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LEOMAR BARALDI






TÃO PERTO E TÃO LONGE

Juvêncio era uma pessoa normal, como outra pessoa qualquer. Fazia o que uma pessoa normal faz. O que uma pessoa normal faz? Só uma pessoa normal sabe dizer. Como uma pessoa normal, Juvêncio tinha pretensão de casar. Teve várias garotas na sua vida, mas possivelmente nenhuma havia atendido aos seus requisitos. Resumindo, nenhuma deu certo.
Juvêncio não tinha sorte em seus amores. Mariana por exemplo. Estava esperando ela dizer que o amava. Mas ela olhou dentro dos olhos dele e disse: "Juvêncio, você é simpático, bonito, tem um porte atlético, é inteligente... Um dia vai encontrar uma garota que lhe queira de verdade.”
Com a Suzane. Um dia foi levar flores para ela. Ajeitou a gravata, com um terno emprestado (o terno conseguiu apanhando de um espantalho colocado no meio de uma roça de milho). Sapato social. Parecia sei lá eu o que daquele jeito. Não sei se hoje em dia as pessoas vão na casa da namorada dessa maneira.
Com as flores na mão bateu na casa dela. Azar dele, veio o pai dela atender. Um sujeito grandão, de camisa regata com as mangas cortadas, os pêlos do peito eminentes, os pêlos dos sovacos, descomunais. Foi com uma voz de trovão que recebeu Juvêncio:
-O que você quer?
Todo trêmulo, ficou sem saber o que falar.
-Diga logo, o que veio fazer aqui? Trazer flores?
O homem pegou as flores e mastigou um punhado.
-Aharg! Que coisa horrível. Nem dá pra fazer uma salada. Mas o que quer mesmo? Vamos, desembuche!
Juvêncio saiu numa disparada.
Daí um pouco aparece a filha:
-Quem era, pai?
-Ah, um maluco, apareceu de terno e gravata, não disse nada e sumiu correndo.
-Puxa, será que era o Herald? Pai, da próxima vez me chama.
-Filha, esses seus namorados, da próxima vez não respondo por mim.
Desanimado com as garotas, deu-lhe uma idéia: ir para uma cidade distante. Quem sabe. Deixou Itapevinha do Norte. Foi para Curvelo, distante mais ou menos trezentos quilômetros.
Uma cidade grande, portanto seria fácil arranjar uma garota. A viagem foi difícil, as estradas estavam ruins, teve até que dormir pelas estradas. Enfim, dois dias depois, chegou. Procurou a casa da sua tia, se acomodou. Na primeira noite não saiu porque estava cansado.
Na segunda noite se enturmou com alguns universitários. Lhes mostraram algumas garotas, mas com poucas perspectivas de progresso nas suas investidas.
Foi indo, foi passando o tempo. Um dia, parece que estava no lugar certo, na hora certa, sabe, essas coisas.
Se aproximou dela, houve uma atração. Conversaram um bom tempo.
-Estou gostando dessa cidade. -disse ele.
-É uma cidade agradável.
-Essa cidade está me dando sorte.
Só que ele não explicou por quê.
Um dia resolveu perguntar pra moça o seu nome: Ciça.
-Essa cidade também está me dando sorte. -disse ela.
-Puxa, que coincidência. Quer dizer que você não mora aqui?
-Não. Eu sou de Itapevinha do Norte.
Juvêncio começou a rir. Não tinha explicação a vida. Os dois sairam de Itapevinha do Norte atrás de um amor para suas vidas, viajaram trezentos quilômetros para se encontrar. É a vida.

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