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LEOMAR BARALDI






O HOMEM QUE CASOU-SE COM UMA ABÓBORA

 
O amor é inexplicável e sujeito a transformações. Caso este que veio a acontecer com Osório. O dado caso se passou numa praça de uma pequena cidade do interior há muitos anos atrás. O interior é muito cheio de crendices. Dizem que se for homem não pode abrir guarda-chuva dentro de casa que não casa mais; não pode ter o pé varrido, senão vai ficar pobre pro resto da vida. Se for mulher não pode debaixo de rédeas de um animal preso. Não pode sentar no canto da mesa, senão fica pra titia. Mulher grávida não pode atravessar cerca de arame farpado cortando por meio dos fios, senão o filho nasce malandro e analfabeto. E essas coisas todas.
Foi numa noite de quermesse. Quermesse à Nossa Senhora do Rosário. No interior para se arranjar namorada, só em quermesse, festa junina ou procissão.
Osório tinha visto uma garota, a Leila. E parece que ela tinha ido com a cara dele. Se aproximaram, começaram a conversar:
-Oi!
-Oi!
-Meu nome é Osório.
-Meu nome é Leila.
-Comprei um burro bão, percisa de vê!
-É!?
-Cê num querdita qui burro bão. Tão bão qui só farta falá.
-É Osório!?
-Burro respeitado aquele. Um fio de arame na cerca e ele não passa a cerca.
Conversa vai, conversa vem, Osório perguntou:
-Qué uma paçoca?
-Eu quero sim, Osório.
E passeavam pelas barracas da quermesse. Instantes depois:
-Qué outra paçoca? –perguntou ele.
-Ah, eu quero sim, Osório.
Compraram outra paçoca e caminhavam pela festa. Osório mostrava a lua e as estrelas para Leila. Pouco depois:
-Qué outra paçoca? –perguntou Osório.
-Quero sim. –respondeu Leila.
Mais uma volta pela festa. Depois:
-Qué outra paçoca, Leila?
-Quero sim, Osório.
Daí um pouco, sentados num banco da pracinha.
-Cê ispera um poço Leila, que eu perciso com certa urgentia i ali no banheiro faze um serviço qui outro num pode faze pur eu.
-Boa sorte, Osório.
-Cê espera eu aqui?
-Espero.
Contava-se àquele tempo muitas histórias de assombração, de moças mortas que andavam entre os vivos. Contavam que algumas viravam mulas-sem-cabeça, outras viravam peixes tipo sereia que atraíam pescadores desavisados para trechos mais profundos dos rios, essas coisa todas.
Leila ficou ali esperando Osório. Mas deu certo que justo naquele momento passaram por ali os pais dela. E temendo que descobrissem Osório e o possível namoro, ela se juntou a eles, aliás que estavam de volta para casa. Leila não havia contado para Osório, mas era de São Paulo e talvez naquela madrugada estariam voltando para a capital. Foi embora.
Ali ao lado havia uma barraca onde se fazia doce de abóbora. Como já estava quase perto de meia-noite, pouco movimento na festa, o barraqueiro resolveu encerrar o expediente por aquela noite. Mas havia sobrado uma abóbora, grande, vistosa. Colocou a abóbora bem onde Leila estava sentada. Pois recolhia seus apetrechos para ir embora, descansar. Só se sabe que pegou conversar com outro colega, e distraidamente, afastou-se e foi-se. A abóbora ficou ali esquecida.
Faltavam cinco minutos para a meia-noite.
Foi quando Osório saiu do banheiro.
-Leila, então... –e viu estarrecido, a abóbora onde estava sentada a moça, -Leila, responde! Leila, meu Deus! Não, Leila. Não, não, não! Leila, responde! Leila, não me deixe! Que horror! Leila, Leila, Leila!
E chacoalhava a abóbora.
-Leila, por quê? Por quê? Por quê? Por quê? Olha para você! Por que você escondeu isso de mim? Leila, Leila? –e chorava e soluçava, e lastimava ao mesmo tempo, -Não, Leila, isso não está acontecendo! Diga que não!
Só se sabe que Osório levou a abóbora para casa, e não deixou ninguém importunar a Leila. Arranjou um canto onde aconchegava a abóbora, nas noites de frio cobria Leila com o cobertor.
Acabou casando com a abóbora, mesmo diante dos protestos do padre Carlinhos que não achava certo casar um homem com uma abóbora. Era o cúmulo do ridículo.
-Padre, eu amo essa abóbora, ou seja, a Leila.
A cerimônia foi simples na igreja da praça onde ambos se conheceram e infelizmente Leila virou uma abóbora.
Espera até hoje que a abóbora se transforme novamente em Leila.
Por incrível que pareça nesse tempo todo se manteve fiel a abóbora. A hortaliça da sua vida.

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