Apelido:

Senha:


Esqueci minha senha







Giovana Damaceno






Flagra de traição no shopping

Uma gritaria surpreendeu e assustou os clientes do café do shopping. A primeira reação foi de frio na espinha, pois estávamos no subsolo e sair correndo dali na emergência não deve ser algo fácil. Parados, tentamos ouvir o que se passava e de onde viriam os gritos. Mas, sequer conseguíamos entender o que aquele homem vociferava. Sim, a voz era masculina; isso pudemos identificar. As pessoas que desciam a escada rolante também olhavam assustadas para baixo, mas a confusão estava armada atrás do café, ou atrás da escada rolante. Pude ver o segurança na porta de uma loja, mas foi preciso um de nós se levantar para saber do que se tratava (mesmo com medo, curiosidade tem que satisfeita, né?).
 
E o motivo do breve tumulto foi um flagrante de traição. A mulher foi pega de surpresa pelo noivo, enquanto curtia um romance com o outro, ali mesmo, no balcão do café. “Sua vagabunda! Tá me traindo?! Isso não vai ficar assim, sua vadiaaaaa!”, relatou a garçonete. A mulher escapou para dentro de uma loja e lá foi protegida pela balconista. O noivo traído sumiu na chuva do domingo à tarde. E nós, pasmos, voltamos aos poucos às conversas regadas a cafezinho com creme. Claro que o fato virou assunto. “Traição no shopping? É burrice ou acha que vir com o amante a um lugar público é menos bandeira?”. E a garçonete emendou: “Já é o segundo barraco aqui esta semana pelo mesmo motivo. Uma outra mulher estava bem na boa quando chegou o marido e pegou no flagra. O coitado do amante ficou escondidinho ali. Maior mico!” Uau! Quer dizer, então, que além de estarem animadíssimas nas relações extras ainda levam para o shopping, na cara de pau?!
 
O noivo, por sua vez, também marcou. Passar recibo de traído em público e aos berros? Talvez fosse menos vergonhoso sair de fininho e armar o fuzuê em casa, com a noiva – ou ex. Mas, traição é uma das maiores causas do “sair do sério” que conhecemos, por motivos que vão da rejeição, da honra maculada, à perda do que pensava ser objeto pessoal instranferível. E aí, na hora do ódio incontrolável, cospem-se abelhas e marimbondos em qualquer lugar. E, claro, vira o palhaço da hora.
 
Aliás, vamos combinar que traição é assunto sério, que não caberia tamanha discussão numa crônica, mas, gostamos de falar sobre isso, incansavelmente. Pra mim não existe infidelidade pura e simples; existe, sim, insatisfação. A criatura não está satisfeita com o que tem e topa sair da rotina de vez em quando. Não saberemos nunca os motivos do insatisfeito ou insatisfeita para preferir trair a terminar a relação, seja ela namoro, noivado ou casamento. Mais cômodo dar uma escapadinha: vai ali, saboreia um prato exótico e volta para o arroz com feijão. Claro que há os insatisfeitíssimos, talvez compulsivos, que merecem tratamento psiquiátrico contra compulsão sexual. E se traição, a meu ver, é um caso de insatisfação, melhor mesmo tocar a vida e fingir que infidelidade não existe.
 
Ruim para os machistas de plantão, que até agora pensavam que somente eles tinham direito a dar uma fugidinha de vez em quando “porque sou homem, pô! É da minha natureza”. Ah, tá. Pesquisa da psicóloga da UFRJ, Miriam Goldenberg, enviada a mim pelo meu amigo Gil Rosza, mostra que 60% dos homens afirmam já ter traído, contra 47% de mulheres. E enquanto a rapaziada continua batendo no peito justificando o instinto, cada vez mais mulheres não só olham, como devoram o galo do vizinho, para sair daquela “mesma mesmice” de sempre. Ou seja, insatisfação. O maridão já está causando certo... enjoamento. Só não se espera que este mulherio todo resolva suprir as faltas domésticas no shopping. Afinal, a gente gosta de tomar um cafezinho em paz.

Tempo de carregamento:0,03