jose carlos ribeiro






Dona Mocinha (em cordel)

Dona Mocinha
(Cordel)
 
Raste a cadera seu moço
Molhe o bico com caninha
Agora vou lhe contá
Duma tar dona Mocinha
I
Seu moço cá no sertão
Já vi mula sem cabeça,
Vi lobsome, seu doutô
Vi anão
Vi inté assumbração
Mas muê ispiritada
Inguar mocinha, num vi não
II
Era um fim de tarde
Era cumeço de estação
Mêis du padruero San João
Sua mãe estremeceu
Sua mãe estribuchô
Sá Marianinha partiu
Quando mocinha quem chegô
VI
Num houve jeito
Nem teve outra arrumação
Cumadi Zezinha foi quem disse
Cumadi Zezinha quem falô
A menina era taluda
Vai sê criada pelo avô
VII
Primeiros passo
Já cheia de danação
Parecia  minina home
Mas mureque num era não.
Subia aqui
Descia lá
Sartava ali
Caia cá
III
Ah Mocinha minina
Minina já moça
Pra escola não deu não
Pru mais que o avô pelejô
Nem decorô a lição
Mas tinha vestido de chita
Lábio de perdição
Zóio de jabuticava
e ânca  de melão
Rancava suspiro de macho
E das fêmea mardição
Com boa e com má querença
Já despertava intenção
Nas muiê a disavença
Nos home disarrumação
IV
Quando andava
Balançava os quarto
Sarpicava o chão
Seu busto era teimoso
Guardado ficava não
V
Um inté ofereceu
Bam tustão e companhia
Cinco vaca paridera
Vinte garote
Dez cabrita e uma nuvia.
Mas Mocinha disse não
Quis guarda seu coração
Para um verdadero pião
Para um cabra  valentão
E que tivesse modo bão
Que tivesse carinho e jeito
Pra domá seu coração
VIII
Pro fio do coroné
Ela tamém disse não.
 
Pro neto dum tar doutô
Ela nem deu atenção
IX
Pro fio do delegado
Nem pensou na cunvidação
Deu um baita não
Cumo prova da disafeição
O malandro armava as parte
E afirmava que era paxão
Era safadeza do cabra
Inredô Sá Cunceição
X
Foi um outro “ não”
Pu caçula do patrão
Que ficô todo avechado
Feiz inté recramação
Correu no pé da santinha
Jurô vingança
Num pediu perdão
E com os zóio cheio d’água
Por aquela mardição
XI
Mas foi o pião
Galego taludo
Caboco marrudo
Que conquistô seu coração
O cabra era safado que era o cão
Mas tinha modo na fala
Caricia nos dedo da mão
Não tinha boa intenção
E disse anssim :
-Se quê te meu matrimônho
Prumero vem cunhecê
Quero senti teu chero
Quero prová teu sabô
Quero prová tua carne
Quero sinti teu calô
XII
Pobre mocinha.
Mocinha ficô dengosa
Sua fala ficô prosa
Seu corpo ficô no cio
Ficô tão alucinada
Dona Zefa foi quem viu
Se intregô de corpo e arma
Atrais da moita e na cama
Não tinha dia e nem hora
No coração do galego
Mocinha ganhava fama
Mas era tudo mentira,
Era só fama de cama.
XIII
E o galego se fartô
Por tanto inté injoô
XIV
Mocinha se lambuzô, amô
Inté pecô
Seu vigário não perdoô
Mas do galego não apartô
Falaram isso
Disseram aquilo
Sá Gonçalina diz que viu
Sá Barbina presenciô
Quando a ânca de mocinha impinô
Já era tarde
Mocinha tava de teta cheia
O bucho subiu
A cara manchô
Teve dia que provocô
Mal estar
Grande enjoo
Seu corpo presenciô
-Essa mureca ta prenha
Disse Pai João, o benzedô
XV
Coitada da Mocinha
Que grande desarrumação
O galego quando sobe
Não parou nem para pensá
Picou a mula, furou a mata
Na outra banda foi morá
XVI
Ah! pobre mocinha
Chorô que seu zoio inchô
Mas nunca mais o cabra vortô
Seu peito ganhô ira
Seu coração ganhô dor
De um jeito e de outro
Inté que a cria chegô
XVII
Logo logo morreu o avô
O filho do seu patrão
Não contente com aquele “ não”
Concretizô a profecia
Botô mocinha e a cria
Na reta do estradão
XVIII
Lá ia a nordestina desolada
Cansada, pensando na mardição
Dando pra cria o peito
Dando pra vida um jeito
Mas não via solução
Mas foi indo sem rumo
Indo sem prumo
Indo com dor
XIX
Pobre Mocinha coitada
Por farta de leite seu peito secô
Por muito sugada sua teta rachô
Por farta de chuva o solo trincô
De fome e de sede a cria morreu
Nesse dia ameaçou mas, não chuveu
XX
Mocinha chorô, a menina soluçô
A lágrima ardida o vento secô
Seu corpo sem vida no solo prostrô
Tanto ódio no peito sua voz embargô
Nesse dia nem rezô
Abriu um buraco profundo no chão
E com pouca lamentação
Do graveto feiz cruzero
No seco do solo seu choro sumiu
Com mãos desolada a cria cobriu
No pó da estrada Mocinha sumiu
XXI
Logo adiante parô
Nem pra traiz oiô
Tem quem conta
Tião da moita foi quem viu
No amô
Nunca mais acreditô
Botou chapéu na cabeça
Jogou o cabelo no chão
Seu lindo vestido de chita
Vendeu por qualquer tostão
Inguar um caboco macho
Mocinha fez apresentação
Na fazenda do coroné
Nascia o zé valentão
XXII
Sua boca perdeu o surriso
As tetas sumiu
Seu olhar perdeu o bril
Não mais balangô os quadril
XXIII
Cuspia amargo
Da boca só saia palavrão
Vi embolada cum macho
Mas não era de paxão
Era briga feia, seu moço
Era feia disarrumação
XXIV
Puxava o rabo da enxada
Carpiu arroz, carpiu feijão
Fazia comida
Batia sabão
Buxada de bode
Salada de agrião
XXV
Rezava terço
Com bom jeito de vigário
Até fazia lovação
Benzia de bucho virado
Qualquer fio de patrão
XXVI
Muntava, sartava
Capava o bicho leitão
Coia leite da vaca
E do forno tirava pão
XXVII
Pescava, caçava
Armava cerca
Abria eito
Fazia vala
Sua garrucha tinha bala
XXVIII
Zé valentão
Era querido pelo fio do patrão
Fizesse chuva ou sor
Ele montava no burro
Cubria jibão
E no rumo da invernada
Buscava vaca parida
Bezerro órfão amamentava
Cria viva ele trazia
E a morta ele interrava
XXV
Domava boi
Cunduzia boiada
Amançava burro
No pé da invernada
X
Mas um dia,
Ah terríve dia !
Nem lembrá eu gosto não
Antes esse dia não tivesse brilhado
Pra tamanha judiação
 
Um galego
De olho azul que nem gato
Arisco que nem jaracuçu
Vozerão
Pediu emprego na fazenda
De nossa senhora da Cunceição
Convenceu inté o patrão
Que deu casa de morada
Deu sirviço e condição
Mas esse galego, seu moço
Foi a grande atormentação
Para um queto coração
De um tar Zé Valentão
Que na verdade era mocinha
Que passava por pião
E o grande amor do passado
Corrompeu seu coração
 
 
O cabra era mais loro que o sor
Mas fino que o bambu
Mais arisco que o felino
Zé Valentão quando via o galego passá
Arrepiava, mas ninguém sabia
Que dentro do peito
Seu coração batia
Ninguém não
O Galego descobriu
E foi logo dizendo sem pestanejá
-Sou moço sério
Sou homem de casamento
Não boli comigo, seu moço
Que eu não sou de bulição
Meu negócio é rabo de saia
E eu não sou baitola não
 
Zé Valentão que era a mocinha
Se aquetô por bom tempão
Mas era a paxão
Que não sossega um coração
E numa noite de san João
Fez certa decraração
Contô de um biete que tinha
Pra lhe entrega com amô
E o galego não gostô
A pexera ele puxô
-Já te avisei cabra safado
Nem seu nome preguntô
Não pensô no jurgamento
Nem debique ele escutô
E a lapiana ele interrô
Num so gorpe de facão
Num teve nem Valentão
E o bucho dela ele rasgô
 
Mas no que ela caiu
A camisa dela abriu
E as tetas apareceu
O galego era burro não entendeu
Catou o biete e sai
A lei foi chamada
No peito tamanha dor
Muntô no burro pimpão
Anti memo da prisão
Sumiu naquele estradão
 
Essa é a história, seu moço
Da tar paxão
Da tar Mocinha
Do tar galego
Da tar desolação
Que isso te sirva de lição
Va conta pro seu irmão
Da caboca que amô
Que seu corpo entregô
Mas de nada valeu
Na ponta da pexera ela morreu
 
Leia o biete seu moço
Como prova da mardição
 
Seu Galego,  das bandas do chapadão
Do meu corpo um dia tu te valeu
Nossa cria teu zóio não enxergô
Interrei na terra que Deus não regô
No meu peito o amô não acabô
Se no seu, arguma coisa valeu
E de mim não te esqueceu
Volta sem medo
Que ainda cedo...
Sua mocinha do passado.

Fragmento retirado do meu livro Biografias (Divinas  Divas do Século XX)
José Carlos Ribeiro/Escritor

CopyRight © Cepedê Sistemas & WebSites - Comércio eletrônico.