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Izacyl Guimarães Ferreira






ALGUNS POEMAS



A Maria Clara

De amor seria, se de adeus não fosse,
este lembrar aqui sem ter agora.
Eu amaria clara esta manhã
se não houvesse noite em que cuidar.

Mas não isto, não este, não de amor
esta que faço na lembrança doce
perda, querença amarga, desconsolo
de mar não ver senão desde o que fica.

Se não tive ganhei, perdi jamais.
Ganhei memória do não sido, neutro
desabrigo de sonho o que perdi

- se há perda em pertencer por uma noite,
- se é fruto converter em sol a sombra
que seria de amor, de adeus não fosse.


Semelhanças

Se não pertence ao mar
o que em seu dorso esplende
brasas de água, se do ar
não vem o que entre as mãos
acorda pombas, trêmula
plumagem sob um céu
cativo de pomares,
acaso envolvo leves
semelhanças evadidas:
ombro, seio, lábios, alma.


Túmulos

Sozinho, em massa,
corpo a corpo
inumerável,
cara a cara
emudecida,
todo soldado
é sempre um
desconhecido
no arco inútil
do triunfo.



Sarajevo

Não são bonecos de palha,
amortecidos na grama
sem ruído de algum parque.
São corpos que ainda ontem
se moviam descuidados
pelas ruas, sobre as camas.
Não são figuras de feltro.
São lembranças destruídas
onde nada faz sentido
para o pensamento neutro.



pedagogia

repensar na palavra o seu sentido
no som ouvido
repensar na palavra o seu destino
revelar a palavra

refletir a matéria em seu feitio
seu próprio estilo
reunir a matéria a seu espírito
refletir na matéria

escrever o sinal, sua beleza
e realeza
transcrever no papel a natureza
rescrever o real



Bico de pena:

Menos ainda. Lápis,
a ponta feita agora,
fio na insinuação
de um vale e um casario.
Agulhas, águas, telhas
na espaçada folhagem.
A densidade mínima
da caligrafia.
Cercanias. Sem tintas,
sem ouro. Preto e branco.



Quatro cavalos

Alheios à contemplação geral.
Sem arreios e sem ginetes, livres.
Os peitorais, colares, são sinal
de uma augusta nobreza, não de doma.
No amplo céu de Veneza, quase verdes
em seus bronzes, entre os ouros do Duomo,
estes cavalos vindos de Bizâncio
não galopam nem dançam. Mas respiram.
Estas narinas dizem que estão vivos
e suam. As cabeças inclinadas
falam, as patas altas espelhadas
em parelhas revelam: vão partir.
Marchando vão voltar para Bizâncio,
deixando sobre a praça as quatro sombras.





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