Apelido:

Senha:


Esqueci minha senha







Nelson Hoffmann






10 DE MARÇO, ANO IV

Saí de casa pensando em almoçar um peixe. Já saboreava. Naquela manhã...
Noite mal dormida, como tantas. Horas escoando, intermitências de sono, revirar na cama, alguma câimbra, seria mau jeito? Os primeiros sinais do dia, ruídos na cozinha, a mulher levanta. Está quase na hora da escola, ela prepara-se, vai lecionar. A empregada faz limpeza, bate uma gaveta, mexe nalgum talher. Eu agarro a última chance, restam poucos minutos: um olho no relógio, outro no sono.
Pronto, está na hora, não adianta mais. Rápido, agora. Fria e calculadamente. Matematicamente. Cronometradamente. Como um executivo que se preza, tempo é dinheiro, cada segundo vale ouro, nada se pode desperdiçar.
Primeiro, o banho de chuveiro. Concentradamente, por ordem: cabeça, tronco, pés, sem repetir gestos. O tempo é pouco, não pode haver atraso ao serviço. Chefia tem dessas coisas, tem que dar exemplo, chegar na hora, nunca sair antes. Manter a calma, delegar atribuições mas nunca perder o controle, fazer com que tudo sempre ande para frente, de forma harmoniosa. Continuadamente. Produtivamente.
Banho tomado, pronto. A barba, escanhoar com presteza. Três minutos para a barba, está aqui, no relógio, calculado para cumprir. Espuma, gilete, poxa!, preciso trocar de gilete, hoje não dá, não dá mais tempo, outra hora, está arranhando, quase!, loção após, feito! Três minutos.
E a camisa? Cadê a camisa, droga?! Pegaram pra lavar, só pode, eu não mandei. Os sapatos estão aqui, meias? Olha o tempo! Camisa? Vai esta mesmo, está à mão, já que...
- Hum! Cheirinho bom, hein? – enfiando a camisa nas calças, já na cozinha.
A empregada, contente pelo elogio:
- Peixe. O almoço é um peixe.
Saindo da cozinha, duas bolachas na mão, uma na boca. A empregada:
- Não vai tomar o café?
- Não dá tempo, estou atrasado, não posso chegar atrasado.
Escadas, degraus de dois em dois, espichando pernas, correndo – ainda não conseguia saltar degraus de três em três. O último corredor, a porta, o gabinete. A salvação na cadeira, dentro do horário, os olhos no relógio: oito horas.
- Pontualidade britânica.
Cotovelos na mesa, mãos espalmadas, cabeça abaixada. Levantar a cabeça e respirar forte. Tentar, pelo menos. A algaravia do início de expediente atropelava por todos os lados. Calma! As narinas guardavam restos de aroma dos temperos do peixe e o pensamento falava que este seria um bom almoço.
- Ah! Mas ele está aqui! - exclamou alguém, abrindo a porta do gabinete.
A zoeira do mundo irrompeu gabinete adentro. Recostar-se no espaldar da cadeira, de novo querendo respirar melhor. Isso não estava fácil. Há algum tempo já. Uma estranha contração oprimia o peito. Por vezes, nem sempre. Mas, sempre mais seguido. E mais forte. Puxava ar, sôfrego, inspirava, não conseguia inspirar até o fim. A inspiração ficava sempre a meio caminho, rascava, provocava pequena tosse, trancava.
- Estão chamando para a reunião.
Falta de ar, angústia.
- Me diz, o que eu faço com esse requerimento?
- A Câmara está entrando com dois pedidos de informação...
- Olha aí: mandaram fazer essa licitação, eu fiz, e o material já estava comprado. E agora?

As duas mãos no peito, em cruz, comprimindo, inclinação para a frente. Dor.
- O que há, o que está havendo com o homem?
Não, não, era só uma pequena dor, câimbra no peito. Nada demais, nervos.
- É pra vir já pra reunião!
- Eu preciso saber o que vou argumentar pro Governador... por que tiraram o difícil acesso... não aceita férias, quer uma negativa e deve, não pode, com jeito sim, licitação informação tribunal é crime material pedido contas legal sim ética...

Dor, dor! No peito.
- Esse homem tá mal.
Opressão, câimbra.
- Dêem lugar, ele precisa de ar.
Ar! Constrição. Ar!
- Cuidado!
Ar! Um redemoinho, tudo gira.
- Segura, ele vai cair!
Fraqueza, lassidão, entrega. Fim.
Podia ter sido o fim.
Voltei para casa vinte dias depois. Na lembrança, o aroma do peixe. Na vida, a presença da morte.

* * *

e-mail: n.hoffmann@via-rs.net


Tempo de carregamento:0,04