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Izabel da Rosa Correa






CALEIDOSCÓPIO

Os tons de verde se sucedem intermináveis. É o verde-negro, verde-azul, verde-lilás, depois verde-marrom, verde-luz e verde-velho. Assim também, os amarelos, os rosas e os lilases. São recortes de cor quebrando a paisagem num quadro que se expõe e se esvai na janela do carro. Estou calada. O meu deslumbramento já não causa espanto aos demais, portanto não ouso manifestá-lo. Ora encho os olhos com a mistura de azul escuro e verde-preto da serra, ora com o verde-claro que se perde num amarelo suave, quase transparente, do vale. A natureza me encanta; mais que isso, se fundem em mim encantamento e melancolia. Extasia-me a beleza pura, forte, viva. Paralela ao êxtase, a melancolia. Quisera reter a beleza e até mesmo este sentimento de encantamento, mas ele é fugidio, por mais intenso que seja. A própria sucessão de belas cores e paisagens é a mais evidente prova de sua fungibilidade. Reluto em aceitar que tudo é ao mesmo tempo tão matéria e tão abstração. Amplio os sentidos. Aguço o olhar. Busco ao longe recortes de cor que permanecem mais tempo na mira, mas distantes, não me satisfaz a falta de nitidez dos contornos e o difuso da cor. Quando, afinal se aproximam e os tenho em todo esplendor, se desfazem em um instante. São substituídos por outros, ora mais belos, ora simplesmente diferentes. Cedo a essa angústia e desvio o olhar. Logo me descubro, outra vez, absorta na paisagem. Envolvida por ela na alternância de prazer e angústia. É quase como se não estivesse fisicamente dentro do carro, mas me misturasse às altas árvores e às flores de um rosa forte. Ou me perdesse, minúscula, nas montanhas enormes. A viagem tem um magnetismo veemente. Vivo-a de uma forma quase dolorida, pela própria intensidade.
Talvez o deslumbramento tenha nos atingido a todos. Percebo meus companheiros tocados pela imensidão que nos cerca, principalmente nas estradas mais desertas. Nas proximidades do rio, os paredões de pedra nos remetem à nossa própria insignificância. A estradinha de terra, cortada no meio da rocha, é uma cicatriz da montanha. Quebra indiferente seu poderio inerte. Milhares de borboletas amarelas. Amarelo intenso e único. Sentam-se no barro quase seco da beira do rio. Esvoaçam criando um oposição impressionante entre o topázio forte e claro e os tons indefinidos, escuros do barro. A imobilidade, a rigidez das enormes montanhas e a vivacidade de seres tão frágeis formam um contraste esplêndido.
Continuamos pela estradinha solitária, cheia de pedras e solavancos, contornando os paredões silenciosos e ameaçadores. Não, não há riscos, nem ameaças. São apenas temores infundados de uma mente fértil.
Aos poucos o verde ressurge e uma cidadezinha se define: casas simples, flores nas ruas de paralelepípedos. Repete-se o silêncio. O ruído do carro quebra o sossego, inclemente. As pessoas espiam nas portas. Sem pudor, espiam. Suas vidas carecem de novidades, mesmo que somente a percepção de estranhos por perto. Mais adiante, uma cena que verei reprisada muitas vezes em todo o percurso: cadeiras nas calçadas, grupos grandes reunidos, num ócio de fim-de-semana, fim de ano. Vejo-as sem alarido, prazerosas pelo simples fato de estarem juntas, entabularem conversas. Não há festas, nem grandes discursos, mas principalmente, não há pressa. Este último ingrediente é o que mais me surpreende. Não o percebia importante quando morava numa cidadezinha como essa. Não o tenho onde hoje vivo.
O tempo que levamos para atravessá-la não seria suficiente para que eu pudesse elaborar estes pensamentos. Logo estamos novamente na estrada. Ela fica perdida na poeira e no lusco-fusco da tarde.
Agora os morros são suaves, o verdor é denso e cortado por escuros capões de mato. Em outros recortes, a terra tem um tom acinzentado a acentuar a cor dos pés de milho. Paramos o carro. Um homem forte sai da plantação, pronto para nos prestar informações. Sua beleza rústica se adapta perfeitamente àquele lugar. Está vestido com cuidado. As calças largas, a camisa clara, as botas protegendo os pés. Ele nos dá informações com presteza. Estamos longe de nosso destino. A estrada não é muito boa em frente. Se chover, teremos problemas em alguns trechos. Seria melhor não viajar à noite. Fico comovida com suas recomendações. Na sua simplicidade, nos reserva cuidados de parente. Vejo pelo espelho retrovisor. Fica a nos observar enquanto o carro se distancia. Seu isolamento e sua perspectiva de vida o fazem preocupar-se por viajantes desconhecidos e que se aventuram por aquele mundinho tão seu.
Escurece. Desliga-se aos poucos a tela que me traz o mundo. A cor se resume ao grafite do asfalto, aos olhos de gato devolvendo a luz dos faróis, às poucas placas de sinalização que consigo visualizar. Ainda teremos muitas horas de viagem pela frente. Para mim ela já acabou.
Porém, os olhos fechados repetem as cores que retrataram. Minha viagem interna recomeça. Descubro nesse instante um novo elemento agregado à paisagem. Nela ficou um pouco de mim. Trouxe comigo um pouco de cor. Isso explica a força das sensações que a contemplação desperta. Afinal, além dos contornos e recortes, retido na paisagem está o deslumbramento e a angústia dos olhos, que numa fração de segundo a tiveram e a perderam.
Por isso, na volta da viagem, olhar outra vez será um novo olhar.




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