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Nelson Hoffmann






O CORAÇÃO DO PE. ROQUE

Parecendo criança, desde criança eu faço a pergunta:
- Quem anotou?
Eu falo da fala do coração do Pe. Roque. Desde pequeno ouço falar da admirável ocorrência que sucedeu à morte do Pe. Roque González de Santa Cruz, o São Roque Gonzales, da Igreja Católica. Morto o Padre, queimado o corpo, o coração continuou vivo e falou. Flechado para que calasse, o coração permaneceu intacto. Guardou em si a ponta da flecha e assim continua, até hoje. Guardado em relicário, peregrina pelo mundo. Há pouco esteve aqui, em nossa Cidade. O coração voltou ao lugar onde pulsou, em vida, e os pés do mártir pisaram em missão de abertura da História do Rio Grande do Sul.
A primeira vez que visitei o local do martírio do Pe. Roque Gonzales foi por fins dos anos 40. Lembro-me da madrugada escura, do velho caminhão Chevrolet, da cor verde do caminhão e da carroceria aberta e sem tolda. Nós, um mundo de gente, todos empoleirados lá no alto, com vontade de fazer festa e medo de cair. O caminhão chacoalhava demais, a buraqueira era uma só. A viagem demorou muito embora a distância fosse curta, cerca de trinta quilômetros. Não lembro a hora da chegada ao local, mas lembro que eu estava com fome. E lembro que estavam todos tapados de pó, ninguém se conhecia mais. Era novembro, fazia um calor dos diabos e a polvadeira enevoava a solama.
Logo depois, já na década de 50 e estudando em Seminário, tornei uma série de vezes ao local do martírio. Íamos a pé, os seminaristas, caminhando em procissão, rezando e cantando. Cruzávamos potreiros e campos, varando sangas e canhadas, renteando capões e subindo coxilhas. Aos poucos, ainda um pouco longe, no alto da Coxilha do Caaró, o pequeno santuário. Redobrávamos a força da cantoria (Salve, Roque, nobre filho/ Do glorioso Paraguai/ Vosso amor não é detido/ Pelas ondas do Uruguai...) e chegávamos, beirando o meio-dia. Com fome.
Depois mais, sempre que pude, fui. Tantas vezes fui que não há possibilidade de calcular o número. Incontáveis vezes. Toda vez que passo perto e há chance, visito o local. Sinto-me bem, sinto paz.
O local infunde paz. No alto da coxilha, o pequeno santuário. Ao redor, um bosque; mais adiante, uma fonte de água dita milagrosa. Ao lado do santuário, monumentos em homenagem aos Três Mártires das Missões.
O Pe. Roque González de Santa Cruz foi morto nesse local. Tinha ele rezado sua missa matinal e aprestava-se para alçar o sino ao alto de uma pequena torre, junto à capelinha da redução. Quando o Padre se inclina para proceder à amarração do sino, é surpreendido por violentos golpes de itaiçá. Cai morto.
Isto aconteceu em 15 de Novembro de 1628, em Caaró, no atual município de Caibaté, RS. Na seqüência, as vestes do Padre são arrancadas do corpo e o corpo é dilacerado. Ao final, os despojos são arrastados para dentro da capelinha e a tudo é prendido fogo.
Os matadores voltam no dia seguinte, para confirmar o sucesso da façanha. Estranham que o corpo do Padre queimou pouco. Juntam lenha e preparam-se para nova fogueira. Nisto, com grande estupefação sua, perceberam clara e distintamente uma voz queixosa saída do coração do padre Roque, que lhes dizia que ele havia vindo àquelas terras para o bem de suas almas, acrescentando: “Matastes a quem vos amava e queria bem; matastes, porém, somente o meu corpo, pois minha alma está no céu. E não tardará o castigo, porque virão meus filhos para castigar-vos de terdes maltratado a imagem da Mãe de Deus. Mas eu voltarei para vos ajudar, porque muitos trabalhos vos hão de sobrevir por causa da minha morte” (Pe. L. G. Jaeger, “Os Heróis do Caaró e Pirapó”, p. 245).
Estas palavras também estão gravadas, em síntese, no monumento erguido ao Santo Padre Roque, no local do martírio. E são estas palavras, a fala destas palavras, o fato que sempre me intrigou. A criança que eu fui, naquele tempo longínquo, de imediato questionou:
- Quem anotou?
O Pe. Jaeger, que é meu guia em jornadas pela trilha dos Três Mártires das Missões, argumenta, à mesma página 245: A veracidade destas ou semelhantes palavras foi mais tarde unanimemente atestada perante cinco religiosos, diversos soldados espanhóis e numerosos índios, por cinqüenta e três caaroenses que caíram prisioneiros, testemunhas pessoais e imediatas desses sucessos.
Sim, sim, tudo bem. Até pode ser. Mas, esses caaroenses...
Sou admirador confesso do Pe. Roque Gonzales. Quanto mais lhe estudo a obra e quanto mais lhe penetro a vida, mais cresce em mim a pequenez diante de sua grandeza. E sinto muito orgulho de saber que esta minha terra foi um dos pórticos de entrada desse Desbravador do Rio Grande do Sul.
Só que, não adianta, a teima permanece. Desde a primeira viagem:
- Como é que sabem? Quem anotou?
Isso não parece mesmo coisa de criança? Birrenta, lógico! Ah, eu sou?!

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