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Luiz C. Lessa Alves






MANGAS-LARGAS DO RIO

 MANGAS-LARGAS DO RIO
 
Estava eu à beira do campo de futebol, em Bangu, com alguns colegas, de repente um deles chegou cantando pneus, e alguém pergunta:
- Ué! Já trocou de carro outra vez?
- Não que eu quisesse! Furtaram o outro; com o dinheiro do seguro e mais uns trocados, comprei este.
Daí, até formar dois times para o início da pelada, começou o papo sobre roubo e furto de veículos. 
No decorrer da conversa, fiquei surpreso com a quantidade, ali, de pessoas que já tinham sido furtadas ou, o pior, roubadas. Algumas por mais de uma vez. Teve gente mostrando cicatrizes de bala, acontecido durante o assalto. Eu fui incluído, também, no grupo dos furtados; mas, apenas uma vez.
A chegada ríspida daquele novo carro, e os testemunhos sobre a falta de segurança no Rio de Janeiro, levou-me de volta à Bahia, algumas décadas.
Parei na bodega de meu pai, onde ele estava sentado no terreiro, quando seu Eron, fazendeiro cultivador de coco e criador de ovelhas, chegou riscando com seu novo cavalo machador e muito arisco! Preto, brilhoso, bastante bonito! Poldro, ainda.
Apeou, amarrou-o no mourão, fincado para esse fim, à sombra do tamarindeiro e, após tomar uma “talascada”, pediu que meu pai fosse dar uma volta no seu novo potro, ainda xucro. O que seu Manoel fez com prazer. Depois, sentados, ali debaixo do pé de tamarindo...
- E aí, compadre, que achou de Júpiter?
- Excelente, compadre! Além de marchar macio, é muito ágil; mas obediente às rédeas! Onde conseguiu?
- Comprei em  Sergipe: Indiaroba!
- E Netuno?
- Aposentei. Ele agora vive lá no pasto à toa. Os meninos é que às vezes dão umas voltas com ele, para que não se sinta desprezado.
- Por que não compra uma égua manga-larga e faz suas próprias crias, compadre?
- Já providenciei isso! Junto com Júpiter, comprei, também, Plutão, potro ruço, duas potrancas castanha e alazã: Vênus e Marte. Todos quatro com dois anos, somente!
- Meus parabéns, então, compadre! Mesmo sem saber quanto lhe custou, posso garantir que fez bom negócio!
- Obrigado, compadre! Agora estou bem servido de montaria! Com estes garanhões  e...
Não terminou a frase. Nesse momento, Júpiter despeja um monte de “quibe” esverdeado no terreiro da bodega de meu pai . Uma senhora borrada! Então, rindo, seu Manoel se vira para o amigo e diz:
- É, compadre, o senhor trocou de cavalo, mas a bosta não é diferente! Só a quantidade deste parece ser maior do que a do outro!
Dessa maneira tem sido aqui no Rio de Janeiro: troca-se de governador, prefeito... mas a quantidade de “quibe” despejada por esses bandas-largas... digo, esses governantes é cada vez maior! E assim como seu Manoel, o povo ainda ri!

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