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Airo Zamoner






AS ARMADILHAS DO AMOR

Euvaldo nunca utilizou a tradicional mala escolar. Preferia envolver cadernos e livros arrebitados numa velha cinta que pertencera a seu avô, ou ao falecido pai, ou fora encontrada alhures em algum sótão esquecido, ou, sabe-se lá de onde viera aquela velha cinta...
O material vivia prisioneiro dessa algema improvisada. Uns trinta centímetros sempre sobravam para servir de cabo. Assim podia arrastá-lo, ou jogá-lo às costas, ou rodopiá-lo numa brincadeira perigosa. Na chuva, enfiava o pacote por dentro da camisa. Uma falsa proteção que justificava as manchas a camuflar inúmeras lições.
A avó que sempre fora criativa nos presentes, dando-os às mãos cheias, percebera o problema da mala. Soltava sua versatilidade na busca das mais atraentes, na vã tentativa de estimular a volta de Euvaldo aos padrões normais e tradicionais do comportamento humano. O insucesso era cada vez mais evidente. Não era uma questão de ter ou não ter uma boa mala. Seu quarto tinha uma imensidade delas, ocupando todos os cantos.
Naquela tarde, cansado, entrou em casa trombando o corpo contra a porta num forte estrondo. Jogou seu material sobre o sofá. Inopinadamente acordado de seu descanso, o velho sofá rangeu e devolveu o peso incômodo, funcionando tal e qual uma autêntica cama elástica. A inevitável batida no chão fez a cinta soltar-se e o aglomerado de objetos escolares, finalmente livre da camisa de força, espalhou-se como pode.
Sua mãe, preocupada, trocava visitas e telefonemas com a nova psicóloga. As antigas foram desistindo paulatinamente do caso na medida em que insinuavam aos parentes alguma culpa da própria cinta. Enfim, a nova psicóloga e a mãe de Euvaldo trocavam planos ocultos para acabar com aquele incômodo comportamento.
Naquela noite, surgiu a brilhante idéia. Baseava-se num princípio elementar. Se não era possível convencê-lo das inúmeras desvantagens de sua teimosa escolha; se não era possível fazê-lo sentir na carne as perdas que sua insistência trazia; se não era possível mudar seu comportamento com argumentos absolutamente lógicos; se não era possível o sucesso, ofertando o maior número possível de malas, resolveram presenteá-lo com novas cintas. Coloridas, mais largas, mais extravagantes, mais eficientes, mais seguras. A família reunida decidira por uma insidiosa armadilha: dar o falso recado de que todos haviam se convencido do acerto de sua luta persistente para manter a velha mania.
A avó foi a primeira a mudar sua linha de presentes. No dia seguinte ofertou a mais linda e perfeita cinta. Pediu que Euvaldo trouxesse seu material e trocou ela mesma, mostrando como o pacote ficara lindo. Ele olhou desconfiado e saiu de mansinho para seu quarto sem dizer palavra. Com uma das mãos levou o pacote envolto em sua nova embalagem, com a outra, arrastou a velha cinta pelo caminho. Não participou do jantar.
No dia seguinte o desânimo familiar era total. Euvaldo estava novamente com seus apetrechos escolares amarrados com a velha cinta. A psicóloga desistira do caso. A família se convencera de que nada mais havia por fazer.
Foi assim também durante a faculdade. Formou-se. Tornou-se um brilhante profissional e jamais abandonou o velho hábito. Claro que não carrega mais seu material escolar. Carrega seus relatórios, seu notebook, suas pastas sempre amarradas com a velha e inseparável cinta. Causa sempre constrangimento ao puxar seus apetrechos lá de baixo pelo rabo da cinta, estourando-os sobre a mesa, assim que chega às reuniões.
Acontece que Euvaldo acabou por se tornar candidato a um cargo eletivo. Estranho, não, caro leitor? Pois eu também confesso que estranhei muito. Não esperava isso de Euvaldo. Mas ele insistiu em ser candidato. Elegeu-se vereador e depois foi fazendo sua carreira política, surpreendendo a todos. Agora ele pretende chegar ao cume da carreira. Ser presidente do seu país. Mas não admite largar a cinta a despeito de todas as advertências dos consultores de marketing do seu partido.
Solteiro invicto, foi aconselhado a casar-se, ou ao menos apresentar ao povo sua namorada. Daria aos eleitores um sinal evidente de estabilidade familiar e, portanto, de segurança para a nação. Acabaria também com as maldosas insinuações sobre suas preferências que corriam clandestinas pelos caminhos da maledicência. A idéia era compensar junto ao público o aparente desequilíbrio trazido pela mania da cinta. Ficou pensando durante algumas semanas e depois avisou a todos que faria uma declaração nova. Fez isso durante um programa de televisão. Num determinado momento disse que tinha uma revelação a fazer. Abaixou-se e trouxe pela mão, lá de baixo da mesa, apresentando a todos sua futura esposa. Resolvera casar-se com a cinta. Elegeu-se no primeiro turno.

Airo Zamoner é escritor
airo@protexto.com.br


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