Maria Francisca dos Santos Lacerda






A estátua e a moeda

 A ESTÁTUA E A MOEDA
 
O trânsito fervilhava.
O dia ia findando e a pressa dos transeuntes transformava-se em febre, com aquele troca-troca de lado nas ruas, como formigas perdidas após um caminho interrompido. As reformas da companhia de saneamento tomando conta de uma pista, as buzinas desataram a berrar estrepitosamente, porque todos tinham pressa, muita pressa, e os sinais de trânsito naquela indecisão momentânea entre o verde e o vermelho, porque o sol, no seu descambar,  brilhava sobre os faróis.
Apenas uma estátua estilizada continuava imóvel no seu branco prateado, no sinal de trânsito, como se a vida se resumisse naquele seu canto soberbo, naquela postura de Zeus, que tudo sabe e tudo pode, sempre em silêncio.
Ninguém se importava. Os carros iam passando com suas buzinas e lá está ela impassível. Quando paravam os veículos,  aparecia um meninozinho, tendo às mãos uma cestinha, aproximava-se dos motoristas, para que moedinhas viessem coroar de êxito a imobilidade da estátua.
Uns nem olhavam, outros, de vidro fechado e escuro, olhavam e não viam.
 Outros, não queriam ver.
            E eu, ali, aguardando a minha vez, estava perto do homem-estátua, quando vi que ele descia do pedestal e aproximava-se dos carros, talvez na tentativa de sensibilizar os motoristas, para que valorizassem o seu trabalho. Não parou perto de mim. Eu estava invisível dentro do carro, pela  película protetora. Dirigiu-se aos demais carros, mas, mesmo assim, vi que todos só olhavam pra frente, tamanha a pressa, a aflição de ir embora,  ou talvez tentando esquivar-se daquele homem, que tanto incomodava.
Depressa, porque o sinal estava prestes a dar-me passagem, chamei o homem-estátua, para lhe dar a moeda que guardara no porta-luvas do carro, para uma ocasião como aquela. Ele veio, cheio de esperanças. Abri o vidro do carro. Dei-lhe aquela moedinha de nada, até com vergonha,  e olhei nos seus olhos.
Eram grandes olhos negros. Estavam rasos dágua.  Estendeu-me a mão. Eu ainda brinquei pra disfarçar: não vá sujar de tinta as minhas mãos. Ele apenas balançou a cabeça num gesto negativo com um sorriso débil.  Dei-lhe a mão. Ele, com toda cerimônia, beijou-a. Meu Deus, que sensação estranha senti! Aquele homem maduro, ali naquele sol, emocionado por uma moedinha, ou seria pelo meu gesto de falar-lhe?
Nem tive tempo de pensar muito.
Os carros já buzinavam atrás de mim, freneticamente, e não tive outra alternativa senão seguir em frente.
Voltei àquela esquina outras vezes.  A vergonha fez-me voltar.  Ele não está mais lá. 
Mas os carros buzinam, e transeuntes, tal qual formigas perdidas,  continuam a maratona diária,  olhando, sem ver.

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