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jose carlos ribeiro






Sou Napolitana, depois italiana

Sou Napolitana, depois italiana.
 
A fé
 
Italiana sim, mas quando alguém perguntasse sobre sua nacionalidade, mais que depressa ela respondia                «  Napolitána » Pronunciava  com carregamento no (tá).
___Mas dona Aninha, Nápoles é Itália, e quem nasce em Nápoles é consequentemente  Napolitana, mas é italiana antes.
___Ma que que.. io so ante de se Italiana, io so Napoliatána e solo. Sono venuto in Brasile, quando era una ragazzina, ma so Napolitana e pronto, dio santo.  Va via va.
Às vezes o povo gostava de deixá-la brava e insistia até ela xingar e na maioria das vezes com palavras pesadas.
___Mas Nápoles está dentro da Itália, a senhora é Italiana.
___Dio santo ! Madonna mia. Porco cane. Va va per culo...vá. Nella mia vita comando mi, io sono napolitana, cazzo.
Ela adorava o senhor cônego da igreja de nossa Senhora do Rosário daquele cidadezinha mineira. Quando alguém gritava no portão o nome do cônego, ela estivesse onde estivesse largava tudo e vinha para o portão esperar o cônego passar e pedir sua benção. A molecada era danada, sempre tinha um no seu portão gritando.
___Dona Aninha, dona Aninha! Corre aqui. Olha o jeep do senhor cônego.
Gritava e saia correndo.
___Madona mia, cadê o  segnore cônego, cadê? Dio santo.
E vinha correndo para o portão enxugando as mãos no avental e arrastando o chinelo que fazia um grande barulho.
___Maria vergine, porca la miséria, cadê o signore cônego? Io non vedo niente dove, dove?
E logo xingava em italiana.
O senhor Marinho que entendia o dialeto dela, dizia que era os mais feios palavrões, impossivel de repetí-los.
Em janeiro logo que passava a festa de são Sebastião lá ia a dona Aninha na igreja pedir para o senhor cônego ir a casa dela benzer sua parreira. O cônego marcava e nesse dia era festa total para ela; limpava a casa, engomava todas as toalhinhas de crochê da cristaleira que ela mesma havia feito. Acendia a pequena luz que tinha junto a imagem do sagrado coração de Jesus. Fazia uns deliciosos bolos de fubá e deixava a água no fogo borbulhando para passar o café. O dia inteiro ela ficava na expectativa do senhor cônego aparecer se ele não havia marcado hora. Vez ou outra um moleque ou uma menina que sabia da visita do padre, aparecia lá no portão e gritava:
___Dona Aninha, olha o jeep do cônego.
Era uma loucura total, alucinada ela vinha arrumando o cabelo, batendo levemente na roupa, cuidando do seu visual para não estar com aparência má ao se apresentar para o santo padre. Quando via que era só a molecada que estava a bulir com ela, xingava.
___Quale  il figlio de putana lo denomina?
Como não tinha ninguém nas imediações ela entrava de novo correndo e arrastando o chinelo.
Lá por volta da cinco da tarde, parava na frente ao seu portão o jeep azul do senhor cônego e dona Aninha ficava maravilhada e se punha a ronrosnar que não parava mais.
____Madona mia, per Dio santo,  su benção, signore Cônego. Quantum di felicità nella mia cassa . Dio mio. Dio mio.  Madona mia. Quantum di gratia.
Ai ela tirava uma cantiga religiosa de nossa senhora das dores no idioma italiano só para receber o padre e fazia gestos com os braços demonstrando alegria total:
___Favori  che diamo allá signora
vergine per il Dio scelto
per i madre dello  di  redentor
a voi dei dolori .
 
O cônego acendia o incenso e dava inicio em seu benzimento na grande parreira. Dona Aninha sassaricava na frente do padre de tanta felicidade. Ele, o padre benzia os quatro cantos do quintal da casa. Daí ele dizia.
____Pronto dona Aninha, Deus abençoou sua parreira, em setembro vai até quebrar os galhos de tão graúdos que serão os cachos de uva. Vai ver só.
Ela toda feliz agradecia o padre com as mãos postas, enchia os olhos de lágrimas pelo fato.
___Grazie, signore padre, grazie.
___De nada, dona Aninha.
___Viene, padre mangiare una parte della torta del fubá.
___Não precisa se incomodar comigo, dona Aninha.
___Mangiare una parte sola, signore vigário, per favore..per favore,viene.
Ai o padre sentava a mesa que estava com toalhas brancas que até chegava a doer as vistas, comia um, dois, três e às vezes quatro pedaços de bolo de fubá. Ela sentia-se realizada quando via que o esfomeado do padre comia boas partes do bolo e ela gesticulava as mãos por trás da cabeça do padre espantando os moleques que ficavam no vão da  janela da cozinha espiando o padre comer. De olho na janela e de olho no bem estar do padre. Quando ela via que o café da caneca do padre estava para terminar, levantava e ia rapidamente no fogão de lenhas, pegava a chaleira e oferecia mais um pouco de café ao padre.
___Ha accettato più un po'di caffè, signore?
___Não, dona Aninha já estou mais que satisfeito.
___Ma il signore non ha mangiato quasi niente, padre.
___Comi sim, comi bastante e estou entupetado.
Daí dava um acesso de riso nela que parecia não ter mais fim. Ria da palavra ‘entupetado’ que o padre havia dito e que ela não conhecia.
___Non conosco questa parola, signore vigário.
Ria, ria muito e perguntava para o padre de onde tinha vindo essa palavra.
___Dove di esso viene questa parola?
___Na verdade não sei também, é coisa do interior, dona Aninha.
E o padre pegava o mesmo acesso da Napolitana e os dois davam boas gargalhadas para encerrar o café.
Ela levantava rindo e ia colocar a chaleira na taipa do fogão e olhava para as janelas e dizia quase sem poder dizer “ entupetado” ai era a deixa para os sete ou oito moleques começarem a rir também, mesmo sem vontade e compartilhando com ela nas boas gargalhadas e assim a festa tinha inicio. A molecada toda entrava em sua cozinha porque viam bom humor e em poucos minutos devoraram os pedaços de bolo de fubá. Ela apontava um dos moleques de boca cheia  e dizia__ »entupetado » __e mais ria ainda.
Dona Aninha, senhor vigário e agora os sete ou oito moleques todos dizendo  « entupetado »  ao mesmo tempo e as gargalhadas que não tinham mais fim que no final ninguém mais sabia do que estava rindo. Ela dava baitas tapas nas costas do padre e dizia:
___Signore il molto divertenti, signore  vigário.
Os moleques riam, mas riam com as bocas entupetadas de bolo. Riam por rir só para compartilharem, mas as intenções mesmo eram encher as barrigas do bolo de fubá delicioso que dona Aninha fazia como ninguém. Ela corria ate o guada-comida e trazia mais um bolo e todos ficavam entupetados de tanto que comiam. Porém a festa da criançada acabava quando o senhor vigário dizia que tinha que ir, os moleques diziam num coro ___Haaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa.
Ela o acompanhava até o portão e voltava correndo para a cozinha e com a vassoura expulsava a molecada de lá, dizia que eles eram gulosos e que não era mãe de pançudos. Ela pegava na vassoura e dava boas vassouradas para os lados sem atingir ninguém, só ameaçando os moleques.
___Vanno giá, vanno giá. Li desidero tutto il rifiuto qui. figlio de putana .
Os moleques saiam em desabalada carreira, tinha até uns que saltavam pela janela. Mas saiam todos de barrigas cheias e gritando entupetado”. 
Chegava o carnaval e ela odiava. Quando ela via alguém fantasiado logo se benzia e balançava a cabeça num movimento de repreensão.
O carnaval passava e a quaresma chegava, ninguém via a cara de dona Aninha no portão. Os moleques diziam que nessa época ela virava bruxa e assombrava as pessoas nos quintais. Porém isso nunca foi provado, deveria ser boato somente.
Metade da quaresma e ninguém viu a napolitana.
As vizinhas chamavam no portão, se esgoelavam muitas vezes e nada de dona Aninha dar as caras. Os moleques gritavam no portão que o jeep do cônego estava chegando mas qual nada ela nem dava confiança. Ela dizia que na época da quaresma o Dioguinho ficava solto e fazia as pessoas pecarem a todo instante, mas ela jamais iria pecar. O Dioguinho gostava muito de permanecer nos portões e era lá que ela nem iria passar.
___Dona Aninha o senhor cônego está chegando.___Gritava um.
E o silêncio na casa la no fundo do terreno continuava o mesmo, nem mesmo a janela ela abriu nessa época de quaresma.
___Va, va, non lo infastidisce. Va  via va.
Ela resmungou la  no fundo da casa para que ninguém a importunasse.
Enfim chegava a semana santa.
Logo no domingo de ramos pela manhã ela estava toda bonita para ir a missa. Colhia algumas folhas de palmeira e punha seu melhor vestido e lá ia para a igreja.
Não sei como, mas sua devoção era tanta e tanta  que mesmo que o senhor cônego mandasse abaixar os braços com os galhos de palmeiras que os fieis levava, ela não abaixava, seu braço deveria ficar dormente mas ela nem se importava.
Dizia ela que aquelas folhas de palmeira era para ser queimada em dias de chuva brava, relâmpago, trovoadas sem fim, para acalmar a tempestade.
As procissões da semana ela ia em todas e na da sexta feira santa quando era o enterro de Jesus ela chorava como criança e dizia que tinha dó de Jesus pelo sofrimento que ele passou na terra. Por mais que alguém lhe dissesse que isso foi a mais de  mil anos atrás mesmo assim ela dizia:
___Non mi importo.
E durante o trajeto da procissão ela ia chorando às vezes de soluçar.
Mês de maio ela fazia vários tipos de bolos e chamava as crianças principalmente as negras e dava de comer a vontade a todas, dizia que era a santa Isabel que  mandava ela fazer isso em arrependimento por ter escravizado os negros.
Dia 13 de junho, era dia de santo Antonio.
Na noite tinha festa naquela rua e lá iam pedir prenda para dona Aninha. Ela xingava quem fosse pedir e xingava santo Antonio. Dizia que o santo não havia dado-lhe matrimônio.
___ Non ha dato l'unione me, non gusto di esso santo.
Trancava o portão e naquele dia não atendia mais ninguém que batesse ali.
Quatro ou cinco dias antes do dia 24 de junho ela enchia peneiras e mais peneiras de doces de leite, abóbora,  moranga, cidra, laranja, goiaba, mamão etc, dizia que era para distribuir nas noites de são João e são Pedro. Como eram deliciosos os doces da dona Aninha, por terem ficado apurando no sol ficavam meio pururucas e deliciosos. A festança e a quadrilha acontecia na casa da dona Ninica. Ela levava todas as quatorze ou vinte peneiras de doces e arrumava sobre a mesa da cozinha da casa da festeira. Ai de quem descobrisse para beliscar um docinho daqueles, ela era capaz de bater. Dizia que antes da rezadeira rezar o terço ninguém bulia ali, só depois.
A rua já estava repleta de adultos e crianças que não paravam de correr. Era um entra e sai na casa de dona Ninica. Até que por volta da nove horas da noite Sa Chiquinha rezadeira chegava já com o rosário na mão. Os rojões começavam a explodirem. Sa Chiquinha tirava uma cantiga do santo e dona Aninha ajudava na cantoria com muito louvor. Hasteavam o mastro com a figura de São Pedro la no alto. Todos os fieis que quisessem ir para o céu tinha que por a mãos no  mastro de são Pedro para ele conceder a chave do céu no dia da morte. Aquele que botasse a mão e o mastro queimasse era porque morreria naquele mesmo ano, dona Aninha pois a mão e gritou, dizendo que o mastro lhe queimou . Dona Chiquinha se arrepiou e se benzeu.
O terço foi rezado e a festança começou. Dona Aninha ajudou servir os doces e bolos. Uma gritaria na rua eram os moleques pelejavam para subir no pau de sebo e ganhar o dinheiro que la no alto estava amarrado. Quentão, batata doce, pipoca, pé de moleque, tinha com fartura, canjica tinha também.
Ela preparou um prato grande com um pouco de tudo e mandou o Zezinho da Luiza levar na casa paroquial para o senhor cônego. O moleque guloso comeu tudo pelo caminho e o padre nem ficou sabendo dos quitutes.
Julho chegou e o frio cortava as ruas. Oito horas da noite não se via mais uma viva alma nas ruas da cidadezinha. Nas manhãs os orvalhos pingavam das plantas e das hortaliças. A parreira da casa da  napolitana estava repleta de flores preparando para o frutos para os próximos meses.
Vinte sete de julho a casa de dona Aninha amanheceu fechada. Mas naquele mês frio quase todas as casas demoravam para arreganharem suas portas e janelas.
O Zezinho foi no portão dela e gritou.
___Dona Aninha o jeep do cônego ta vindo.
Nenhum ranger de porta e nem um choro de dobradiça ao ser aberta a janela.
Mas tarde, o Janjan chegou no portão e gritou.
___Dona Aninha ta cheio de moleque bulindo na parreira.
O mesmo eco varou pelo quintal e nenhum movimento naquela casa.
Os homem pularam o portão e esbofetearam a porta, as janelas e nada de dona Aninha responder. Arrombaram a casa e ela estava estirada na cama com os olhos arregalados. Ela estava gelada  e morta, já a dias.
O padre foi chamado e deu-lhe a extrema-unção. Por sua devoção na hora do enterro houve missa de corpo presente, todos cantaram e seu corpo foi para o cemitério da saudade.
 
 
“Favori  che diamo allá signora
vergine per il Dio scelto
per i madre dello  di  redentor
a voi dei dolori « . 

Fragmento retirado do meu livro, biografias (Divinas Divas do Século XX)
José Carlos Ribeiro


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