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Leonardo Campos






Consulta.

Tão escuro..e, tão cheio de si. Não que qualquer outra pessoa ao seu redor parasse para notá-lo. Quando o faziam era triste, era demais, ele diria que insuportável, e ainda sim suportável, pois se, realmente fosse insuportável, ele não estaria mais vivo, estaria? Gostava de pensar assim. Gostava de saber que a mente dele era dele, e não de certo alguém, acomodado no conforto de uma escura esquina, ou de um desvio de uma mente perturbada. Incompreensão, não loucura, loucura era demais, gostava de pensar. Não era como se ele corresse pelas ruas esfaqueando pessoas, e bebendo seu sangue. Isso era loucura, e ele não era louco. Conhecer as pessoas, era o que gostava de fazer.
 
Poderia não ter nascido, era o que pensava constantemente, sim, podia. A idéia de tirar a própria vida, sempre pairava por seus pensamentos, mas nada muito concreto. Seria uma cura, se ficasse doente. Uma saída, se estivesse preso. Mas nenhum dos dois lhe ocorria, logo, vivia.
 
 
Suspirou.
 
 
- Olá, boa noite, tenho uma consulta macada para hoje às sete. - disse, enquanto abria um sorriso sorrateiro no canto da boca, aquela tentativa erronea de ser normal, de o parecer. "Ó querido, pessoas normais não vão ao psiquiatra." " Vão sim, vão sim. terapia faz bem, não importa para quem ou porque, faz bem, faz bem."
 
- Sim, está marcada aqui, sete horas, o doutor irá atendê-lo - respondeu a secretária, enquanto o fitava com um olhar de pena, através daqueles olhos azuis, e das sardas que preenchiam aquele rosto jovem.
 
-Obrigado. - dirigiu-se para a sala do psiquiatra, ele estava sentado olhando para a foto de um dos filhos, soltou um suspiro e disse:
 
- Meu filho, foi seu aniversário de oito anos hoje, ele disse que quer um carro acredita, um carro..
 
- Para se trancar na garagem, e esperar uma morte por asfixia? - respondeu, enquanto se sentava em um dos pequenos sofás estrategicamente localizados naquela sala de paredes vermelhas, com cópias baratas de Picasso e Pollock. Até que gostava de Pollock, interessante.
 
- Ah..! É você.. - resmungou o psiquiatra enquanto soltava um suspiro de decepção.
 
- Que ótimo jeito de começar uma consulta não? Suspirando na cara do paciente, enquanto demonstra todo seu desprazer em recebê-lo, lindo, lindo, lindo.
 
- Como se você ligasse para qualquer coisa que eu digo, como se ligasse para os conselhos, ou a hora que passamos aqui, discutindo o porque da existência, porque das células fazerem mitose invés de copularem, ou porque seus conhecidos hipotéticos sempre aparecem desmembrados nos jornais..ou talvez, porque o chá, não vem com ervas adocicadas, ao invés de amargas..deixe-me adivinhar, hoje, vamos ver, hoje você vai me dizer que conheceu uma garota, talvez? - O psiquiatra levou as mãos ao rosto, esfregava-o lentamente, como se tentasse apagar algo de sua memória, ou talvez, toda ela.
 
- Você é praticamente um leitor de 'almas', não? Mas sabe, ela tem uma cabeça interessante, de certo modo. " Para se abrir, quem sabe." Não.
 
- O que?
 
- Nada.
 
- Então é uma garota mesmo?
 
- E se fosse um garoto, doutor? O senhor trata seus pacientes com preconceito? Onde está a sua ética, tsc tsc..
 
- Por que ainda te recebo aqui, por que?
 
- Por que o senhor precisa de mim, tanto quanto preciso do senhor; você precisa de alguém que mostre constantemente, que o mundo não é o Éden, que as pessoas são podres. Você precisa de alguém que te lembre, que por mais bela que sua esposa de cabelos negros e olhos verdes seja, ela vai murchar, como qualquer flor, sem perdão, sem misericórdia. Você precisa de mim, porque você me usa, para lembrar como a sua vida é boa, como você é feliz. "Feliz, Feliz, Feliz!" Você me usa, porque para si diz que está tentando me salvar, mas eu não preciso ser salvo, por conseguinte, não preciso de você. Mas ainda sim, de certo modo, necessito; então temos essas nossas reuniões noturnas, na qual eu falo, você escuta e o mundo apodrece. "Lindo."
 
- Você está certo, está certo.
 
- A lisonja corrompe quem a recebe e quem a dá; e a adulação não é mais útil ao povo do que aos reis, doutor. Dê voz a sua mente, você só vai viver uma vez, não existe Céu, nem Inferno. Apenas pontos de vista, como o bem, como o mal, como o amor e o ódio.
 
- Mas esse é o seu ponto de vista, você não pode afirmar, que não existe um após, um além. Eu acredito no meu Deus, que criou tudo isso, e esse presente para nós.
 
- Doutor, doutor, dê-se ao respeito, deixe os amigos imaginários para quem pode tê-los. "Que piadista". E, se foi seu Demônio quem criou esse mundo? E se não existe um Deus, e se apenas existe um Demônio, uma entidade maligna que governa os fundamentos desse universo metafísico que você crê tão veemente? Não, você não quer pensar assim, não pode pensar assim, porque seria ruim, seria horrível, pois sofrer é horrivel. Porque somos todos animais tolos, que sofrem por prazer. Nós somos nosso próprio fim, nós criamos aquilo que nos destrói, nós criamos deuses e demônios, para que eles interpretem os papéis que nós, não podemos. Nós criamos a moral, para satisfazer nosso ego, perante uma sociedade rodeada por regras, que nós mesmos criamos, logo, nós atamos nossas próprias mãos, então cria-se os demônios, porque o desejo animal em você, aquela vontade, de subir sobre aquele ser repugnante e estúpido, e esmagar sua cabeça no chão, não pde ser algo que vem de você, não seria "humano" da sua parte. Mas deixe-me contar uma coisa. É! Todos os instintos, os desejos, são todos seus, e puramente seus, você pode negar, você pode escondê-los sob fachadas de vergonha, e pesadas orações, e ditos arrependimentos, mas a verdade é que, a única coisa que realmente inibe as vontades do homem, é a dor. Como os animais, nós somos iguais, a dor nos impede, como a dor nos motiva. Esperança, não liberta ninguém, esperança, prolonga uma dor inevitável, a dor do viver, e transcender o tempo. Mas, ela é interessante. Ela é, e sim, é uma garota.
 
- Tudo isso, apenas para dizer que ela é uma garota? Todo esse discurso sobre universo metafísico, e religião, e morte. Tudo é morte, e morte, é tudo o que você vê.- É tudo - e apenas - o que há para ser visto, é a única certeza que eu, você, e todos os outros temos. Você pode achar que sua mulher é fiel a você, você pode ter certeza disso, você tem. Mas quando sai para trabalhar, ela não perde nem um segundo, em trair tudo aquilo que você depositou nela, seu afeto e confiança, sua 'alma'. Seu filho de oito anos, que tem um pai ausente, que o enche de brinquedos, e logo, ele irá perceber, que você é apenas o intermediário, entre ele e os bens materiais que el pode ter. E quando a hora chegar, ele não irá querer mais o intermediário. Não negue a verdade para si, acolha a verdade, molde-a, transforme-a em um mundo seu, transforme-a naquilo que você quer, qualquer mentira bem contada, é mais interessante que entediantes verdades. A verdade todos conhecem, a verdade é que você queira ou não. Você será- como já é - traído por quem mais confiou, você irá morrer como eu, a diferença é que eu sei disso. E você não. Isso me torna melhor do que você? Não sei, talvez sim, talvez não.
 
- Mas você é louco.
 
-Não, louco não. Eu não corro por ai esfaqueando pessoas e bebendo o sangue delas. Eu só, vejo as coisas. "Não que correr e esfaquear as pessoas não seja legal e..Chega."
 
- E as vozes?
 
- O que tem elas? E não são 'as vozes', você fala como se eu fosse um esquizofrênico, é uma voz só, a minha.
 
- O que A voz lhe diz sobre a garota?
 
- Que ela vai me matar. "Ela vai. Ela está."
 
- E por que ela diz isso?
 
- Porque ela tem medo, como o senhor; ela tem medo de ser abandonada, esquecida. Acho que a diferença, é que o senhor já foi, não?
 
- É sobre você, sobre você, que estamos aqui, e não sobre mim. Apenas sobre você, suas obsessões com morte, com traição, desconfiança, ódio, amor, solidão..a longa solidão. É sobre você, e não sobre mim.
 
 
 
- Mas doutor..,você: sou eu.

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