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José Azevedo Amâncio






A VIDA LÁ FORA

                                        A Marta Farias Soledade, minha mãe.

.

Os olhos que não desgrudam

da televisão, são os olhos

que tem de assistir aula.

A voz da mãe cedo

já diz - Ei, menino, vai estudar.

.

Mas o menino já está

com a vida ganha.

.

O menino não quer ir

lá fora ver a professora,

os coleguinhas de

cabelo pixaim e as meninas

rechonchudas e egoístas

com seus mistos-quentes

na mão, indivisíveis.

.

O menino não quer ir

lá fora ver sua

lancheira rachada

pelo pontapé invejoso

do colega de cabelo liso.

Ver o saci de duas pernas

coberto com pó de café,

uma farça.

Ver a gangorra sem

óleo que range para

o escorregador, o peão

que chegou na última

casa, os reis que sobraram

empatando o jogo,

o velho que dita o romance,

a marcha do dia sete

no sambódromo,

a corrente que caiu

da bicicleta,

a biblioteca trancada,

o pastor que prega

a Palavra, a dor

de barriga persevarante

que assola ao meio-dia,

o pai e o filho que

compram pão de queijo

e o padeiro que pasmado

aponta para trás da

dupla de clientes,

.

a bicuda na bola

ao terreno baldio,

o menino-herói que

pula do muro com

a bola resgatada em

mãos mas que desloca

o pulso ao encontrar

o chão, o mata-leão

no pescoço que encerra

a luta juvenil,

a reunião de família,

o tamborzinho na árvore

de natal, a virada

do ano e a gestação

que começa:

o estrogonofe entra,

a bebida entra,

os fogos de artifício

entram - e o útero já

está entupido e de

repente dá à luz num

jato de vômito em

que se encontram

o estrogonofe, o arroz

e o Menino Jesus de

uns sete dias atrás.

.

Mas o menino sentado

na frente da televisão,

de forma alguma,

quer ir lá fora ver a

negligência de Deus,

o “a benção tio forçado”,

a palheta metida no violão,

o romancista ditando

o último capítulo,

o temômetro no sovaco,

o banho para abaixar

a temperatura, a enxada

que roça o capim,

o prego perspicaz que

roça o pé (ah, que profundo!),

a inchação, a anestesia,

o médico que distrai

o paciente contando

uma história de casamento,

o bisturi embriagado

que vai fundo e

descobre o sangue

e a ferrugem do

prego que desbota

a coloração vermelha

da hemoglobina.

.

O menino sentado

na frente da televisão

não quer ir lá fora

ver a obra póstuma…

A topada do dedão,

a sopa pelas beiradas,

o exame de fezes,

o filme pornô,

o domingo dormente e

a galinha degolada que

aguarda ser almoçada.

Mas não, naquele domingo

dormente, mesmo que

quisesse ver, o menino

não veria o almoço,

porque veria o

irmão atropelado,

o traumatismo craniano,

a alta com sequela,

o remédio controlado.

.

Definitivemente o menino

não quer ir lá fora

ver a queda de energia,

o banho de chuva,

a pizza mussarela,

a aula de anatomia,

o revólver contra a

pélvis do assaltante

que entra na padaria

e não quer  comprar

pão de queijo,

nenhum tipo de pão.

O assaltante vê o

padeiro pasmado

fazendo sinal para

dois clientes…

Pobre menino…

.

Agora o menino não

quer ver o comediante

vaiado, a espinha

espremida e o pus

escorrendo pelo espelho,

a recusa do beijo

pré-adolescente,

as sementes de tomate,

o apêndice sulfurado,

o curso de idiomas,

o primeiro amor,

enfim o primeiro beijo,

o primeiro orgasmo -

tímido, a sífilis

mal-amada, lambuzada, diagnosticada.

A mãe agoniada, a hemorragia,

o sangue pelo azulejo do banheiro,

a laqueadura, o mioma que arregaça

o útero, a menopausa.

.

O menino sentado na

frente da televisão não

quer ir lá fora ver a vida.

Não quer ir para o colégio.

Ele só quer assistir o desenho dele.

.

O menino escondeu o controle,

não quer mudar de canal.

Apenas quer ver as pernas finas

e serelepes do Corajem, o Cão Covarde.

                                 Davi Soledade, 12/01/2011





















 


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