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Izabel da Rosa Correa






Uma casa e seus segredos

A lua derrama luz morna e branca nas águas aflitas. O som rude do mar encontra as rochas. A silhueta negra da grande figueira recorta-se contra o céu iluminado. A balança pendurada por um lado só murmura gemidos baixos.
“Muitas vezes estivemos aqui os dois. Agora estou só. Estarei assim pelo resto de meus dias. Fui um menino feliz. Adorava jogar pedrinhas. Vê-las desaparecer no redemoinho das águas. As mãos unidas impediam a aproximação do paredão - Cuidado, querido, fique perto da mamãe . Depois, quantas tardes estivemos aqui? Eu, Andressa e Patrícia dividimos esse velho brinquedo. Tudo tão longe. Não reconheço minhas irmãs e você não voltará. Para onde irei nos embalos da vida? Quem impedirá minha queda no precipício?”
– Está espionando?
– Vamos conversar.
– Pare de me seguir. Dirijo minha vida.
– Calma! Queria saber se estava bem.
– Agora já viu. Quero ficar sozinho.

O passo desanimado afunda frustração e tristeza nos buracos da areia.
“Vinícius continua se drogando. Desperdiça a vida. Tinha tanto futuro. Sonhei vê-lo médico. Agora na faculdade, perde-se no vício. Ah! Verônica! Você mimava demais esse menino. O que será dele? Foi difícil convencê-lo a fazer medicina. Vai ser mais complicado ainda mantê-lo estudando. Sua presença faz muita falta. Seus filhos são adultos, mas eram ligados a você. Dependentes. A Patrícia já é mãe e continua irresponsável. Brigas intermináveis com o Vinícius, implicância com a Andressa. O Lúcio é cuidado pela tia! Qualquer dia ele vai chamá-la de mãe!”.
– O Eduardo ficou lá na figueira, seu Andrade?
– Parado. Olhando o mar. Sem ver nada.
– Ainda bem. Pensei ter ouvido o barulho da moto. Sair naquele estado é perigoso.
– Talvez ainda reste algum juízo nele. Tenho pouca esperança.

Afeição, apego, proximidade. A vontade de revelar-se brinca nos gestos contidos.
“A Andressa dormiu no saguão, encostada no cobertor. É linda. Sinto tanto carinho ao vê-la. Está perdida sem Dona Verônica. Pena ser irmã da minha mulher. Temos o mesmo amor por meu filho. Eu a amo, também. Será lésbica mesmo? Ou seu interesse por mulheres surgiu porque não conhece bem os homens? A mãe sabia de tudo. Como eu, também investigava o computador. Com certeza viu as páginas de mulheres nuas acessadas por ela. Andressa nem supõe minhas deduções.”
– Vinícius! O Lúcio fica com você. Não sei da Andressa.
– Aonde você vai?
– Na cidade procurar um chaveiro com o papai . Só assim poderemos abrir a porcaria dessa porta.
A estranheza estimula o distanciamento. O vento fresco da madrugada pune a silhueta esguia. Há ironia no sorriso tirano.
“Tolo. Sempre com essa cara pensativa. Não o quero mais. Agora que a mamãe morreu, a grana vai ficar mais curta lá em casa. Vamos depender do meu dinheiro e do seu salário mixuruca. Se eu me separar, a pensão pro Lúcio vai ser proveitosa pra mim. É melhor fazer isto antes que o menino cresça e fique mais parecido com o verdadeiro pai. Aonde andará o maluco do Sergião? Durou só um mês. Foi tão bom. O menino tem os olhos dele. O Vinícius não pode suspeitar. A bobalhona da Andressa desconfia. Não vou deixar que atrapalhe meus planos.”
– Tem um casaquinho pro Lúcio no carro?
– Não, Andressa. Já volto. Estou saindo com papai.

O desconsolo remexe as mãos nervosas. Nenhum desafogo para a melancolia dos traços.
“A confusão domina meu pai. Esqueceu a chave da casa. Agora estamos aqui nessa praia deserta. Tarde da noite. Sem poder entrar. Mamãe podia ter todos os defeitos, mas era organizada. A Patrícia, desleixada, deixa o menino sem agasalho. Está quase dormindo. Tão lindo esse rostinho. Talvez eu queira um homem e tenha filhos. Às vezes o Vinícius me deixa sem graça. Olha tanto para mim. Pena desse meu jeito estabanado? A Patrícia é bem mais bonita. Magra. Pele linda. Nunca chamei atenção. Gordinha, escondida atrás dos óculos. Cabelo escorrido. Gosto dessa brincadeira com mulheres pela internet. Talvez signifique apenas um vício. A dependência do Eduardo é pior. Desistiu da faculdade de Arquitetura porque o papai obrigou. Foi fazer medicina. Aumentou o consumo de coca. Amo meu irmão. Sem a mamãe vai ser difícil curá-lo”.

O carinho borda ternura na fisionomia calada. A lua redesenha os traços delicados da criança.
“Esfriou bastante. O Lucinho está bem aquecido no meu colo. Estou com sono. Vamos dormir os dois. Ficou bom esse cantinho com o cobertor e a jaqueta”.

O barulho do mar. A noite e sua mudez. Afeições inquietas vagueiam. Encontram liberdade nas palavras sussurradas :
- Te amo, Andressa. O jeito calado, a cor da pele. O cheiro dos cabelos. Os olhos fugidios têm um tom esverdeado. Tudo me encanta. Se pudesse, teria você e Lúcio comigo. Não me afasto da Patrícia para não perder tua presença. É pouco, mas, me faz bem. Queria os abraços calorosos que o Lúcio recebe. Os beijos e as brincadeirinhas. Habitar tua alegria. Teu silêncio significativo. Abrir mais vezes o sorriso nesse rosto meigo. Continue a dormir. Não pode me ouvir. Nem deve. Nunca terei coragem de falar a esse respeito. Você prefere as mulheres e suas curvas. Queria ser o mais carinhoso dos homens para fazê-la descobrir-se fêmea. Dar-lhe todo prazer do verdadeiro tesão. Tua pele é macia. O corpo quente. Sonhar contigo é o que me resta.
- O que está fazendo?
- Nada, estava ajeitando o cobertor do Lúcio e da Andressa.
- Não encontramos chaveiro. Vamos esperar o dia amanhecer. Não quero estragar a casa. Já são duas da manhã. Acomode-se no carro junto com a Patrícia. Ela dormiu.
- Eu vou ficar aqui perto deles. O Senhor pode ficar na camionete.

Perplexidade. Sentimentos mistos norteiam a marcha. A estranheza se mostra na ruga cansada da testa.
“Ele estava beijando o rosto dela. Andressa dorme, ou finge dormir? Amo muito essa menina. Seu jeito masculinizado me apavora. Ao mesmo tempo, tem uma feminilidade maternal impressionante. O Vinícius está se envolvendo com ela. Não sei se fico feliz pelo interesse de um homem à minha filha. Ou preocupado por ele ser o marido da irmã. Ah! Verônica! Seu gênio era terrível, mas, nessa hora sinto sua falta. Morrer daquele jeito idiota foi mais uma das suas pra me machucar. Destruiu o meu carro antigo. Recém restaurado. Deixou-me seu bando de filhos problemáticos. Quero ir embora. Abandonar tudo e viver com minha doce argentina. Eu a vi agora à noite. Estava na porta da boate. Não pude falar com ela. Outro dia revelo sua existência.”
- Lúcio! Lúcio! Onde você está? Vinícius! Ajude a procurar!
- Vou lá atrás.
“Aonde foi aquele menino? Ouvi o Vinícius falar na madrugada. Beijou meu rosto com carinho. Depois deitou ao meu lado. Seu cheiro me perturba. Dormi faz pouco. O pequeno fugiu e não percebi. É quase um bebê e a mãe, uma relapsa. Está no carro penteando os cabelos.”
- Achei! Estava na piscina.
- Está azulado. Há quanto tempo caiu?
- Ficou pouco na água. Voltou a cor.
- Repita a respiração, Vinícius. Vamos salvá-lo!
- Papai!!!
- Está tudo bem, filhinho!
- Sua idiota! Você não cuidou do menino!
- Eu? Você não se importa com ele. Só tem a tia e o pai.
- Pai? Você não sabe nada. Acha que eu ia ter um filho com esse traste?
- O que disse, Patrícia?
- Isso mesmo! Ele não é seu filho. Eu não queria nem você, nem ele. Queria apenas me divertir com Sergião. Podem ficar com ele. Eu vou embora. Enjoei dessa farsa!
- Patrícia! Volte aqui!
- Deixe-a, papai. É melhor assim.

Quebra de laços. Raiva. Decepção. Alívio.
“O caos. Eduardo foi embora drogado. Deixou um bilhete no carro. Quer sua parte na herança. Deseja viver a vida como bem entender. Acabará se afundando! Agora, essa revelação da Patrícia: o Lúcio é filho daquele aventureiro paulista! A Andressa e o Vinícius vivem um clima de romance! Também cansei dessa família!”
- Você está bem, não é, Lucinho?
- Papai!!!Dessa!!!
- Ele está ótimo, Vinícius. Você o salvou.
- Meu filho!!! Ele é meu filho!!!
- Entendo você. Também o sinto assim... Ouvi suas palavras ontem.
- Ouviu?!
- Não sei o que pensar. Eu, você e o Lúcio estamos ligados de uma forma intensa.
- Há muito tumulto em torno de nós. Vamos esperar... Quem ama tem tempo.
“O tempo e eu. Uma casa fechada. O menino sem mãe e sem pai. O homem carente e gentil. A mulher em mim relutando em render-se. Palpitam emoções novas. A vida continuará seu balanço apesar das estruturas rompidas? Onde encontrarei a chave para destrancar as portas? Poderei alcançar o horizonte além da velha figueira à beira-mar?”

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