queriam bem. Cuidadoso em seu trabalho, apesar de quem o visse caminhar pelo consultório atribuía-lhe os mesmos traços de um carrasco procurando um instrumento de extermínio. Comentava notícias, fatos, acontecimentos do país, do mundo. Esportes, política, ciência, mulheres. Com o assunto de mulheres tomava logo uma dinâmica quase total. Desnudava as mulheres, as bonitas e gostosas.
Comentava economicamente as mulheres: mulher tem que ser econômica em roupas, mulher com poucas roupas são as melhores; politicamente: você tem de ser o único candidato na eleição do seu coração; cientificamente: uma bomba atômica não consegue destruir o que 900 mulheres juntas e aborrecidas por causa de uma unha quebrada ou um detalhe em sua estética que tenha saído errado, conseguem; geograficamente: toda mulher é um abismo, todo cuidado é pouco ou cairá definitivamente para o esborrachamento certo lá embaixo; agricultura: uma mulher um dia vai te mandar plantar-batatas; necrófilas: a mulher não vai ter sossego e paz até vê-lo morto. Mas está mais que provado, um homem não vive sem mulher.
Dr. Boticão toda manhã saía com a sua bicicleta para a sua corrida matinal, acenava para todos, conhecia todos na cidade. Muitos se lembram daquela vez que praticava o seu ciclismo pela manhã, parou um pouco em frente à padaria do seu Gonçalves, comer um pão com manteiga saboreando o café passado na hora, era um dos prazeres que não dispensava (pequenos prazeres, como ele mesmo denominava). Descuidou-se uns minutos da sua bicicleta na calçada. Foi o bastante para um ladrão larápio se apossar dela e sair pedalando em desabalada carreira pela rua. Pessoas que já conheciam o ladrão -em cidade do interior é tão romântico que todos conhecem os ladrões, e o delegado quando consegue colocar a mão em cima deles, apenas diz para o suposto ladrão: "Por favor, não faça mais isso que é feio e é pecado também!" -pessoas se puseram a gritar: "Roubaram a bicicleta do Dr. Boticão! Roubaram a bicicleta do Dr. Boticão!"
O dentista largou o seu pão com manteiga que se precipitou sobre a xícara de café e de um salto estava na frente da padaria, procurando a bicicleta. Viu ao longe o meliante fugindo com ela. Não pensou duas vezes, se pôs a correr atrás do ladrão. Corria como se fosse um doido, com as suas pernas estabanadas, pernas que saíam peludas do short azul marinho. Todos sairam à rua para verem a cena. O ladrão com a bicicleta na frente, Dr. Boticão na corrida, na tentativa de alcançá-lo. Percebia-se nitidamente que o cirurgião-dentista não conseguiria.
Neste dia estava sendo realizada a feira semanal da cidade. O pessoal escolhia verduras, legumes e frutas, distraidamente. Quando atravessou entre eles o ladrão na maior velocidade que conseguia imprimir na bicicleta. Esbarrou em pacotes, fez um malabarismo maluco para desviar de uma senhora que cruzava o caminho entre as barracas na intenção de escolher uns quiabos na barraca defronte. A mulher fez uma careta e pronunciou um palavrão. Nem dois tempos e deu de cara com o Dr. Boticão, cansado, suado, ofegante, na perseguição ao ladrão da sua bicicleta. Foi desviar da mulher, atabalhoadamente, calculou mal a curva que teria de fazer e entrou na barraca dos quiabos e derrubou tudo. Rolou ele por cima do seu Túlio, quiabo rolou para todo lado. Levantou-se se livrando dos quiabos, procurando se o ladrão ainda estava à vista. Nisso já havia ganho uma boa dianteira. Dr. Boticão não hesitou. Na guerra tudo é permitido. A barraca dos côcos. Côco baiano, os mais duros que a natureza já produziu. Dr. Boticão apanhou um côco na mão. "Dois reais!". disse logo a dona Zerilda. "Pode deixar que eu pago", respondeu o caro odontólogo. Numa posição da estátua de Discóbolo de Atenas, Dr. Boticão, segurando o côco, com a sua altura toda, aquilo em sua mão parecia uma bala de canhão daquelas antigas, com a diferença dessa ter pêlos e a impressão de ter dois olhinhos meigos apreciando o movimento. Bem segura e firme em sua mão. Uma perna adiantada, a outra afastada, para ganhar potência no arremesso. Como um exímio jogador num campo de golfe, estudava todas as forças físicas em ação naquele momento: umidade do ar, pressão atmosférica, temperatura do ar, direção e velocidade do vento. Se lançou numa pequena corrida para ganhar impulso, avançou cinco passos e lançou o côco baiano. O côco viajou como um míssil teleguiado, um míssil de precisão tecnológica. O ladrão com a bicicleta ganhava uma boa distância. O côco viajava numa velocidade e numa força impressionante. O ladrão já antegozava a sua vitória sobre o Dr. Boticão. Rejubilava-se por dentro. Ria internamente de glória. Como é bom sentir os louros da vitória. Pontos pra ele. Pedalava com mais afinco, com mais determinação, com mais destreza. Foi como um eclipse do sol. Tudo se apagou. O côco baiano acertou bem no meio da sua cabeça. A perda de controle da bicicleta foi imediata. Foi de encontro a um carro estacionado numa calçada, e caiu no chão.
Recuperada a bicicleta, o cirurgião-dentista foi todo feliz para casa.

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