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Ana Flores






QUE VENHAM OS SUPER-HERÓIS

Nem sempre os pobres mortais conseguem solucionar os vícios crônicos de uma cidade, como por exemplo motoristas fechando os cruzamentos em sinais. Nada que um pouco de disciplina e bom senso não resolva, mas essas qualidades andam tão difíceis no mercado, que bem que dá vontade de apelar para os super-heróis, que, afinal, estão aí para isso mesmo. Quem não tem cão, caça com supercão.
Para começar, em dois tempos o Super-Homem faria o planejamento e a execução da sincronia inteligente entre os sinais de tráfego. Só isso talvez não desse jeito nos motoristas que se sentem o máximo tumultuando o trânsito; mas cá pra nós, ser içado das ruas com carro e tudo pelo Super-Homem e despejado numa escolinha de motoristas não seria nada mau para baixar topetinhos arrogantes...
Já o Homem-Aranha, com sua facilidade em grudar-se nos prédios e escalá-los, ajudaria o prefeito a pedir aos pichadores uma limpeza geral nas fachadas, muros e monumentos da cidade e, de quebra, uma desacelerada nos próprios egos, quem sabe escolhendo outras superfícies nem públicas nem alheias para suas manifestações artísticas. Com o Homem-Aranha ajudando na faxina, que pichador se negaria a colaborar?
O Batman, este sim, seria o braço direito da governadora no combate à bandidagem de qualquer classe. Quem melhor que o morador de uma caverna (digna, aliás, de uma Casa Cor futurista), para ajudar a desentocar quadrilhas inteiras de lugares inacessíveis aos policiais? E com aquele carro maneiríssimo que faz coisas do arco-da-velha, não haveria centímetro quadrado deste estado, do interior ao litoral, que não fosse vasculhado pelo gatão mascarado. Seu parceiro, Robin, se ocuparia das crianças e adolescentes que continuam sem escolas e sem quase tudo, e convenceria as autoridades sobre a importância da formação de cidadãos plenos, e não da criação perversa de espectros de gente jogados na rua.
O Fantasma, com aquela idade toda mas ainda inteiraço, acompanhado de seu inseparável Capeto daria um basta aos maus tratos infligidos a animais, à sua utilização como cobaias, ao comércio clandestino de várias de suas espécies. Separaria de seus cães os proprietários que os treinam para serem assassinos e os faria rever o conceito de “tradição” para que espetáculos patéticos como o da Farra do Boi e similares fossem extintos de vez.
E, finalmente, o Zorro que, com sua educação refinada, seu charme latino e sedutor, traria de volta a gentileza entre as pessoas que se cruzam nas ruas, nos prédios, nos transportes coletivos e no trabalho. E influenciaria os legisladores a serem mais humanos com os idosos na hora de criarem leis e decretos. Cada lei criada dentro desse novo padrão, e sem demagogia eleitoreira, seria carimbada com um belíssimo “Z” e liberada para entrar em vigor.
Dizem as boas línguas que os super-heróis já moram em nós; o que falta é acordá-los para que comecem a trabalhar. Mas tomando cuidado com lascas e respingos de criptonita, pois nem todos os habitantes de uma cidade estão interessados na cura de seus vícios crônicos.

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